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sexta-feira, 3 de junho de 2022

O gozo na contemporaneidade

 

                                            O gozo na contemporaneidade

                                                                                   Rosa Jeni Matz

 

O conceito de gozo em Lacan se aproxima do conceito de gozo em Freud. Freud utiliza o significante Genuss, gozo, em sua conotação sexual. Freud afirma que o aparelho psíquico é governado por um princípio regulador, princípio do prazer, que visa o esvaziamento de tensão, homeostase, equilíbrio, e quando ocorre um excesso de energia, que é sentido pelo sujeito como desprazer, entramos na dimensão do gozo, o além do princípio do prazer (Além do princípio do prazer, 1920).

 Freud se refere ao ganho secundário da doença, que é a vantagem, o lucro, que a doença pode trazer ao sujeito. Versa sobre o ganho primário e o ganho secundário da doença. O ganho primário de uma doença poupa o indivíduo de um conflito psíquico. Já o ganho secundário é o ganho que surge quando um sujeito sofre, por exemplo, um acidente no trabalho, é penoso porque ele fica sem o trabalho, mas no momento que ele recebe a indenização pelo acidente, ele pode não querer retornar ao trabalho. Surge um ganho de gozo nesta condição. É importante frisar que o adoecimento que se traduz em ganhos primários e secundários é inconsciente, e o ganho secundário é gozo.

Freud diz que há uma tendência do psiquismo para a repetição, compulsão à repetição, que ultrapassa o princípio do prazer, que aponta à pulsão de morte. Surge o novo dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte. O sujeito sofre uma coação de repetir experiências dolorosas, traumáticas, de desprazer, experiências recalcadas, que o sujeito não recorda, e que são repetidas como vivências atuais em sua vida. O conceito de compulsão à repetição traz o além do princípio do prazer, como tentativa de assimilar o traumático, aproximando a pulsão de morte à inércia, estado anterior do ser vivo. A pulsão de morte surge em estados de gozo do sujeito quando ele ultrapassa a barreira do prazer, o limite, a lei, indo de encontro à morte. O princípio do prazer é limite ao gozo.

Em Lacan o conceito de gozo é fundamental. Apresenta o gozo como fora da linguagem, não tem representação. O aforismo lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” apresenta o Outro como um lugar, onde a cadeia significante desliza, e no intervalo se situa o desejo. Mas, nem tudo é linguagem, nem tudo são palavras, no ser humano, há gozo. O lugar do gozo é no corpo.

No seminário A ética da psicanálise (1960), o conceito de gozo é importado do campo jurídico, jouissance (usufruto), que é um direito dado a uma pessoa de gozar ou fruir de um bem cuja propriedade pertence a outrem. Diferente do desejo, que aponta para o próprio. Neste livro Lacan traz o das Ding, a Coisa, de Freud, como estatuto do gozo inicial, de uma fusão inicial bebê-mãe, que equivale ao desejo incestuoso, sem limite. O gozo estaria do lado da Coisa.

O desejo é desejo do Outro, sendo o Outro lugar do significante. O desejo se articula com a lei, Nome-do-Pai, lei primordial da interdição do incesto. O desejo, submetido à lei, é defesa do sujeito em sua relação com o gozo. O gozo é uma transgressão da lei.

O gozo permanece nesse campo central da Coisa, cujo o acesso é impossível ao sujeito, pois abole o sujeito. A lei barra o gozo, que só pode ser dito entre linhas (inter-dito) pelo sujeito dividido entre o desejo que vem do Outro e o gozo que está na Coisa.

 No Seminário 20, Mais ainda (1973), Lacan apresenta tentativas de cifrar o gozo, em diferentes modalidades, como também as fórmulas da sexuação.

Tipos de gozo:                             

Gozo do Outro – lugar de proibida entrada porque falamos. Seria a satisfação absoluta do desejo. Gozo mítico, ligado à Coisa, não simbolizado. Busca de um gozo completo, pleno, de fazer Um com o outro. Santa Teresa D’Avila expressa o êxtase na escultura de Bernini, gozo dos místicos.

Gozo fálico – gozo parcial, que o sujeito se contenta parcialmente. O falo fazendo barreira ao gozo do Outro. Representa a perda de gozo devido à castração.

 Mais-de-gozar - equivale a mais-valia de Marx. Faz borda para uma falta. É o excesso de gozo como recuperação de uma perda. No processo de constituição do sujeito existe uma renúncia ao gozo do corpo, implicada na divisão do sujeito, sendo o objeto a resto deste sujeito barrado. O objeto a é captura de gozo.

Gozo da fala (jouis-sense) – gozo do sentido, ao falar, ao produzir sentido o sujeito goza. Também j’ouis sense (eu ouço sentido).

O outro gozo, gozo feminino, suplementar – gozo além do falo, gozo a mais, suplementar.

Como pensar o gozo na contemporaneidade? Podemos nos aproximar do momento atual como um estado de gozo. Gozo do imediato, pela velocidade, não permitindo a entrada do mediato, que seria o terceiro, que colocaria um limite na relação do sujeito com o outro. Ocorre a falência do Nome-do-Pai, da lei, da castração, operação necessária para barrar o sujeito, descompletá-lo, gerando a falta, para dar lugar ao desejo. O sujeito é falta-a-ser, não é completo, desejo é movimento, desejo de outra coisa. Hoje o gozo tapa a falta.

O Outro da linguagem, dimensão do simbólico, se desvanece, ocorrendo um gozo autístico, onde o Outro é excluído.

Atualmente os sujeitos usufruem de seus corpos, muitas vezes, sem limites. O discurso capitalista busca reproduzir um estado irrecuperável de completude. O laço social, relação entre os sujeitos, se sustenta do discurso, apresentando os modos de gozo de uma época, de uma cultura determinada. A cultura regula o gozo, como Freud já dizia no seu artigo o Mal-estar na Cultura (1930), fazendo com que o sujeito possa habitar com limites em sua época.

Mas, neste momento assistimos a queda dos ideais, que se apresenta pela falência do Pai, que se reflete no imaginário, inclusive na educação. Professores e pais não ocupam mais o lugar de autoridade. O autoritarismo, a tirania, substitui a autoridade, como o pai da horda, em Totem e Tabu (1913) de Freud, que é o pai autoritário que gozava das mulheres e dos filhos.

A falta que aponta para o desejo, hoje, é preenchida por objetos de consumo, como celulares, tablets, alimentos, drogas, etc. O sujeito não suporta a falta tão essencial para a estruturação da subjetividade. A cultura utilitária pós-moderna baseia-se na compulsão ao consumo, na busca em excesso do ter para camuflar a falta-a-ser. Uma sociedade narcisista, voltada para o espetáculo, onde a fronteira entre o público e o privado desaparece. Somos olhados o tempo todo, e objeto olhar ganha lugar de zênite, de apogeu, de gozo nas imagens oferecidas pela mídia.

