quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Sobre a sociedade positiva da transparência

O texto é sobre o capítulo 1, Sociedade positiva, do livro Sociedade da transparência de Byung-Chul Han.

Ele afirma que atualmente o tema da transparência domina o discurso público, que é evocado e conjugado com a liberdade de informação. A sociedade da negatividade sofreu desconstrução, e a sociedade da transparência se torna uma sociedade da positividade.
Elenca as mutações:
1 - As coisas se tornam transparentes quando qualquer negatividade é eliminada, encaixando-se bem ao curso raso do capital, da comunicação e da informação. As coisas abdicam da singularidade e se expressam unicamente pelo preço. O dinheiro desfaz o singular, igualando tudo. 
2- As ações se tornam transparentes quando se tornam operacionais, subordinadas ao cálculo, governo e controle.
3- O tempo se torna transparente pelo presente sempre disponível, o futuro será um presente otimizado, um tempo sem destino e sem evento. 
4- As imagens se tornam transparentes, quando se despojam de dramaturgia, coreografia e cenografia, da hermenêutica do sentido, e se transformam em pornografia, que é o contato direto entre imagem e olho. 
A sociedade da transparência é um abismo infernal do igual. 
A transparência não se relaciona apenas com corrupção e liberdade de informação. Ela é uma coação sistêmica que abarca todos os processos sociais provocando modificações profundas, acelerando e operacionalizando estes processos.
A desconstrução da negatividade caminha junto com a aceleração, o igual responde ao igual, formando uma reação em cadeia do igual.  A negatividade da alteridade, do que é alheio, ou a resistência do outro atrapalha e retarda a comunicação rasa do igual. A transparência estabiliza e acelera o sistema, eliminando o outro ou o estranho. Torna a sociedade uniformizada, sendo o "traço totalitário",  "traço uniforme" da transparência.
A linguagem humana contém uma intransparência constitutiva (Humboldt), possibilitando  a incompreensão e a divergência de pensamentos. Já a  linguagem da transparência é formal, mecânica, operacional eliminando a ambivalência, tornando-se maquinal. A coação por transparência, a violência da transparência,  transforma o homem num elemento funcional do sistema.
A alma humana é impermeável, precisa estar junto de si mesma, sem o olhar do outro. Uma iluminação total carboniza a alma e provoca um burnout psíquico. Somente a máquina é transparente.  A espontaneidade, capacidade de fazer acontecer,  e a liberdade não admitem a transparência.
Em nome da transparência a esfera privada é eliminada. A ideologia da post privacy é ingênua e equívoca. A transparência exige a eliminação da esfera privada, levando a uma comunicação translúcida. O ser humano não é transparente para consigo mesmo. "Segundo Freud, o eu nega precisamente aquilo que o inconsciente afirma e deseja irrestritamente". O id fica oculto no ego. Na psique humana é aberta uma fissura que não deixa o ego coincidir consigo mesmo. Essa fissura fundamental impossibilita a autotransparência. Fica então difícil criar uma transparência interpessoal, que mantenha viva a relação. A coerção da transparência não respeita à alteridade. Assim, frente o pathos da transparência que domina a sociedade atual é preciso exercitar o pathos da distância. Vergonha e distância não podem  ser integrados no círculo do capital,  da informação e da comunicação, para não serem eliminados pela transparência, que alcançando todos os refúgios, torna o mundo mais desavergonhado e desnudo.
Para Sennet a autonomia implica em aceitar o que não se compreende no outro. A relação transparente é uma relação morta, ausente de atração e vivacidade.
Uma maior quantidade de informações não implica em decisões mais acertadas.  A intuição transcende as informações. O abandonar e o esquecer pode ser produtivo. A sociedade da transparência não tolera lapsos de informação e nem lapso visuais, sendo que o pensamento e a inspiração necessitam de um vazio.
A palavra felicidade, Gluck provém de oco, Lucke. Assim, uma sociedade que não admite qualquer negatividade do oco seria
uma sociedade sem felicidade. O amor sem lacuna do ver é pornografia, e sem oco ou lacuna no saber o pensamento decai em cálculo.
Segundo Walter Benjamin para a beleza é necessária uma interligação entre velamento e velado. O objeto é belo em seu véu. Não existe beleza desnuda. A nudez se torna sublime quando vai além do belo, e não é pornográfica.
Mas o capitalismo acentua a pornografização da sociedade, ao enfatizar a hipervisibilidade e expor tudo como mercadoria, não conhecendo outro uso da sexualidade.
Byung-Chul Han se refere à diferença entre erótico e pornográfico. A exposição direta da nudez não é erótica. O movimento erótico surge da cena do focar e desfocar, a negatividade concede brilho à nudez (Eros em Freud, e a agalma, brilho do desejo desenvolvido por Lacan a partir da leitura realizada do Banquete de Platão no Seminário "A transferência"). A positividade da exposição da nudez é pornográfica, pois não apresenta o brilho erótico. O corpo pornográfico é raso, não sofre interrupção, que criaria uma imprecisão semântica, sendo esta erótica. "Não existe erotismo da transparência". Ao desaparecer o mistério em prol da exposição e do desnudamento total do corpo, de sua imagem, começa a pornografia. O processo de pornografização do visual se realiza hoje como uma desculturalização. Estas imagens são diretas, tácteis e infectivas. São pós-hermenêuticas. Não provocam leituras, mas contaminações. A sociedade pornográfica é uma sociedade do espetáculo.
A sociedade positiva não é dialética e hermenêutica. A dialética repousa na negatividade, que nutre a vida do espírito segundo Hegel. Só se torna possível pousar no negativo se se demorar nele. O espírito é lento. O sistema da transparência elimina a negatividade a fim de se acelerar, para se precipitar em vertigem no positivo.
A sociedade positiva não admite qualquer sentimento negativo. Esquece-se como se lida com o sofrimento e a dor. Para Nietzsche a alma é profunda e grande ao se demorar no negativo. A alma em sua infelicidade acende a sua fortaleza, o suportar, perseverar, e interpretar a infelicidade. 
A sociedade positiva quer reorganizar a alma humana  de um modo novo, inclusive o amor no sentido positivo se torna um arranjo de sentimentos agradáveis sem consequências, em fórmulas de consumo e conformidade, o ferimento sempre deve ser evitado, como afirma Alain Badiou em Louvor do amor, chamando atenção aos sites de encontro de casais. Sofrimento e paixão são figuras da negatividade, e em seu lugar entram figuras psíquicas como esgotamento, cansaço e depressão, que remetem ao exagero da positividade.
A teoria em sentido enfático  é uma manifestação da negatividade. É um campo que tem limites, estabelece o que pertence e nao pertence a ela. É narrativa, e traça uma senda de distinção, tornando-se violenta. Separa o que está misturado. Sem a negatividade da distinção as coisas podem chegar à promiscuidade generalizada. A teoria se aproxima da cerimônia, separando o iniciado do não iniciado.
Byung-Chul Han diz que é um erro admitir que a massa positiva de dados e informações torne supérflua a teoria, que o nivelamento dos dados substitua os modelos. A teoria como negatividade se estabelece antes dos dados e informações positivas e dos modelos. A ciência positiva baseada em dados não é a causa, mas consequência do fim da teoria iminente. Não ocorre uma substituição da teoria pela ciência positiva, pois esta não possui a negatividade da decisão, que decide o que é e o que deve ser. A teoria como negatividade faz com que a realidade se manifeste cada vez de modo diferente de súbito, no qual aparece uma nova luz.
Afirma que a política é um agir estratégico, logo possui uma esfera oculta. Uma total transparência a paralisa. Segundo Carl Schmitt a política precisa de mais "coragem para o oculto", sendo o fim do mistério o fim da política.
Byung-Chul Han diz que o partido dos piratas, partido da transparência, faz avançar a pós-política, que se iguala a despolitização. "É um antipartido, o primeiro partido sem cor". A transparência não possui cor. Não há ideologias mas apenas opiniões sem ideologias. As opiniões nao geram consequências, não apresentam negatividade de repercussão. A sociedade de opinião não toca no que já existe. A liquid democracy só troca cores dependendo da situação e o partido dos piratas  é um partido de opinião sem cores.
A política dá espaço à violência das necessidades sociais, que deixa intocáveis as relações socioeconômicas já existentes. O partido dos piratas  não tem condições de articular uma vontade política e produzir novas coordenadas sociais.
A coerção por transparência estabiliza o sistema existente. A transparência é positiva em si. Não há dentro dela qualquer negatividade que possa questionar o sistema político-econômico vigente. Está cega ao exterior do sistema, confirma e otimiza o que já existe. Logo a sociedadeda transparência caminha junto com a pós- política. "Totalmente transparente só pode ser o espaço despolitizado". 
O veredicto da sociedade positiva é "me agrada". O Facebook nega a introdução de um emotion de dislike, pois a negatividade paralisa a comunicação e prejudica o valor econômico. O que vale é a quantidade e velocidade das informações, elevando assim o valor da mercadoria.
Transparência e verdade não são iguais. A verdade é uma negatividade que se põe e impõe declarando tudo o mais como falso. Informações não produzem verdade, pois nao apresentam direção, saber, e sentido. "É precisamente em virtude da falta de negatividade do verdadeiro que se dá a proliferação e massificação do positivo".  A hipercomunicação e hiperinformação geram à falta de verdade, a falta de ser. A falta de precisão do todo é intensificada.

