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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Grande Circo Místico


O Grande Circo Místico – O gozo místico de Lacan

Filme de Cacá Diegues, baseado no poema de Jorge de Lima, narra a história de cinco gerações de uma mesma família circense, desde a inauguração do Grande Circo Místico em 1910 até os tempos atuais, onde os amores desta família são mostrados a partir de uma época farta até a sua decadência econômica familiar na atualidade. Amor, paixão entre os personagens, que retratam o sempre presente amor ao circo, onde os homens da família e o marcante mestre de cerimônias lutam pela sobrevivência desse fabuloso espetáculo.
O gozo está presente desde o início do filme através de paixões exacerbadas, trazendo temas de virgindade, maternidade, paixão, adultério, droga, loucura, morte. As mulheres gozam pelo olhar, objeto a, pelo voo libertário e ao mesmo tempo mortal, pela dança que busca o infinito, pelo gozo da carne, pela marca na carne, pelo voar dos anjos.
“O grande circo místico” de Cacá Diegues, pode ser pensado pela temática do gozo desenvolvida por Lacan. É uma versão cinematográfica que se aproxima ao gozo místico apresentado por Lacan no Seminário 20, “Mais, ainda” (Encore), gozo que está mais além. Santa Teresa de Ávila em escultura de Bernini goza. O êxtase de Santa Teresa representa a sua experiência mística, êxtase fora da linguagem, onde nada se pode dizer.
Na Idade Média duas concepções de amor estão presentes. A concepção física e a concepção extática. Na concepção física (physis), desenvolvida por São Tomás de Aquino e Aristóteles, a busca é do Bem em Aristóteles, e de Deus em São Tomás de Aquino. Já na concepção extática do amor a razão desaparece, sendo o amor relatado pelos místicos. No êxtase a ação está fora de si. O amor é dual, violento, irracional. A harmonia do amor físico é o oposto ao amor extático. O sujeito perde a sua alma, sendo que o amor pode ser mortal. É um gozo para além do princípio do prazer.
No Seminário 20, nas fórmulas da sexuação, Lacan situa o gozo místico do lado feminino, um gozo fora do significante. Santa Teresa de Ávila mostra que “falar é impossível” sobre este gozo.

Referência bibliográfica:
Lacan, J.  Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1985.
Quinet, A. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

"A luz entre os oceanos" e a ética de Kant

"A luz entre os oceanos" e a ética de Kant.
                                        Rosa Jeni Matz

Filme de Derek Cianfrance com Alícia Vikander, Michael Fassbender, Rachel Weisz, baseado no livro de Stedman.

Trata-se de um filme sobre ética, amor, Bem e perdão.
Tom se torna faroleiro na ilha de Janus após voltar da guerra. Casa-se e leva a sua esposa para a ilha. Vivem bem felizes juntos até a esposa engravidar e abortar dois filhos.
Num certo dia surge do mar um barco com um homem, morto, e um bebê. A esposa insiste em ficar com a criança, embora Tom não concorde, mas cede diante da insistência da esposa. 
Mas, sendo um homem correto e com princípios morais, Tom começa a viver um pesadelo moral.
Tom é um personagem que transmite os princípios da ética kantiana. Aliás, o filme é uma aula sobre Kant.
Kant elimina do campo moral a determinação passional, qualquer motivo que tenha como fonte as paixões. As paixões se situam num plano particular, individual, e não universal. Para Kant a razão pura segue os princípios universais, assim a ação determinada pela lei moral se torna universal.
A ação moral é determinada somente pela razão pura, e essa determinação é uma lei.O único fundamento desta lei é a razão, e não algo externo à razão. Kant afirma que a razão pura é prática ao fornecer ao homem uma lei universal que é a lei moral, sendo lei incondicional. O homem deve agir de acordo com esta lei, sendo a lei um imperativo.
Um homem afetado por carências e paixões, pode se conflitar com a lei moral.Tom se deixa afetar pela carência da esposa preenchida pela criança vinda do oceano, e daí vive um conflito moral. Ama a sua esposa. Depois de alguns anos conhece a mãe real da menina, e o seu dever moral se fortalece frente à paixão.
Além dessa questão moral é um filme sobre amor, e sobre o Bem. Após conflitos, raiva ódio, o bem para o outro e do outro, o semelhante, prevalece. O perdão também é enfocado.
É um belo filme para pensar com a filosofia! 

Referências:

Kant, I.Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
Kant, I.Crítica da Razão Prática. Lisboa: Edições 70, 1999.