Podemos observar o aumento de casos de anorexia e bulimia na atualidade. O modelo imaginário do corpo ideal, como supereu mundial, dita as normas do gozo do corpo perfeito. A anoréxica reage à demanda de se deixar alimentar através da recusa da demanda, já que não é signo de amor. Ela luta pelo seu desejo, querendo também furar o Outro do desejo. A bulímica goza em sua fome de boi, mas vomita para abrir espaço do desejo. Duas faces de desejo e gozo. O gozo da anoréxica pode conduzi-la à morte. Impulsões que apontam para a clínica do real, onde o gozo está localizado no corpo.

Nós, psicanalistas precisamos pensar a nossa época, onde o corpo, sede do gozo, devido à queda do simbólico, está capturado pelo Gozo do Outro, se tornando cada vez mais um espetáculo!

 

Nota:

Sobre os tipos de gozo: Maria Cristina Ocariz, O sintoma e a clínica psicanalítica, SP: Via Lettera Ed, 2003.

sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Psicanálise e sociedades do cansaço e da transparência

O texto abaixo consiste na leitura dos livros Sociedade do cansaço e Sociedade da transparência de Byung-Chul Han. 

Em relação à psicanálise freudiana, Byung-Chul Han afirma que por estarmos num momento de positividade, e já que a psicanálise se refere à negatividade, estaria difícil ela dar conta do mundo atual.

A meu ver ele não se dedicou a pensar a psicanálise em sua historicidade, como exemplo em Lacan que desde 1970 já pensa e elabora o conceito de gozo como positividade, e inclusive como lidar com isso na clínica psicanalítica.

Começa o seu texto dizendo que não vivemos numa época viral, apesar do medo que temos de uma pandemia grupal, pois graças a técnica imunológica, esta época já passou. Prossegue: vivemos uma época de excesso de positividade, daí doenças neuronais como depressão, déficit de atenção, hiperatividade, burnout, que escapam das técnicas imunológicas. Traz a alteridade como categoria fundamental da imunologia, e que no momento há o desaparecimento do Outro, da alteridade. O paradigma imunológico não se coaduna com o processo de globalização e a dialética da negatividade é o traço fundamental da imunidade.

A sociedade disciplinar de Foucault não é mais atual segundo o autor. A sociedade do século XXI é uma sociedade de desempenho. Os sujeitos são do desempenho e da produção e não mais sujeitos da obediência. São sujeitos empresários de si mesmos. A sociedade disciplinar é uma sociedade da negatividade, gera loucos e delinquentes. A sociedade de desempenho produz depressivos e fracassados. Já habita no inconsciente social o desejo de maximizar a produção. Ocorre a positividade do poder mais do que a negatividade do dever. O inconsciente social do dever agora é registro do poder.

Cita Ehrenberg que coloca a depressão na passagem da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho. O depressivo é acossado pela exigência da iniciativa pessoal, é esgotado de ser ele mesmo.

O desenvolvimento cultural da humanidade deve à uma atenção contemplativa. Hoje há uma hiperatenção. Não há tolerância para o tédio profundo, importante segundo Benjamin para o processo criativo: "pássaro onírico, que choca o ovo da experiência". Seria o lugar do descanso espiritual. Nietzsche também assinala a importância do elemento contemplativo.

A sociedade do cansaço é uma sociedade ativa que se desdobra para uma sociedade do doping, que gera um desempenho sem desempenho. O homem se torna uma máquina do desempenho. A sociedade ativa e a sociedade do desempenho geram cansaço e esgotamento excessivos, efeitos do empobrecimento da negatividade e o excesso da positividade. Há um infarto da alma.

Byung-Chul Han afirma que o aparato psíquico freudiano é repressivo e impositivo. Sua estrutura é de uma sociedade disciplinar, logo abarca hospitais, asilos, presídios etc. Diz que a psicanálise freudiana só pode ser efetiva numa sociedade repressiva organizada pela negatividade das proibições. Hoje, a sociedade de desempenho se afasta da negatividade das proibições e se organiza como sociedade da liberdade, que se define pelo poder hábil. Este sujeito do desempenho é um sujeito da afirmação, sendo seu eu sem medo e angústia (segundo o autor).

O autor diz que o inconsciente freudiano não é uma configuração atemporal. É uma produção da sociedade disciplinar repressiva, que segundo ele estamos nos afastando. Aproxima o ego freudiano ao sujeito da obediência kantiano, como cumprimento de um dever. O sujeito de desempenho da modernidade tardia tem como máxima liberdade e boa vontade, e não mais a obediência, a lei e o dever. É um empreendedor de si mesmo. Mas a liberdade em relação ao outro vai transformar essa liberdade em novas coações. Esta falta de relação com outro provoca uma crise de gratificação. Richard Sennet afirma que esta crise da gratificação, do reconhecimento, vai se ligar a uma perturbação narcisista e à uma falta de relação com o outro. Coloca esta questão como distúrbio de caráter. O si-mesmo não encontra nada de "diferente". Byung-Chul Han critica Sennet quando ele diz que o aumento das expectativas impede o sujeito de alcançar uma meta, pois para ele no sujeito narcisista o sentimento de alcançar uma meta não se instaura, é incapaz de chegar a uma conclusão, pois é impulsionado pela coação de desempenho, não alcançando repouso. Vive constante num sentimento de carência e culpa. Sofre então um esgotamento, colapso psíquico, burnout. Afirma que este sujeito se realiza na morte.

Segundo Freud, diz Byung-Chul Han, o "caráter" é um fenômeno da negatividade, pois não se formaria sem a censura do aparato psíquico, sendo um "sedimento depositado de possessões objetuais renunciadas". O eu evita o conhecimento dessas possessões que estão no id pelo processo de repressão (o autor usa repressão em vez de recalque ou foi traduzido assim). "O caráter contém em si a história da repressão", reflete as relações entre id, ego e superego. 

A histeria seria uma doença típica da sociedade disciplinar enquanto a depressão seria amorfa, trazendo um homem sem características. Cita Carl Schmitt que diz que ter muitos amigos no facebook é indicação de falta de caráter, pois devido a divisão interior só se teria um inimigo verdadeiro e também um único amigo. O homem pós moderno, espelho da falta de forma, seria então um homem sem caráter, um homem flexível da positividade.

Afirma que nas doenças psíquicas atuais como depressão, burnout, déficit de atenção, síndrome de hiperatividade não se encontra repressão e processo de negação, pois remetem a um excesso de positividade, afirmando que "a psicanálise não oferece nenhum acesso a elas" (Cf. p.88). Também nos depressivos não se dá transferência já que não ocorre repressão. A sociedade do desempenho trabalha no desmonte de barreiras e proibições dadas pela sociedade disciplinar. Logo há uma promiscuidade generalizada. O inconsciente não influenciaria a depressão.

Afirma que Freud concebe a melancolia como uma relação destrutiva com o outro internalizado como parte de si-mesmo, gerando conflito internalizado no próprio eu, que levaria ao empobrecimento do eu e autoagressividade. Atualmente não há nenhuma relação conflitiva com o outro, de perda, anterior ao sujeito depressivo. A depressão que desemboca no burnout é resultado da autorelação exaltada, narcisista, que ganha traços depressivos. O sujeito de desempenho está cansado, esgotado de lutar consigo mesmo. Remói a si mesmo que o leva a autoerosão e ao esgotamento. Todas as suas ligações se rompem, não havendo luto, que surge quando se perde um objeto. Distingue a melancolia da depressão, sendo a primeira efeito da negatividade, enquanto a depressão aponta para o excesso de positividade.