No Seminário "A transferência" Lacan afirma;
"É próprio das verdades  nunca se mostrarem por inteiro. Em suma, as verdades são sólidos de uma opacidade bastante pérfida. Elas sequer têm, ao que parece, essa propriedade que somos capazes de realizar nos sólidos, a transparência; elas não mostram ao mesmo tempo suas arestas anteriores e posteriores. É preciso que se lhes dê a volta, e diria mesmo, é preciso o passe de mágica".
(Lacan, 1961).

Bibliografia 

Han, Byung-Chul. Sociedade da transparência. RJ: Vozes, 2017.

Lacan, J. A transferência. RJ: Jorge Zahar Ed., 1992.

 

Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Algumas palavras sobre Coringa

                                    
Coringa (Joker), filme de 2019, dirigido por Todd Phillips, estrelado por Joaquin Phoenix


O anti-herói é herói. Reação à agressão pela agressão. Ao bullying, ao abuso, ao Gozo do Outro pela morte do outro e do Outro. Matar...Exterminar os idiotas. Uma identificação ao anti-herói na sociedade atual. O povo usa a máscara do Coringa como na série A Casa de Papel. O povo clama a reação pela violência. Não há escuta nem espaço para a palavra. Somente a eliminação do inimigo, do explorador, é a solução dada. Denúncia da sociedade atual. Desestruturação e psicose familiar. Coringa em vez de ter tido a possibilidade do processo de separação da mãe adotiva, a mata. A morte simbólica não tem espaço e sim o Real bruto de passagem ao ato. Uma criança explorada e maltratada. Questiona e aniquila o tratamento psiquiátrico. O menino Batman presencia a violência aos pais, poder sem saber, resultado da exploração econômica. Os meios de comunicação de moral demagógica também são assassinados. O que resta? Pegadas de sangue no chão. Os traços de sangue, as marcas de sangue da memória inconsciente...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Grande Circo Místico


O Grande Circo Místico – O gozo místico de Lacan

Filme de Cacá Diegues, baseado no poema de Jorge de Lima, narra a história de cinco gerações de uma mesma família circense, desde a inauguração do Grande Circo Místico em 1910 até os tempos atuais, onde os amores desta família são mostrados a partir de uma época farta até a sua decadência econômica familiar na atualidade. Amor, paixão entre os personagens, que retratam o sempre presente amor ao circo, onde os homens da família e o marcante mestre de cerimônias lutam pela sobrevivência desse fabuloso espetáculo.
O gozo está presente desde o início do filme através de paixões exacerbadas, trazendo temas de virgindade, maternidade, paixão, adultério, droga, loucura, morte. As mulheres gozam pelo olhar, objeto a, pelo voo libertário e ao mesmo tempo mortal, pela dança que busca o infinito, pelo gozo da carne, pela marca na carne, pelo voar dos anjos.
“O grande circo místico” de Cacá Diegues, pode ser pensado pela temática do gozo desenvolvida por Lacan. É uma versão cinematográfica que se aproxima ao gozo místico apresentado por Lacan no Seminário 20, “Mais, ainda” (Encore), gozo que está mais além. Santa Teresa de Ávila em escultura de Bernini goza. O êxtase de Santa Teresa representa a sua experiência mística, êxtase fora da linguagem, onde nada se pode dizer.
Na Idade Média duas concepções de amor estão presentes. A concepção física e a concepção extática. Na concepção física (physis), desenvolvida por São Tomás de Aquino e Aristóteles, a busca é do Bem em Aristóteles, e de Deus em São Tomás de Aquino. Já na concepção extática do amor a razão desaparece, sendo o amor relatado pelos místicos. No êxtase a ação está fora de si. O amor é dual, violento, irracional. A harmonia do amor físico é o oposto ao amor extático. O sujeito perde a sua alma, sendo que o amor pode ser mortal. É um gozo para além do princípio do prazer.
No Seminário 20, nas fórmulas da sexuação, Lacan situa o gozo místico do lado feminino, um gozo fora do significante. Santa Teresa de Ávila mostra que “falar é impossível” sobre este gozo.

Referência bibliográfica:
Lacan, J.  Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1985.
Quinet, A. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

sábado, 11 de agosto de 2018

Ética contemporânea


Ética contemporânea

Desenvolvo abaixo em poucas linhas o raciocínio que parte do texto de Freud sobre o masoquismo; algumas palavras sobre a ética em Freud e Lacan; e a argumentação lógica de Lacan sobre as fórmulas da sexuação, que chega ao axioma A mulher não existe, axioma que parte de uma lógica simbólica. Chego à conclusão de que a Ética não existe, mas podemos considerar éticas no plural atualmente.

Em O problema econômico do masoquismo (1924) Freud afirma:
“O complexo de Édipo mostra assim ser – como já foi conjecturado num sentido histórico– a fonte de nosso senso ético individual, de nossa moralidade. O curso do desenvolvimento da infância conduz a um desligamento sempre crescente dos pais e a significação pessoal desses para o superego retrocede para o segundo plano. Às imagos que deixam lá atrás estão, pois, vinculadas as influências de professores e autoridades, modelos auto escolhidos e heróis publicamente reconhecidos, cujas figuras não mais precisam ser introjetadas por um ego que se tornou resistente (grifo meu).
A primeira renúncia instintual é forçada por poderes externos, e somente isso cria o senso ético, que se expressa na consciência e exige uma ulterior renúncia ao instinto.”