Para Byung-Chul Han o burnout, que precede a depressão é resultado patológico da autoexploração, influência também do contexto econômico, pelo imperativo da expansão e oferta de produtos à identidade que é flexível.

Na transição da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho o superego se positiva em eu-ideal, que é sedutor. O sujeito de desempenho se projeta em "liberdade", mas ao tentar alcançar a perfeição deste eu-ideal se esgota, se consome, chegando ao suicídio.

E assim, a sociedade da negatividade se transforma em sociedade positiva, da transparência. A transparência surge quando se elimina a negatividade. As coisas, as ações, o tempo, as imagens se tornam transparentes ao se tornarem rasas, planas, operacionais, o presente é otimizado e imediatizado. A transparência é uma coação sistêmica. O movimento de aceleração responde ao igual, desconstruindo a negatividade, eliminando o diferente. Há predomínio do traço autoritário da transparência, que elimina a esfera privada. Cita Freud ao dizer que o eu nega o que o inconsciente afirma, logo o ser humano não é transparente consigo mesmo. Devido a transparência o mundo se torna desavergonhado e desnudo. 

Segundo Byung-Chul Han a "política" também é paralisada devido à necessidade de total transparência, dando lugar à violência de necessidades sociais, seguindo o veredicto da sociedade positiva: " me agrada". A verdade é afastada, já que implica na negatividade. Há uma ausência de saber.

Enfatiza que o espaço do sagrado, da paz, não são transparentes, são sinuosos, como também o objeto do desejo no amor cavalheiresco é um "buraco negro" em torno do qual se adensa o desejo. Cita Lacan ao afirmar que este objeto do desejo é inacessível, indecifrável, o que se observa na anamorfose, cuja imagem surge deformada. Não é evidente, sendo a "Coisa" (das Ding) sem imagem devido a sua impenetrabilidade e ocultamento, e não tendo representação.

Em Sociedade da transparência Byung-Chul Han desenvolve temas importantes como exposição, pornografia, intimidade, informação, narração, que sofrem profundas modificações pela coação transparente, acarretando desculturalizaçao.

A sociedade do cansaço e da transparência são sociedades da positividade que tomou o lugar da negatividade.

O autor afirma que o pensar não é transparente. Segundo Hegel, uma negatividade habita o pensar, que permite o transformar. O tornar-se outro é constitutivo para o pensar.


Embora a psicanálise freudiana siga o paradigma da negatividade, ela abre espaço fundamental nesta nossa sociedade atual, do cansaço e da transparência, como uma teoria e práxis que busca o esvaziamento de gozo. 

Os estudos do último Lacan sobre o inconsciente real, trazendo outras leituras de conceitos como trauma, repetição, nó  borromeano, sinthoma, nos possibilita meios de aproximação  dos problemas  que  esta sociedade positiva apresenta. 

O gozo do Outro, o autoritarismo, são temas desta  sociedade positiva que cobrem a  alteridade e a autoridade. A psicanálise através de Totem e Tabu de Freud já  denunciava os excessos da civilização.



Referência bibliográfica

 

Han, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

______________. Sociedade da transparência.  Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

 

 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Grande Circo Místico


O Grande Circo Místico – O gozo místico de Lacan

Filme de Cacá Diegues, baseado no poema de Jorge de Lima, narra a história de cinco gerações de uma mesma família circense, desde a inauguração do Grande Circo Místico em 1910 até os tempos atuais, onde os amores desta família são mostrados a partir de uma época farta até a sua decadência econômica familiar na atualidade. Amor, paixão entre os personagens, que retratam o sempre presente amor ao circo, onde os homens da família e o marcante mestre de cerimônias lutam pela sobrevivência desse fabuloso espetáculo.
O gozo está presente desde o início do filme através de paixões exacerbadas, trazendo temas de virgindade, maternidade, paixão, adultério, droga, loucura, morte. As mulheres gozam pelo olhar, objeto a, pelo voo libertário e ao mesmo tempo mortal, pela dança que busca o infinito, pelo gozo da carne, pela marca na carne, pelo voar dos anjos.
“O grande circo místico” de Cacá Diegues, pode ser pensado pela temática do gozo desenvolvida por Lacan. É uma versão cinematográfica que se aproxima ao gozo místico apresentado por Lacan no Seminário 20, “Mais, ainda” (Encore), gozo que está mais além. Santa Teresa de Ávila em escultura de Bernini goza. O êxtase de Santa Teresa representa a sua experiência mística, êxtase fora da linguagem, onde nada se pode dizer.
Na Idade Média duas concepções de amor estão presentes. A concepção física e a concepção extática. Na concepção física (physis), desenvolvida por São Tomás de Aquino e Aristóteles, a busca é do Bem em Aristóteles, e de Deus em São Tomás de Aquino. Já na concepção extática do amor a razão desaparece, sendo o amor relatado pelos místicos. No êxtase a ação está fora de si. O amor é dual, violento, irracional. A harmonia do amor físico é o oposto ao amor extático. O sujeito perde a sua alma, sendo que o amor pode ser mortal. É um gozo para além do princípio do prazer.
No Seminário 20, nas fórmulas da sexuação, Lacan situa o gozo místico do lado feminino, um gozo fora do significante. Santa Teresa de Ávila mostra que “falar é impossível” sobre este gozo.

Referência bibliográfica:
Lacan, J.  Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1985.
Quinet, A. Teoria e clínica da psicose. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

sábado, 11 de agosto de 2018

Ética contemporânea


Ética contemporânea

Desenvolvo abaixo em poucas linhas o raciocínio que parte do texto de Freud sobre o masoquismo; algumas palavras sobre a ética em Freud e Lacan; e a argumentação lógica de Lacan sobre as fórmulas da sexuação, que chega ao axioma A mulher não existe, axioma que parte de uma lógica simbólica. Chego à conclusão de que a Ética não existe, mas podemos considerar éticas no plural atualmente.

Em O problema econômico do masoquismo (1924) Freud afirma:
“O complexo de Édipo mostra assim ser – como já foi conjecturado num sentido histórico– a fonte de nosso senso ético individual, de nossa moralidade. O curso do desenvolvimento da infância conduz a um desligamento sempre crescente dos pais e a significação pessoal desses para o superego retrocede para o segundo plano. Às imagos que deixam lá atrás estão, pois, vinculadas as influências de professores e autoridades, modelos auto escolhidos e heróis publicamente reconhecidos, cujas figuras não mais precisam ser introjetadas por um ego que se tornou resistente (grifo meu).
A primeira renúncia instintual é forçada por poderes externos, e somente isso cria o senso ético, que se expressa na consciência e exige uma ulterior renúncia ao instinto.”