Em Totem e Tabu, mito da horda primeva, Freud elabora a fundação da cultura através do ato criminoso do assassinato do pai da horda, e do devoramento deste pai despótico pelos filhos. No lugar de uma lei tirânica, onipotente do pai, surge um acordo entre os irmãos culpados, criando-se a lei simbólica, à qual todos estão assujeitados. Esta lei se refere ao pai morto, constituindo a dívida simbólica. Portanto, a lei e o desejo se enlaçam num liame trágico. O desejo incestuoso é barrado pela lei, tornando-se falta, falta a ser. O desejo é o movimento de busca de reencontro do objeto perdido, mas como o objeto é para sempre perdido, o encontro é faltoso. A lei estrutura o desejo humano, impedindo a realização do incesto. A ética do desejo é uma ética de responsabilidade, implicando que o sujeito não ceda de seu desejo frente ao gozo, desejo que o humaniza, o essencializa, tornando-o humano, protegendo-o do gozo, que seria um excesso, ultrapassagem da barreira da lei.
Nas fórmulas da sexuação, Lacan afirma que todos os homens estão submetidos à função fálica, à castração; existindo ao menos um homem que não obedece à função fálica já que é exceção à castração. Assim, podemos falar de um conjunto universal a propósito dos homens. Lacan também significa o mito da horda primitiva de Freud.
Já no modo de inscrição das mulheres na fórmula da sexuação nenhuma delas expressa a universalidade. Não todas as mulheres estão inscritas na função fálica, como também não existe uma mulher no lugar da exceção à castração. Assim as mulheres não constituem um conjunto universal sob a perspectiva fálica. Não existe uma expressão geral lógica para legitimar a mulher. Assim Lacan conclui que “a mulher não existe”.
Hoje devido à queda do Simbólico, do lugar da lei como exceção, que em Freud é internalizada pelo sujeito, fornecendo o senso ético, podemos afirmar que “a Ética não existe”, pois a lei é o lugar da exceção, e este conjunto universal que fornece a consistência ao sistema está em declínio na contemporaneidade.
A ética em Lacan é uma ética do bem-dizer, de escutar do inconsciente a palavra plena, constituindo o sujeito do desejo e da enunciação. Vivemos um momento de fake news. Das mortes traumáticas como irrupção do Real da pulsão de morte que não são esclarecidas, como também de fatos traumáticos, de verdades veladas, emergem mentiras que tentam como compulsão de gozo cobrir o real. 
Mas, será assim mesmo? A ética não existe?
Vivemos no tempo da Ética não existe, mas éticas existem (no plural). Mundo de pequenas leis, de grupos com desejos singulares. Cada grupo organiza o que é permitido, o que é proibido, o limite de cada membro. As éticas não se cruzam, não se encontram. A Ética não existe!


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência
                                                                                      Rosa Jeni Matz

Este trabalho parte de um filme A viagem de Fanny sobre um fato real ocorrido na Segunda Guerra Mundial, que mostra como um grupo de crianças responde à violência da guerra, e pretende fazer um contraste entre as respostas das crianças e adolescentes na contemporaneidade.
Filme: A viagem de Fanny – Le Voyage de Fanny
Fanny (Léonie Souchaud) tem 12 anos, é judia, e se esconde numa casa de acolhimento distante de seus pais junto com as duas irmãs mais novas durante a Segunda Guerra Mundial. Forçada a fugir rapidamente do esconderijo devido a invasão nazista, torna-se líder de um grupo de crianças, que viajam num caminho perigoso pela França ocupada para a Suíça. De início, as crianças são acompanhadas de uma senhora, mas devido às pressões e de imprevistos da ocupação nazista, o grupo prossegue a viagem sem a presença de um adulto, tendo que Fanny se tornar a guia deste percurso, e prematuramente escolher, decidir, cuidar, proteger.
Apesar da tensão devido o perigo da guerra as crianças são crianças.  As crianças menores fantasiam os nazistas como “monstros”, todas brincam com alegria e espontaneidade num riacho e numa cabana que se tornam palcos de fantasias, e através do brincar transformam o ambiente hostil em ambiente alegre e criativo. Alguns habitantes da região, em diferentes ocasiões, as auxiliam na fuga, retratando o valor da solidariedade e da amizade.
Questões: é possível pensar o exercício da função fraterna sem a sustentação da função paterna? Como encontrar vias para lidar com a queda do simbólico, da função fraterna, no momento atual?
O filme aborda a função paterna e a função fraterna. Neste momento de guerra e violência Fanny sustenta uma função paterna, que possibilita uma organização fraterna.
Joel Dor, em seu livro “O pai e sua função em psicanálise” (1) afirma que “a noção de pai intervém no campo conceitual da psicanálise como um operador simbólico a-histórico” (2). Mas, ao ficar fora da história, ele está “paradoxalmente inscrito no ponto de origem de toda história” (3), uma história mítica, mito necessário e universal. A noção de pai em psicanálise também não se refere “exclusivamente à existência de algum pai encarnado” (4), nada garante que a encarnação corresponda à consistência de um pai investido de legítimo poder estruturante do inconsciente. Não se trata de um ser encarnado, mas de “uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (5). Pela sua característica universal, o seu caráter é operante e estruturante, para qualquer sexo que a ele se refere. É Lei universal, é Linguagem. Sendo este pai simbólico universal, somos tocados pela sua função, que nos estrutura como “sujeitos”. Questiona: Sob que insígnias se alojam os pais encarnados, os pais que empiricamente são colocados em situação de se designarem pais? Responde: aparecem no máximo como diplomatas, e embaixadores comuns. O embaixador representa o seu governo junto ao estrangeiro, e o pai, “no real de sua encarnação” (6), deve representar o governo do pai simbólico, assumindo a delegação desta autoridade junto à “comunidade estrangeira mãe-filho” (7).
Em termos da carência paterna, pode-se afirmar que “a função paterna conserva a sua virtude simbólica inauguralmente estruturante na própria ausência de todo Pai real” (8). A função do Pai simbólico é exterior ao Pai real, sendo a função simbólica, a pedra angular da problemática paterna na psicanálise.
No texto Os complexos familiares na formação do indivíduo, de 1938, Lacan apresenta dois complexos fundamentais que se apresentam no início da vida psíquica da criança. De início, o complexo do desmame, o mais primitivo do desenvolvimento psíquico, representando a forma primordial da imago materna (representação inconsciente mental), que fixa a relação de amamentação no psiquismo e suas derivações.
O segundo complexo é o complexo de intrusão que representa a experiência que a criança realiza quando se reconhece entre irmãos. As condições dessa experiência são variáveis conforme as culturas, extensão do grupo familiar, e conforme o lugar que o acaso confere ao sujeito na ordem de nascimento: a de abastado ou a de usurpador. O ciúme (jalousie) infantil é observado neste período, e Lacan se remete à citação de Santo Agostinho: “Vi com meus próprios olhos, e observei bem um menino tomado de ciúme: ele ainda não falava, mas não conseguia desviar os olhos, sem empalidecer, do amargo espetáculo de seu irmão de leite” (Confissões, I, VII). A estrutura do ciúme infantil esclarece seu papel na gênese da sociabilidade, e do conhecimento humano. O ciúme representa não uma rivalidade vital, mas uma identificação mental. Em crianças entre seis meses e dois anos, confrontados aos pares e sem terceiros, há uma comunicação, que parece reações de rivalidade, como adaptações de posturas e gestos, ocorrendo conformidade em sua alternância, como provocações e respostas, onde se esboça o reconhecimento de um rival, de um “outro” como objeto. Essa reação, que pode parecer precoce, é determinada por uma condição dominante, um limite que não pode ser ultrapassado na distância etária entre os sujeitos, distância de dois meses e meio no primeiro ano do período considerado, e permanece estrito ao se ampliar. As reações mais frequentes são as da exibição, da sedução e do despotismo. O que se observa não é um conflito entre dois indivíduos, mas um conflito entre duas atitudes opostas e complementares. Cada parceiro confunde a pátria do outro com a sua e se identifica com o outro. Nesse estágio a identificação específica é baseada num sentimento do outro como imaginário. A imagem do outro aí está ligada à estrutura do corpo próprio.