Em Totem e Tabu, mito da horda primeva, Freud elabora a fundação da cultura através do ato criminoso do assassinato do pai da horda, e do devoramento deste pai despótico pelos filhos. No lugar de uma lei tirânica, onipotente do pai, surge um acordo entre os irmãos culpados, criando-se a lei simbólica, à qual todos estão assujeitados. Esta lei se refere ao pai morto, constituindo a dívida simbólica. Portanto, a lei e o desejo se enlaçam num liame trágico. O desejo incestuoso é barrado pela lei, tornando-se falta, falta a ser. O desejo é o movimento de busca de reencontro do objeto perdido, mas como o objeto é para sempre perdido, o encontro é faltoso. A lei estrutura o desejo humano, impedindo a realização do incesto. A ética do desejo é uma ética de responsabilidade, implicando que o sujeito não ceda de seu desejo frente ao gozo, desejo que o humaniza, o essencializa, tornando-o humano, protegendo-o do gozo, que seria um excesso, ultrapassagem da barreira da lei.
Nas fórmulas da sexuação, Lacan afirma que todos os homens estão submetidos à função fálica, à castração; existindo ao menos um homem que não obedece à função fálica já que é exceção à castração. Assim, podemos falar de um conjunto universal a propósito dos homens. Lacan também significa o mito da horda primitiva de Freud.
Já no modo de inscrição das mulheres na fórmula da sexuação nenhuma delas expressa a universalidade. Não todas as mulheres estão inscritas na função fálica, como também não existe uma mulher no lugar da exceção à castração. Assim as mulheres não constituem um conjunto universal sob a perspectiva fálica. Não existe uma expressão geral lógica para legitimar a mulher. Assim Lacan conclui que “a mulher não existe”.
Hoje devido à queda do Simbólico, do lugar da lei como exceção, que em Freud é internalizada pelo sujeito, fornecendo o senso ético, podemos afirmar que “a Ética não existe”, pois a lei é o lugar da exceção, e este conjunto universal que fornece a consistência ao sistema está em declínio na contemporaneidade.
A ética em Lacan é uma ética do bem-dizer, de escutar do inconsciente a palavra plena, constituindo o sujeito do desejo e da enunciação. Vivemos um momento de fake news. Das mortes traumáticas como irrupção do Real da pulsão de morte que não são esclarecidas, como também de fatos traumáticos, de verdades veladas, emergem mentiras que tentam como compulsão de gozo cobrir o real. 
Mas, será assim mesmo? A ética não existe?
Vivemos no tempo da Ética não existe, mas éticas existem (no plural). Mundo de pequenas leis, de grupos com desejos singulares. Cada grupo organiza o que é permitido, o que é proibido, o limite de cada membro. As éticas não se cruzam, não se encontram. A Ética não existe!


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência
                                                                                      Rosa Jeni Matz