Na situação fraterna primitiva a agressividade se mostra secundária à identificação. A amamentação é para a criança uma neutralização temporária das condições de luta pelo alimento, opondo-se Lacan à ideia darwiniana de que a luta está na origem da vida. O aparecimento do ciúme relacionado com a amamentação, apresentado pela citação de Santo Agostinho, dever ser interpretado prudentemente, pois esta cena pode se apresentar ao sujeito desmamado há muito tempo que não concorre com o irmão, sendo que este fenômeno exige uma identificação com o estado do irmão. Em outros trabalhos, Lacan se refere a esta cena como uma imagem de completude, onde o sujeito que a observa se vê excluído, uma visão totalizante, imaginária, onde o sujeito já esteve neste lugar. A agressividade se sustenta então numa identificação com o outro que é objeto da violência (a agressividade não é primária, é secundária).
Podemos encontrar expressão de agressividade em diversas cenas sociais. Esta identificação onde uma criança se percebe usurpada por outra criança abastada, e excluída desta imagem completa, acontece a todo momento em nossa sociedade através da luta de classes. Uma criança sem recursos econômicos, que olha através de uma vitrine de brinquedos o outro abastado de posse com o brinquedo que quer possuir, revive a todo momento em outras situações esta cena de completude imaginária.
O eu se constitui junto com o outro no drama do ciúme. A introdução de um terceiro irá substituir a confusão afetiva e a ambiguidade pela concorrência de uma situação triangular. O sujeito que enveredou pelo ciúme por identificação, desemboca numa nova alternativa onde é jogado o seu destino. Ou ele reencontra o objeto materno e se prende à recusa do real e à destruição do outro, ou é levado a algum outro objeto, acolhe-o sob a forma de conhecimento humano, como objeto comunicável. A concorrência implica em rivalidade ou concordância, sendo que aí é possível reconhecer o outro com quem trava a luta e firmar o contrato. O ciúme humano se distingue da rivalidade vital imediata, revelando-se o arquétipo dos sentimentos sociais.
Os traços essenciais do complexo fraterno são: o papel traumatizante do irmão que se constitui por intrusão, o fato e a época do seu aparecimento determinam a sua significação para o sujeito, a intrusão parte do recém-chegado e infesta o ocupante, sendo que o primogênito desempenha em princípio o papel de paciente. A reação do paciente ao trauma depende do seu desenvolvimento psíquico. Surpreendido pelo intruso no desarvoramento (desorientação) do desmame, o paciente o reativa sem parar ante o espetáculo deste, faz uma regressão, que de acordo com os destinos do eu, pode se revelar uma psicose esquizofrênica ou uma neurose hipocondríaca, ou então, reage pela destruição imaginária do monstro, resultando em impulsos perversos ou numa culpa obsessiva.
Mas, se o intruso sobrevier apenas após o complexo de Édipo, será adotado no plano das identificações parentais, não sendo para o sujeito obstáculo ou o reflexo, mas uma pessoa digna de amor e de ódio. As pulsões agressivas se sublimarão como ternura ou severidade.
O irmão também pode proporcionar o modelo arcaico do eu. O papel do agente cabe aqui ao primogênito, e quanto mais conforme for este modelo ao conjunto das pulsões do sujeito, mais feliz será a síntese do eu. É através do semelhante que o objeto, como também o eu se realiza, quanto mais pode assimilar de seu parceiro, melhor será a sua eficácia futura. Mas, também, o grupo de fratria familiar pode favorecer as mais discordantes identificações do eu. A paranoia manifesta temas de filiação, usurpação e espoliação, sendo que através da estrutura narcísica, temas paranoides de intrusão, do duplo, e transformações delirantes do corpo são revelados. O grupo familiar, reduzido à mãe e a fratria, desenha um complexo psíquico em que a realidade é imaginária, possibilitando eclosões de psicoses, de delírio a dois. Assim, torna-se essencial a introdução do terceiro para a constituição do sujeito em suas relações sociais.
Podemos pensar a função fraterna em termos de identificações imaginárias, horizontais, sustentada pela função paterna, eixo vertical, de identificações simbólicas.
 As “tribos” na atualidade se organizam por relações horizontais, sendo grupos formados por afinidades. Se hoje há uma queda da função paterna, há também queda da função fraterna. Estamos num mundo narcísico onde o Outro não tem lugar. O ódio situado por Lacan no eixo formado pelo imaginário e real se apresenta a céu aberto. O ódio que é a resposta afetiva primeira do sujeito por ele ser cortado pela Linguagem, afeto efeito de estrutura, torna-se como diz Lebrun em gozo do ódio atualmente.
Estamos vivendo o que Freud relata em Totem e Tabu, o momento da horda primitiva, do pai tirânico, usurpador, de gozo interminável. Momento atual aquém ou após o complexo de Édipo? Estamos no caos político e social. Não há espaço simbólico para que nossas crianças, principalmente as que habitam as áreas de maior violência em nossa cidade, se organizem em grupos e frequentem as escolas. Lacan, em seu derradeiro ensino, considerou o simbólico uma confusão, muitas línguas, e várias dificuldades em apreender o real, tendo como consequência a queda do simbólico na atualidade. Hoje estacionamos no narcisismo, numa situação especular e espetacular sem saída. Os grupos se formam em situações narcísicas onde as rivalidades, situações de bullyng refletem a dificuldade na saída do complexo de intrusão apresentado por Lacan. E sem direção do Outro. Algumas crianças e jovens conseguem ir nesta direção. Algumas delas viveram ou vivem num lar onde havia ou há a mediação de um terceiro. Mais ainda, através de uma instituição que represente este lugar simbólico, crianças e jovens conseguem fazer sinthoma, um quarto nó que se acrescenta ao nó borromeano dos três registros, imaginário, simbólico e real, e a partir daí desenvolvem uma suplência simbólica. Mas, e as crianças abandonadas? Crianças de rua, que vivem a céu aberto? Nós, psicanalistas, precisamos estar atentos ao gozo desenfreado que cobre o espaço com balas perdidas, consumo, tóxicos e outros objetos a, que só apresentam a face de gozo. Onde está a face causa do desejo?

Fanny, em sua viagem de coragem para a liberdade, liberdade em relação com a Lei, Linguagem, conseguiu conduzir às crianças e atravessar à fronteira, sustentada pelas funções paterna e fraterna. Mas, se atualmente há o esvaziamento do simbólico, podemos então elucubrar sobre esta questão que Lacan nos deixa em seus últimos seminários, que é “imaginar o real”. Esta questão nos traz um fato clínico: a inibição. A inibição é a imisção do imaginário no real. Estamos neste momento social inibidos.
As crianças podem nos trazer as respostas...

Notas:
1-Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
2-Ibid.p.13
3-Ibid.p.13
4-Ibid.p.13
5-Ibid.p.14
6-Ibid.p.14
7-Ibid. p.14
8-Ibid.p.18

Referência bibliográficas
Dor, J. O pai em sua função em psicanálise. RJ: Jorge Zahar Ed., 1997.
Freud. Totem e Tabu. Standard Edition. RJ: Imago Ed, vol XIII.
Kehl org. Função fraterna. RJ: Relume Dumará, 2000.
Miller, J-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. RJ: Jorge Zahar Ed., 2009.
Lacan, J. Os complexos familiares. RJ: Jorge Zahar Ed., 1985.
Lebrun, J-P. O futuro do ódio. Porto Alegre:CMC Ed., 2008.
Filme: Le Voyage de Fanny
           Direção: Lola Doillo    -  Nacionalidade: França

Filme baseado na história real de Fanny Bem-Ami contada em sua autobiografia Le Journal de Fanny.  

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

"A luz entre os oceanos" e a ética de Kant

"A luz entre os oceanos" e a ética de Kant.
                                        Rosa Jeni Matz

Filme de Derek Cianfrance com Alícia Vikander, Michael Fassbender, Rachel Weisz, baseado no livro de Stedman.