Este trabalho parte de um filme A viagem de Fanny sobre um fato real ocorrido na Segunda Guerra Mundial, que mostra como um grupo de crianças responde à violência da guerra, e pretende fazer um contraste entre as respostas das crianças e adolescentes na contemporaneidade.
Filme: A viagem de Fanny – Le Voyage de Fanny
Fanny (Léonie Souchaud) tem 12 anos, é judia, e se esconde numa casa de acolhimento distante de seus pais junto com as duas irmãs mais novas durante a Segunda Guerra Mundial. Forçada a fugir rapidamente do esconderijo devido a invasão nazista, torna-se líder de um grupo de crianças, que viajam num caminho perigoso pela França ocupada para a Suíça. De início, as crianças são acompanhadas de uma senhora, mas devido às pressões e de imprevistos da ocupação nazista, o grupo prossegue a viagem sem a presença de um adulto, tendo que Fanny se tornar a guia deste percurso, e prematuramente escolher, decidir, cuidar, proteger.
Apesar da tensão devido o perigo da guerra as crianças são crianças.  As crianças menores fantasiam os nazistas como “monstros”, todas brincam com alegria e espontaneidade num riacho e numa cabana que se tornam palcos de fantasias, e através do brincar transformam o ambiente hostil em ambiente alegre e criativo. Alguns habitantes da região, em diferentes ocasiões, as auxiliam na fuga, retratando o valor da solidariedade e da amizade.
Questões: é possível pensar o exercício da função fraterna sem a sustentação da função paterna? Como encontrar vias para lidar com a queda do simbólico, da função fraterna, no momento atual?
O filme aborda a função paterna e a função fraterna. Neste momento de guerra e violência Fanny sustenta uma função paterna, que possibilita uma organização fraterna.
Joel Dor, em seu livro “O pai e sua função em psicanálise” (1) afirma que “a noção de pai intervém no campo conceitual da psicanálise como um operador simbólico a-histórico” (2). Mas, ao ficar fora da história, ele está “paradoxalmente inscrito no ponto de origem de toda história” (3), uma história mítica, mito necessário e universal. A noção de pai em psicanálise também não se refere “exclusivamente à existência de algum pai encarnado” (4), nada garante que a encarnação corresponda à consistência de um pai investido de legítimo poder estruturante do inconsciente. Não se trata de um ser encarnado, mas de “uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (5). Pela sua característica universal, o seu caráter é operante e estruturante, para qualquer sexo que a ele se refere. É Lei universal, é Linguagem. Sendo este pai simbólico universal, somos tocados pela sua função, que nos estrutura como “sujeitos”. Questiona: Sob que insígnias se alojam os pais encarnados, os pais que empiricamente são colocados em situação de se designarem pais? Responde: aparecem no máximo como diplomatas, e embaixadores comuns. O embaixador representa o seu governo junto ao estrangeiro, e o pai, “no real de sua encarnação” (6), deve representar o governo do pai simbólico, assumindo a delegação desta autoridade junto à “comunidade estrangeira mãe-filho” (7).
Em termos da carência paterna, pode-se afirmar que “a função paterna conserva a sua virtude simbólica inauguralmente estruturante na própria ausência de todo Pai real” (8). A função do Pai simbólico é exterior ao Pai real, sendo a função simbólica, a pedra angular da problemática paterna na psicanálise.
No texto Os complexos familiares na formação do indivíduo, de 1938, Lacan apresenta dois complexos fundamentais que se apresentam no início da vida psíquica da criança. De início, o complexo do desmame, o mais primitivo do desenvolvimento psíquico, representando a forma primordial da imago materna (representação inconsciente mental), que fixa a relação de amamentação no psiquismo e suas derivações.
O segundo complexo é o complexo de intrusão que representa a experiência que a criança realiza quando se reconhece entre irmãos. As condições dessa experiência são variáveis conforme as culturas, extensão do grupo familiar, e conforme o lugar que o acaso confere ao sujeito na ordem de nascimento: a de abastado ou a de usurpador. O ciúme (jalousie) infantil é observado neste período, e Lacan se remete à citação de Santo Agostinho: “Vi com meus próprios olhos, e observei bem um menino tomado de ciúme: ele ainda não falava, mas não conseguia desviar os olhos, sem empalidecer, do amargo espetáculo de seu irmão de leite” (Confissões, I, VII). A estrutura do ciúme infantil esclarece seu papel na gênese da sociabilidade, e do conhecimento humano. O ciúme representa não uma rivalidade vital, mas uma identificação mental. Em crianças entre seis meses e dois anos, confrontados aos pares e sem terceiros, há uma comunicação, que parece reações de rivalidade, como adaptações de posturas e gestos, ocorrendo conformidade em sua alternância, como provocações e respostas, onde se esboça o reconhecimento de um rival, de um “outro” como objeto. Essa reação, que pode parecer precoce, é determinada por uma condição dominante, um limite que não pode ser ultrapassado na distância etária entre os sujeitos, distância de dois meses e meio no primeiro ano do período considerado, e permanece estrito ao se ampliar. As reações mais frequentes são as da exibição, da sedução e do despotismo. O que se observa não é um conflito entre dois indivíduos, mas um conflito entre duas atitudes opostas e complementares. Cada parceiro confunde a pátria do outro com a sua e se identifica com o outro. Nesse estágio a identificação específica é baseada num sentimento do outro como imaginário. A imagem do outro aí está ligada à estrutura do corpo próprio.
Na situação fraterna primitiva a agressividade se mostra secundária à identificação. A amamentação é para a criança uma neutralização temporária das condições de luta pelo alimento, opondo-se Lacan à ideia darwiniana de que a luta está na origem da vida. O aparecimento do ciúme relacionado com a amamentação, apresentado pela citação de Santo Agostinho, dever ser interpretado prudentemente, pois esta cena pode se apresentar ao sujeito desmamado há muito tempo que não concorre com o irmão, sendo que este fenômeno exige uma identificação com o estado do irmão. Em outros trabalhos, Lacan se refere a esta cena como uma imagem de completude, onde o sujeito que a observa se vê excluído, uma visão totalizante, imaginária, onde o sujeito já esteve neste lugar. A agressividade se sustenta então numa identificação com o outro que é objeto da violência (a agressividade não é primária, é secundária).
Podemos encontrar expressão de agressividade em diversas cenas sociais. Esta identificação onde uma criança se percebe usurpada por outra criança abastada, e excluída desta imagem completa, acontece a todo momento em nossa sociedade através da luta de classes. Uma criança sem recursos econômicos, que olha através de uma vitrine de brinquedos o outro abastado de posse com o brinquedo que quer possuir, revive a todo momento em outras situações esta cena de completude imaginária.
O eu se constitui junto com o outro no drama do ciúme. A introdução de um terceiro irá substituir a confusão afetiva e a ambiguidade pela concorrência de uma situação triangular. O sujeito que enveredou pelo ciúme por identificação, desemboca numa nova alternativa onde é jogado o seu destino. Ou ele reencontra o objeto materno e se prende à recusa do real e à destruição do outro, ou é levado a algum outro objeto, acolhe-o sob a forma de conhecimento humano, como objeto comunicável. A concorrência implica em rivalidade ou concordância, sendo que aí é possível reconhecer o outro com quem trava a luta e firmar o contrato. O ciúme humano se distingue da rivalidade vital imediata, revelando-se o arquétipo dos sentimentos sociais.
Os traços essenciais do complexo fraterno são: o papel traumatizante do irmão que se constitui por intrusão, o fato e a época do seu aparecimento determinam a sua significação para o sujeito, a intrusão parte do recém-chegado e infesta o ocupante, sendo que o primogênito desempenha em princípio o papel de paciente. A reação do paciente ao trauma depende do seu desenvolvimento psíquico. Surpreendido pelo intruso no desarvoramento (desorientação) do desmame, o paciente o reativa sem parar ante o espetáculo deste, faz uma regressão, que de acordo com os destinos do eu, pode se revelar uma psicose esquizofrênica ou uma neurose hipocondríaca, ou então, reage pela destruição imaginária do monstro, resultando em impulsos perversos ou numa culpa obsessiva.
Mas, se o intruso sobrevier apenas após o complexo de Édipo, será adotado no plano das identificações parentais, não sendo para o sujeito obstáculo ou o reflexo, mas uma pessoa digna de amor e de ódio. As pulsões agressivas se sublimarão como ternura ou severidade.
O irmão também pode proporcionar o modelo arcaico do eu. O papel do agente cabe aqui ao primogênito, e quanto mais conforme for este modelo ao conjunto das pulsões do sujeito, mais feliz será a síntese do eu. É através do semelhante que o objeto, como também o eu se realiza, quanto mais pode assimilar de seu parceiro, melhor será a sua eficácia futura. Mas, também, o grupo de fratria familiar pode favorecer as mais discordantes identificações do eu. A paranoia manifesta temas de filiação, usurpação e espoliação, sendo que através da estrutura narcísica, temas paranoides de intrusão, do duplo, e transformações delirantes do corpo são revelados. O grupo familiar, reduzido à mãe e a fratria, desenha um complexo psíquico em que a realidade é imaginária, possibilitando eclosões de psicoses, de delírio a dois. Assim, torna-se essencial a introdução do terceiro para a constituição do sujeito em suas relações sociais.
Podemos pensar a função fraterna em termos de identificações imaginárias, horizontais, sustentada pela função paterna, eixo vertical, de identificações simbólicas.
 As “tribos” na atualidade se organizam por relações horizontais, sendo grupos formados por afinidades. Se hoje há uma queda da função paterna, há também queda da função fraterna. Estamos num mundo narcísico onde o Outro não tem lugar. O ódio situado por Lacan no eixo formado pelo imaginário e real se apresenta a céu aberto. O ódio que é a resposta afetiva primeira do sujeito por ele ser cortado pela Linguagem, afeto efeito de estrutura, torna-se como diz Lebrun em gozo do ódio atualmente.
Estamos vivendo o que Freud relata em Totem e Tabu, o momento da horda primitiva, do pai tirânico, usurpador, de gozo interminável. Momento atual aquém ou após o complexo de Édipo? Estamos no caos político e social. Não há espaço simbólico para que nossas crianças, principalmente as que habitam as áreas de maior violência em nossa cidade, se organizem em grupos e frequentem as escolas. Lacan, em seu derradeiro ensino, considerou o simbólico uma confusão, muitas línguas, e várias dificuldades em apreender o real, tendo como consequência a queda do simbólico na atualidade. Hoje estacionamos no narcisismo, numa situação especular e espetacular sem saída. Os grupos se formam em situações narcísicas onde as rivalidades, situações de bullyng refletem a dificuldade na saída do complexo de intrusão apresentado por Lacan. E sem direção do Outro. Algumas crianças e jovens conseguem ir nesta direção. Algumas delas viveram ou vivem num lar onde havia ou há a mediação de um terceiro. Mais ainda, através de uma instituição que represente este lugar simbólico, crianças e jovens conseguem fazer sinthoma, um quarto nó que se acrescenta ao nó borromeano dos três registros, imaginário, simbólico e real, e a partir daí desenvolvem uma suplência simbólica. Mas, e as crianças abandonadas? Crianças de rua, que vivem a céu aberto? Nós, psicanalistas, precisamos estar atentos ao gozo desenfreado que cobre o espaço com balas perdidas, consumo, tóxicos e outros objetos a, que só apresentam a face de gozo. Onde está a face causa do desejo?