Trata-se de um filme sobre ética, amor, Bem e perdão.
Tom se torna faroleiro na ilha de Janus após voltar da guerra. Casa-se e leva a sua esposa para a ilha. Vivem bem felizes juntos até a esposa engravidar e abortar dois filhos.
Num certo dia surge do mar um barco com um homem, morto, e um bebê. A esposa insiste em ficar com a criança, embora Tom não concorde, mas cede diante da insistência da esposa. 
Mas, sendo um homem correto e com princípios morais, Tom começa a viver um pesadelo moral.
Tom é um personagem que transmite os princípios da ética kantiana. Aliás, o filme é uma aula sobre Kant.
Kant elimina do campo moral a determinação passional, qualquer motivo que tenha como fonte as paixões. As paixões se situam num plano particular, individual, e não universal. Para Kant a razão pura segue os princípios universais, assim a ação determinada pela lei moral se torna universal.
A ação moral é determinada somente pela razão pura, e essa determinação é uma lei.O único fundamento desta lei é a razão, e não algo externo à razão. Kant afirma que a razão pura é prática ao fornecer ao homem uma lei universal que é a lei moral, sendo lei incondicional. O homem deve agir de acordo com esta lei, sendo a lei um imperativo.
Um homem afetado por carências e paixões, pode se conflitar com a lei moral.Tom se deixa afetar pela carência da esposa preenchida pela criança vinda do oceano, e daí vive um conflito moral. Ama a sua esposa. Depois de alguns anos conhece a mãe real da menina, e o seu dever moral se fortalece frente à paixão.
Além dessa questão moral é um filme sobre amor, e sobre o Bem. Após conflitos, raiva ódio, o bem para o outro e do outro, o semelhante, prevalece. O perdão também é enfocado.
É um belo filme para pensar com a filosofia! 

Referências:

Kant, I.Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
Kant, I.Crítica da Razão Prática. Lisboa: Edições 70, 1999.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Transgeneridade e Psicanálise