Fanny, em sua viagem de coragem para a liberdade, liberdade em relação com a Lei, Linguagem, conseguiu conduzir às crianças e atravessar à fronteira, sustentada pelas funções paterna e fraterna. Mas, se atualmente há o esvaziamento do simbólico, podemos então elucubrar sobre esta questão que Lacan nos deixa em seus últimos seminários, que é “imaginar o real”. Esta questão nos traz um fato clínico: a inibição. A inibição é a imisção do imaginário no real. Estamos neste momento social inibidos.
As crianças podem nos trazer as respostas...

Notas:
1-Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
2-Ibid.p.13
3-Ibid.p.13
4-Ibid.p.13
5-Ibid.p.14
6-Ibid.p.14
7-Ibid. p.14
8-Ibid.p.18

Referência bibliográficas
Dor, J. O pai em sua função em psicanálise. RJ: Jorge Zahar Ed., 1997.
Freud. Totem e Tabu. Standard Edition. RJ: Imago Ed, vol XIII.
Kehl org. Função fraterna. RJ: Relume Dumará, 2000.
Miller, J-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. RJ: Jorge Zahar Ed., 2009.
Lacan, J. Os complexos familiares. RJ: Jorge Zahar Ed., 1985.
Lebrun, J-P. O futuro do ódio. Porto Alegre:CMC Ed., 2008.
Filme: Le Voyage de Fanny
           Direção: Lola Doillo    -  Nacionalidade: França

Filme baseado na história real de Fanny Bem-Ami contada em sua autobiografia Le Journal de Fanny.  

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Transgeneridade e Psicanálise


                                            Transgeneridade e Psicanálise

                                                                                         Rosa Jeni Matz

O jornal informa a descoberta de uma nova espécie de humano antigo, o Homo naledi[1], que apresenta a mistura de características dos humanos modernos com hominídeos mais arcaicos. Também, a foto de um transgênero é publicada, não mais resultado de uma mistura de características do macaco e do Homem, mas uma mistura de características masculinas e femininas.
Outra notícia do jornal é a afirmação da educadora finlandesa sobre a contemporaneidade: “Pensar e resolver problemas não é mais suficiente”[2]. A Finlândia está se preparando para mudanças em seu modelo educacional, pois devido ao acesso de informações facilitado atualmente pela tecnologia, o professor não é mais “o cálice sagrado do conhecimento”. Há um foco na criatividade da criança, na responsabilidade social, no pensar diferente, e na transdisciplinaridade.
Alguns professores do Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, utilizaram “x” no lugar das vogais “a” e “o”, criando o neologismo “alunxs”[3], em vez de alunos/alunas, com o intuito de assinalar a não distinção de gêneros. Este neologismo foi utilizado em avisos de parede e cabeçalhos de provas.
Diferença sexual?
A transgeneridade é a condição onde a expressão de gênero ou identidade de gênero de uma pessoa é diferente daquelas atribuídas ao sexo biológico, e também ao gênero, designado ao sujeito no nascimento.
Falamos hoje em identidades. E por onde anda o conceito de identificação? O conceito de identificação estaria mais próximo à neurose e ao recalque, sendo resultado da Metáfora Paterna, operação de substituição do significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai. Ocorre a identificação a um traço paterno, traço unário (freudiano e lacaniano).
No momento atual nos referimos às identidades, pois em vez do Nome-do-Pai nomear, o parlêtre tem a possibilidade de fazer o seu próprio nome, se nomear. Através de estudos sobre James Joyce e os nós borromeanos, Lacan se aproxima de nossa época, cuja questão é “fazer-se um nome”, ter uma identidade singular.
O transgênero aponta para esta identidade de “fazer-se um nome”. Não só um nome, mas um sujeito. Transforma o sintoma, antes considerado patológico, em Sinthoma, fazendo um novo nó, que pode ser um Nome-do-Pai, e daí constrói a sua vida como sujeito. Lacan no seu último ensino fala de Nomes-do-Pai: Imaginário, Simbólico, Real e Sinthoma.
Para Freud no inconsciente só há uma libido, a masculina, não existindo representação da mulher no inconsciente. Só há Um. Na psicanálise o falo é o símbolo sexual por excelência, apontando à falta e à castração. O falo se refere à falta do pênis na mulher. Se todo sujeito é efeito de uma posição masculina, que termos são esses homem e mulher em uso na cultura? Os termos caminham para o desuso.
Freud pensa o falo através da fase fálica, contemporânea ao complexo de Édipo. Em seu texto ”Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925) [4] escreve:
“A diferença entre o desenvolvimento sexual dos indivíduos dos sexos masculino e feminino no estádio que estivemos considerando, é uma consequência inteligível da distinção anatômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí envolvida; corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que foi simplesmente ameaçada”.
Freud assinala a presença da percepção visual na discriminação dessa diferença. Em relação às meninas: “Elas notam o pênis de um irmão ou companheiro de brinquedo, notavelmente visível e de grandes proporções, e imediatamente o identificam com o correspondente superior de seu próprio órgão pequeno e imperceptível, dessa ocasião em diante caem vítimas da inveja do pênis”.
Enfatiza a ameaça da castração como fator fundamental para a dissolução deste complexo no menino, enquanto na menina a fantasia da castração já é “consumada”. Afirma que na saída do complexo de Édipo, em “casos normais, ou melhor, em casos ideais, o complexo de Édipo não existe mais, nem mesmo no inconsciente; o superego se tornou seu herdeiro”.
O pai, nos velhos tempos, representava a moral, a lei, fazendo a função de um Outro consistente. O Outro atualmente não proíbe nada, incita a gozar (Goze! Voz do supereu) e a ultrapassar limites, gozo do Outro. O que se manifesta na atualidade é o gozo, do supereu, o super-homem. Logo, o que herdamos hoje é o superego dos pais como caminho do gozo, e para o gozo, e não mais ideais.
No texto de 1924, “A dissolução do complexo de Édipo[5], Freud associa também outras duas experiências sofridas pelas crianças que “as preparam para a perda de partes altamente valorizadas do corpo” (p. 219), que são a retirada do seio materno e a exigência de soltarem os conteúdos do intestino.  Mas, só após o surgimento de uma “nova” experiência em seu caminho, que a criança avalia a possibilidade de sua castração, que ocorre principalmente através da “visão dos órgãos genitais femininos”.
Através desta afirmação de Freud sobre a “ameaça de perdas valorizadas do corpo” podemos encontrar o gancho para pensar o complexo de Édipo na atualidade. A ênfase hoje é no gozo, na perda de gozo. Os objetos a: seio, fezes, olhar e voz, representam estas partes perdidas do corpo infantil, mas que hoje se tornam zênite de gozo. A castração agenciada pelo pai real implica numa perda de gozo, do gozo incestuoso mãe-criança. A entrada do significante produz uma perda real. O que hoje acontece é o sujeito não aceitando esta perda necessária para estruturá-lo, o sujeito hoje tenta driblar esta perda de gozo. Busca tapar a falta do Outro com esta parte de gozo perdida, renegar a castração. O sujeito se iguala ao objeto. O S1 se torna a. A questão: Como posso melhor gozar?
Estamos num momento diferente do significante falo como significante do desejo do Outro. O gozo é do Um sem o Outro, solitário, autista e assexuado.
Logo, pode não implicar a sexualidade como diferença, já que o significante é o elemento diferencial último. O S1 é a marca da diferença no Outro, resultado da metáfora paterna, e identificação ao traço unário. Há apagamento do Outro, ficando o sujeito solitário frente ao objeto, mais além do Édipo.
No seminário 20, Encore (1972/3)[6], nas fórmulas da sexuação, apesar de Lacan eleger a função fálica como operador da castração, ele posiciona tanto o homem e a mulher em qualquer dos dois lados, abrindo assim o leque para diferentes identidades. O homem pode se posicionar no lado da Mulher, do gozo suplementar, ilimitado; e a mulher que é não-toda fálica pode se posicionar no lado Homem, do gozo fálico.
Père-version, as várias versões do pai. Respostas ao Um do pai. Cada sujeito vai ter a sua versão. Há vários Nomes-do-Pai. A neurose, a psicose e a perversão são posições diferentes diante da questão do Pai.
No seminário 4, A relação de objeto (1956)[7], Lacan comenta o caso da jovem homossexual de Freud, e assinala outras formas das vias perversas do desejo. Na perversão o sujeito busca esconder a falta fálica da mãe através do véu. O véu esconde que a mãe não tem o falo, mas ao mesmo tempo é onde se projeta a imagem do falo simbólico, a mãe tem o falo. No fetichismo, o fetiche é uma imagem projetada, deste falo ausente, simbólico.
Nestas vias pode ocorrer a identificação com a mulher, o sujeito se situando no lugar da mãe. No travestismo ocorre uma identificação com a mãe que tem o falo. No homossexualismo a ênfase é no seu falo, mas que deve ser buscado no outro. O homossexual se identifica com a mãe que deve ter o falo, a mãe que faz a lei para o pai. Identificação com o gozo da mãe, e não com o desejo e o amor. Várias leis?
Os lacanianos chegaram a aproximar os transexuais à psicose, devido à confusão entre o falo e o pênis, entre o significante e o órgão, reduzindo o falo ao pênis real, ao próprio órgão; e pela foraclusão da castração simbólica, buscando uma intervenção cirúrgica de fato ao nível corporal. Mas, Catherine Millot[8] traz uma proposta interessante de que assumindo uma identidade de “A Mulher” o transexual limita o gozo do Outro, colocando o significante “A Mulher” como função do Nome-do-Pai. Mas, este sujeito se coloca fora do sexo, encarna o sexo dos anjos, já que o significante da diferença sexual, o falo é desconsiderado. 
Assim, vários Nomes-do-Pai. Como diz Lacan: varité. Condensa verdade (vérité) e variável/variedade (variété), criando o neologismo “varité”, variedades da verdade. A verdade não é única, tem variedades.  
                                                                                                                                                          


[1] Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 11/09/2015
[2] Ibid., 12/09/2015
[3] Ibid., 26/09/2015

[4] Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.
[5] Ibid.
[6] Lacan. J (1972/3). Seminário 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.
[7] Lacan, J (1956/7). A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
[8] Dor, Joel. Estrutura e perversões. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1991.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A criança como sintoma dos pais


                     A criança como sintoma dos pais.                     
                                                                                          Rosa Jeni Matz

Lacan em Nota sobre a criança (1969), escrita à Dra. Jenny Aubry, publicado nos Outros Escritos, afirma que “o sintoma da criança acha-se em condição de responder ao que existe de sintomático na estrutura familiar”[1]. O sintoma infantil pode representar a verdade do casal parental. Verdade da mãe em relação à sua falta, ao seu desejo, e verdade do pai como vetor da encarnação da lei no desejo.
O sintoma como efeito da subjetividade materna torna a criança correlata de uma fantasia, que é um enquadre da realidade, onde vai responder à falta na mãe, desviando a mãe de sua verdade própria, e muitas vezes a protegendo. O sintoma do filho tem como fim ocultar uma verdade ameaçadora. Não ocorrendo mediação da função paterna, a criança fica exposta às capturas fantasísticas, imaginárias, tornando-se objeto da mãe, e revelando a verdade deste objeto. A criança ocupa o lugar do objeto a na fantasia.

Fórmula da fantasia
$ ◊ a

A fantasia é fundamental porque articula o sujeito ($) ao objeto (a), objeto causa de desejo, sempre perdido, que escapa, mas que pode ser acionado como tampa da falta, gerando gozo. A fantasia sustenta o desejo.


Guillaume, a criança como objeto de gozo materno

Filme: Les garçons, et Guillaume, à la table (2013), direção de Guilhaume Gallienne.
Título em português: Eu, Mamãe e os Meninos.
“A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Les garçons, et Guillaume, à la table”  (“Meninos e Guillaume, à mesa!”).
Esta “sentença” de sua mãe traça o seu destino, caminho que Guillaume percorre, narrando a sua história.
Guillaume é o desejo do desejo do Outro (Mãe): uma menina. Encarna o desejo da mãe, uma menina. Mais tarde, na vida adulta, busca desvendar o enigma da sua sexualidade, até então enganado por uma suposta homossexualidade, através de encontros confusos e cômicos com homens. Mas, num jantar de uma amiga, uma mulher desperta o seu desejo. Neste momento, neste mesmo jantar, surge a enunciação que o reconhece e o coloca como sujeito em sua vida: “Les filles, Guillaume, à la table” (“As meninas, Guillaume, à mesa”); surpreendendo-o, colocando-o na posição de homem, trazendo assim o significante da diferença sexual, modificando uma alienação a que estava assujeitado.