                                            Transgeneridade e Psicanálise

                                                                                         Rosa Jeni Matz

O jornal informa a descoberta de uma nova espécie de humano antigo, o Homo naledi[1], que apresenta a mistura de características dos humanos modernos com hominídeos mais arcaicos. Também, a foto de um transgênero é publicada, não mais resultado de uma mistura de características do macaco e do Homem, mas uma mistura de características masculinas e femininas.
Outra notícia do jornal é a afirmação da educadora finlandesa sobre a contemporaneidade: “Pensar e resolver problemas não é mais suficiente”[2]. A Finlândia está se preparando para mudanças em seu modelo educacional, pois devido ao acesso de informações facilitado atualmente pela tecnologia, o professor não é mais “o cálice sagrado do conhecimento”. Há um foco na criatividade da criança, na responsabilidade social, no pensar diferente, e na transdisciplinaridade.
Alguns professores do Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, utilizaram “x” no lugar das vogais “a” e “o”, criando o neologismo “alunxs”[3], em vez de alunos/alunas, com o intuito de assinalar a não distinção de gêneros. Este neologismo foi utilizado em avisos de parede e cabeçalhos de provas.
Diferença sexual?
A transgeneridade é a condição onde a expressão de gênero ou identidade de gênero de uma pessoa é diferente daquelas atribuídas ao sexo biológico, e também ao gênero, designado ao sujeito no nascimento.
Falamos hoje em identidades. E por onde anda o conceito de identificação? O conceito de identificação estaria mais próximo à neurose e ao recalque, sendo resultado da Metáfora Paterna, operação de substituição do significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai. Ocorre a identificação a um traço paterno, traço unário (freudiano e lacaniano).
No momento atual nos referimos às identidades, pois em vez do Nome-do-Pai nomear, o parlêtre tem a possibilidade de fazer o seu próprio nome, se nomear. Através de estudos sobre James Joyce e os nós borromeanos, Lacan se aproxima de nossa época, cuja questão é “fazer-se um nome”, ter uma identidade singular.
O transgênero aponta para esta identidade de “fazer-se um nome”. Não só um nome, mas um sujeito. Transforma o sintoma, antes considerado patológico, em Sinthoma, fazendo um novo nó, que pode ser um Nome-do-Pai, e daí constrói a sua vida como sujeito. Lacan no seu último ensino fala de Nomes-do-Pai: Imaginário, Simbólico, Real e Sinthoma.
Para Freud no inconsciente só há uma libido, a masculina, não existindo representação da mulher no inconsciente. Só há Um. Na psicanálise o falo é o símbolo sexual por excelência, apontando à falta e à castração. O falo se refere à falta do pênis na mulher. Se todo sujeito é efeito de uma posição masculina, que termos são esses homem e mulher em uso na cultura? Os termos caminham para o desuso.
Freud pensa o falo através da fase fálica, contemporânea ao complexo de Édipo. Em seu texto ”Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925) [4] escreve:
“A diferença entre o desenvolvimento sexual dos indivíduos dos sexos masculino e feminino no estádio que estivemos considerando, é uma consequência inteligível da distinção anatômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí envolvida; corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que foi simplesmente ameaçada”.
Freud assinala a presença da percepção visual na discriminação dessa diferença. Em relação às meninas: “Elas notam o pênis de um irmão ou companheiro de brinquedo, notavelmente visível e de grandes proporções, e imediatamente o identificam com o correspondente superior de seu próprio órgão pequeno e imperceptível, dessa ocasião em diante caem vítimas da inveja do pênis”.
Enfatiza a ameaça da castração como fator fundamental para a dissolução deste complexo no menino, enquanto na menina a fantasia da castração já é “consumada”. Afirma que na saída do complexo de Édipo, em “casos normais, ou melhor, em casos ideais, o complexo de Édipo não existe mais, nem mesmo no inconsciente; o superego se tornou seu herdeiro”.
O pai, nos velhos tempos, representava a moral, a lei, fazendo a função de um Outro consistente. O Outro atualmente não proíbe nada, incita a gozar (Goze! Voz do supereu) e a ultrapassar limites, gozo do Outro. O que se manifesta na atualidade é o gozo, do supereu, o super-homem. Logo, o que herdamos hoje é o superego dos pais como caminho do gozo, e para o gozo, e não mais ideais.
No texto de 1924, “A dissolução do complexo de Édipo[5], Freud associa também outras duas experiências sofridas pelas crianças que “as preparam para a perda de partes altamente valorizadas do corpo” (p. 219), que são a retirada do seio materno e a exigência de soltarem os conteúdos do intestino.  Mas, só após o surgimento de uma “nova” experiência em seu caminho, que a criança avalia a possibilidade de sua castração, que ocorre principalmente através da “visão dos órgãos genitais femininos”.
Através desta afirmação de Freud sobre a “ameaça de perdas valorizadas do corpo” podemos encontrar o gancho para pensar o complexo de Édipo na atualidade. A ênfase hoje é no gozo, na perda de gozo. Os objetos a: seio, fezes, olhar e voz, representam estas partes perdidas do corpo infantil, mas que hoje se tornam zênite de gozo. A castração agenciada pelo pai real implica numa perda de gozo, do gozo incestuoso mãe-criança. A entrada do significante produz uma perda real. O que hoje acontece é o sujeito não aceitando esta perda necessária para estruturá-lo, o sujeito hoje tenta driblar esta perda de gozo. Busca tapar a falta do Outro com esta parte de gozo perdida, renegar a castração. O sujeito se iguala ao objeto. O S1 se torna a. A questão: Como posso melhor gozar?
Estamos num momento diferente do significante falo como significante do desejo do Outro. O gozo é do Um sem o Outro, solitário, autista e assexuado.
Logo, pode não implicar a sexualidade como diferença, já que o significante é o elemento diferencial último. O S1 é a marca da diferença no Outro, resultado da metáfora paterna, e identificação ao traço unário. Há apagamento do Outro, ficando o sujeito solitário frente ao objeto, mais além do Édipo.
No seminário 20, Encore (1972/3)[6], nas fórmulas da sexuação, apesar de Lacan eleger a função fálica como operador da castração, ele posiciona tanto o homem e a mulher em qualquer dos dois lados, abrindo assim o leque para diferentes identidades. O homem pode se posicionar no lado da Mulher, do gozo suplementar, ilimitado; e a mulher que é não-toda fálica pode se posicionar no lado Homem, do gozo fálico.
Père-version, as várias versões do pai. Respostas ao Um do pai. Cada sujeito vai ter a sua versão. Há vários Nomes-do-Pai. A neurose, a psicose e a perversão são posições diferentes diante da questão do Pai.
No seminário 4, A relação de objeto (1956)[7], Lacan comenta o caso da jovem homossexual de Freud, e assinala outras formas das vias perversas do desejo. Na perversão o sujeito busca esconder a falta fálica da mãe através do véu. O véu esconde que a mãe não tem o falo, mas ao mesmo tempo é onde se projeta a imagem do falo simbólico, a mãe tem o falo. No fetichismo, o fetiche é uma imagem projetada, deste falo ausente, simbólico.
Nestas vias pode ocorrer a identificação com a mulher, o sujeito se situando no lugar da mãe. No travestismo ocorre uma identificação com a mãe que tem o falo. No homossexualismo a ênfase é no seu falo, mas que deve ser buscado no outro. O homossexual se identifica com a mãe que deve ter o falo, a mãe que faz a lei para o pai. Identificação com o gozo da mãe, e não com o desejo e o amor. Várias leis?
Os lacanianos chegaram a aproximar os transexuais à psicose, devido à confusão entre o falo e o pênis, entre o significante e o órgão, reduzindo o falo ao pênis real, ao próprio órgão; e pela foraclusão da castração simbólica, buscando uma intervenção cirúrgica de fato ao nível corporal. Mas, Catherine Millot[8] traz uma proposta interessante de que assumindo uma identidade de “A Mulher” o transexual limita o gozo do Outro, colocando o significante “A Mulher” como função do Nome-do-Pai. Mas, este sujeito se coloca fora do sexo, encarna o sexo dos anjos, já que o significante da diferença sexual, o falo é desconsiderado. 
Assim, vários Nomes-do-Pai. Como diz Lacan: varité. Condensa verdade (vérité) e variável/variedade (variété), criando o neologismo “varité”, variedades da verdade. A verdade não é única, tem variedades.  
                                                                                                                                                          


[1] Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 11/09/2015
[2] Ibid., 12/09/2015
[3] Ibid., 26/09/2015

[4] Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.
[5] Ibid.
[6] Lacan. J (1972/3). Seminário 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.
[7] Lacan, J (1956/7). A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
[8] Dor, Joel. Estrutura e perversões. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1991.