Em Alocução sobre as psicoses da criança[2], 1968, Lacan afirma: “Toda formação humana tem por essência, e não por acaso, de refrear o gozo”, sendo “o princípio do prazer o freio do gozo”[3]. A mãe de Guillaume, ao tamponar a sua falta pelo filho, torna-o objeto de seu gozo.
Lacan discordou de alguns pós-freudianos que desconheciam a ação do significante na constituição do sujeito na relação dual mãe-criança, e também pelo não estabelecimento do enquadre da fantasia que conjuga sujeito, desejo e gozo. Diz que eles criaram uma fantasia postiça sobre a harmonia instalada no habitat materno.
Lacan formula a expressão “criança generalizada”, lançando uma questão ética, chamando a atenção para o declínio do pai em nossa cultura. Destaca a tendência a objetalização do sujeito, resultando então em irresponsabilidade quanto ao modo de gozo de cada um. A responsabilidade do sujeito adulto fica tomada pelo zênite do gozo (“todos somos crianças”). Assinala que o sintoma somático da criança desvela a não mediação paterna na relação mãe-criança, encarnando a verdade do Outro, sendo um recurso inesgotável para o encobrimento do sintoma parental, e garantindo o desconhecimento da verdade materna ao proteger a mãe.
A criança se torna um objeto familiar, impossibilitada de expressar o seu lugar de sujeito na família, colocando no corpo o gozo excessivo, devido à impossibilidade da cifra da linguagem. Conforme a sua posição nas estruturas: neurótica, perversa e psicótica, a criança pode saturar, ocupar o lugar deste objeto, substituindo a falta específica do desejo da mãe, podendo atestar a culpa (neurose), servindo de fetiche (perversão), ou encarnando a recusa primordial (psicose). O sintoma somático da criança pode ser o representante da culpabilidade inesgotável de seus pais. A criança colocada como fetiche dos pais encobre a castração, renegando a falta, sendo objeto da perversão parental. E, a criança, na psicose, pode ser objeto da rejeição dos pais, não ter sido desejada pela mãe, havendo recusa de seu nascimento.  
É preciso estar atento na clínica com crianças para a seguinte posição ética no dizer de Lacan: “se opor a que seja o corpo da criança que corresponda ao objeto a[4]. Que o corpo real da criança não sirva como objeto do Outro, a criança não pode ser capturada pelos caprichos maternos, como refém da mãe, assim apagando a sua posição de sujeito desejante. O analista de crianças se opõe ao gozo parental. Qualquer criança, no início de sua vida, é colocada no lugar de objeto materno, um objeto que pode ser precioso, mas que também pode ser lixo do Outro. O importante é a possibilidade do movimento advir: partindo inicialmente de objeto, assujeitado, para a posição de sujeito, onde tanto o desejo da criança como o desejo da mãe possam surgir.
O processo de subjetivação, o advento do sujeito, acontece em dois momentos. O primeiro momento é o da alienação, movimento simbólico que introduz a linguagem para a criança. Depois, num segundo momento, ocorre o mecanismo da separação, onde a criança percebe que ela não cobre totalmente a falta da mãe, e a mãe também aponta o seu desejo para outras direções diferentes da criança, mostrando a sua falta. O perigo está quando a criança fica fixada à posição de objeto materno, na alienação, não ocorrendo a possibilidade do mecanismo de separação. O fundamental é a castração materna, é esta mãe ser um ser para o sexo, cortada pelo significante Nome-do-Pai.

Lacan, ao comentar o objeto transicional de Winnicott  diz que o importante “não é que o objeto transicional preserve a autonomia da criança, mas que a criança sirva ou não de objeto transicional para a mãe”[5]. A estrutura deste objeto é “a de um condensador para o gozo na medida em que, pela regulação do prazer, ele é despojado do corpo”[6]. O “objeto transicional” da criança, como o paninho ou o ursinho, não é o representante nem da criança, nem da mãe, nem da ausência física da mãe, mas representa o significante da falta da mãe (Seminário 4: A relação de objeto), representa o objeto materno. Assim, o falo imaginário da mãe não fica colocado no corpo da criança, seu desejo não se realiza no corpo de seu filho, o que seria extremamente perigoso. O desejo materno permite que a criança possa investir nesse outro objeto. É importante que a criança também seja transicional para a mãe, que apesar de ter sido proveniente do corpo da mãe possa se tornar separada desta. 
Vivemos num momento de novas famílias. Novos arranjos acontecem, embora a família se mantém. O que mudam são os que ocupam estes lugares. Os lugares parentais podem ser ocupados por casais heterossexuais, como também por casais homossexuais como a homopaternidade e a homomaternidade. A questão da criança como sintoma dos pais, desenvolvida por Lacan no final da década de 1960, ainda vigora em nossa cultura atual, também nestas novas famílias, pois o que ele denuncia é o perigo do corpo da criança ser tomado como objeto do gozo do Outro. O importante é a sustentação da falta do objeto, isto é, permitir que o desejo singular de cada membro familiar esteja vivo. Esta é uma questão fundamentalmente ética na clínica psicanalítica de crianças, e nós psicanalistas, temos como tarefa frear o gozo parental e desvelar a verdade do desejo singular, tanto da criança como de seus “pais”, pois o desejo é o melhor remédio contra o gozo.

Maud Mannoni busca no mito familiar a causa, a origem, do sofrimento da criança. Para ela o fundamental é como a criança foi gerada, recebida pelos seus pais e conduzida para a costura de suas pulsões. Antes da criança chegar ao mundo familiar as bases edípicas já estão colocadas. O mito familiar aparece através de “certo feixe de palavras”, discurso que a criança recebe dos pais. Este feixe de palavras alimenta uma repetição sintomática, daí a tese de Mannoni sobre a importância do tratamento psicanalítico dos pais. O problema é os pais, sendo a criança apenas efeito. Durval Checchinato em seu livro Psicanálise de pais: crianças, sintomas dos pais enfatiza a análise dos pais da criança-sintoma, pois a criança responde e está alienada à demanda e desejo do Outro: “Como o filho pode querer desejar se o desejo dos pais, ou de um deles, é tão imperativo, abafador?”[7]
Mannoni, ao se referir à psicose, assinala a emissão de uma palavra mortífera que a criança se defrontou no início de sua vida, que lançou uma maldição sobre a criança. A criança se torna refém dessa palavra de seus pais, impedindo que o seu desejo surja. Assim, a análise dos pais consiste em detectar esta palavra mortífera, significante que aprisiona a criança. Ao se desembaraçar a palavra mortífera dos pais o núcleo patogênico da criança se dissipará, havendo um movimento contrário a impressão da “marca ao nível do corpo”, tendo acesso tanto a criança como os pais ao simbólico. Ocorre aí uma operação de castração, libertando o sujeito ao seu desejo próprio. 
Mannoni enfatiza a importância da análise dos pais devido ao efeito que é a criança como depositário das palavras dos pais, que aprisionam a criança em seu discurso. Por mais que se trate a criança, ela está inserida em seu contexto familiar, e se o feixe das palavras parentais não forem decifradas retornarão constantemente nos sintomas infantis. Ao descobrir o significante devastador do desejo parental, ou de um dos pais, o sintoma da criança se desfaz. 
Questão: Como praticar uma análise de criança sem a análise parental?
Não nos referimos ao acompanhamento dos pais, mas a análise dos pais.
A análise dos pais se torna fundamental e indispensável para o processo de decifração do sintoma infantil.


Bibliografia:
Checchinato, Durval. Psicanálise de pais: crianças, sintomas dos pais. R J: Cia de Freud, 2007.
Lacan, J. A relação de objeto (Seminário 4). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
Lacan, J. Alocução sobre as psicoses da criança. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003.
Lacan, J. Nota sobre a criança. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003.
Filme: Les garçons, et Guillaume, à la table (2013), direção de Guilhaume Gallienne, França/Bélgica, 2013.

Notas

[1] Lacan, J. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003, p.369.
[2] Lacan, J. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003, p.359. 
[3] Ibid., p.362.
[4] Ibid., p.366.
[5] Ibid., p.366.
[6] Ibid., p.368.
[7] Checchinato, Durval. Psicanálise de pais: crianças, sintomas dos pais. R J: Cia de Freud, 2007, p.119.