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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência
                                                                                      Rosa Jeni Matz

Este trabalho parte de um filme A viagem de Fanny sobre um fato real ocorrido na Segunda Guerra Mundial, que mostra como um grupo de crianças responde à violência da guerra, e pretende fazer um contraste entre as respostas das crianças e adolescentes na contemporaneidade.
Filme: A viagem de Fanny – Le Voyage de Fanny
Fanny (Léonie Souchaud) tem 12 anos, é judia, e se esconde numa casa de acolhimento distante de seus pais junto com as duas irmãs mais novas durante a Segunda Guerra Mundial. Forçada a fugir rapidamente do esconderijo devido a invasão nazista, torna-se líder de um grupo de crianças, que viajam num caminho perigoso pela França ocupada para a Suíça. De início, as crianças são acompanhadas de uma senhora, mas devido às pressões e de imprevistos da ocupação nazista, o grupo prossegue a viagem sem a presença de um adulto, tendo que Fanny se tornar a guia deste percurso, e prematuramente escolher, decidir, cuidar, proteger.
Apesar da tensão devido o perigo da guerra as crianças são crianças.  As crianças menores fantasiam os nazistas como “monstros”, todas brincam com alegria e espontaneidade num riacho e numa cabana que se tornam palcos de fantasias, e através do brincar transformam o ambiente hostil em ambiente alegre e criativo. Alguns habitantes da região, em diferentes ocasiões, as auxiliam na fuga, retratando o valor da solidariedade e da amizade.
Questões: é possível pensar o exercício da função fraterna sem a sustentação da função paterna? Como encontrar vias para lidar com a queda do simbólico, da função fraterna, no momento atual?
O filme aborda a função paterna e a função fraterna. Neste momento de guerra e violência Fanny sustenta uma função paterna, que possibilita uma organização fraterna.
Joel Dor, em seu livro “O pai e sua função em psicanálise” (1) afirma que “a noção de pai intervém no campo conceitual da psicanálise como um operador simbólico a-histórico” (2). Mas, ao ficar fora da história, ele está “paradoxalmente inscrito no ponto de origem de toda história” (3), uma história mítica, mito necessário e universal. A noção de pai em psicanálise também não se refere “exclusivamente à existência de algum pai encarnado” (4), nada garante que a encarnação corresponda à consistência de um pai investido de legítimo poder estruturante do inconsciente. Não se trata de um ser encarnado, mas de “uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (5). Pela sua característica universal, o seu caráter é operante e estruturante, para qualquer sexo que a ele se refere. É Lei universal, é Linguagem. Sendo este pai simbólico universal, somos tocados pela sua função, que nos estrutura como “sujeitos”. Questiona: Sob que insígnias se alojam os pais encarnados, os pais que empiricamente são colocados em situação de se designarem pais? Responde: aparecem no máximo como diplomatas, e embaixadores comuns. O embaixador representa o seu governo junto ao estrangeiro, e o pai, “no real de sua encarnação” (6), deve representar o governo do pai simbólico, assumindo a delegação desta autoridade junto à “comunidade estrangeira mãe-filho” (7).
Em termos da carência paterna, pode-se afirmar que “a função paterna conserva a sua virtude simbólica inauguralmente estruturante na própria ausência de todo Pai real” (8). A função do Pai simbólico é exterior ao Pai real, sendo a função simbólica, a pedra angular da problemática paterna na psicanálise.
No texto Os complexos familiares na formação do indivíduo, de 1938, Lacan apresenta dois complexos fundamentais que se apresentam no início da vida psíquica da criança. De início, o complexo do desmame, o mais primitivo do desenvolvimento psíquico, representando a forma primordial da imago materna (representação inconsciente mental), que fixa a relação de amamentação no psiquismo e suas derivações.
O segundo complexo é o complexo de intrusão que representa a experiência que a criança realiza quando se reconhece entre irmãos. As condições dessa experiência são variáveis conforme as culturas, extensão do grupo familiar, e conforme o lugar que o acaso confere ao sujeito na ordem de nascimento: a de abastado ou a de usurpador. O ciúme (jalousie) infantil é observado neste período, e Lacan se remete à citação de Santo Agostinho: “Vi com meus próprios olhos, e observei bem um menino tomado de ciúme: ele ainda não falava, mas não conseguia desviar os olhos, sem empalidecer, do amargo espetáculo de seu irmão de leite” (Confissões, I, VII). A estrutura do ciúme infantil esclarece seu papel na gênese da sociabilidade, e do conhecimento humano. O ciúme representa não uma rivalidade vital, mas uma identificação mental. Em crianças entre seis meses e dois anos, confrontados aos pares e sem terceiros, há uma comunicação, que parece reações de rivalidade, como adaptações de posturas e gestos, ocorrendo conformidade em sua alternância, como provocações e respostas, onde se esboça o reconhecimento de um rival, de um “outro” como objeto. Essa reação, que pode parecer precoce, é determinada por uma condição dominante, um limite que não pode ser ultrapassado na distância etária entre os sujeitos, distância de dois meses e meio no primeiro ano do período considerado, e permanece estrito ao se ampliar. As reações mais frequentes são as da exibição, da sedução e do despotismo. O que se observa não é um conflito entre dois indivíduos, mas um conflito entre duas atitudes opostas e complementares. Cada parceiro confunde a pátria do outro com a sua e se identifica com o outro. Nesse estágio a identificação específica é baseada num sentimento do outro como imaginário. A imagem do outro aí está ligada à estrutura do corpo próprio.
Na situação fraterna primitiva a agressividade se mostra secundária à identificação. A amamentação é para a criança uma neutralização temporária das condições de luta pelo alimento, opondo-se Lacan à ideia darwiniana de que a luta está na origem da vida. O aparecimento do ciúme relacionado com a amamentação, apresentado pela citação de Santo Agostinho, dever ser interpretado prudentemente, pois esta cena pode se apresentar ao sujeito desmamado há muito tempo que não concorre com o irmão, sendo que este fenômeno exige uma identificação com o estado do irmão. Em outros trabalhos, Lacan se refere a esta cena como uma imagem de completude, onde o sujeito que a observa se vê excluído, uma visão totalizante, imaginária, onde o sujeito já esteve neste lugar. A agressividade se sustenta então numa identificação com o outro que é objeto da violência (a agressividade não é primária, é secundária).
Podemos encontrar expressão de agressividade em diversas cenas sociais. Esta identificação onde uma criança se percebe usurpada por outra criança abastada, e excluída desta imagem completa, acontece a todo momento em nossa sociedade através da luta de classes. Uma criança sem recursos econômicos, que olha através de uma vitrine de brinquedos o outro abastado de posse com o brinquedo que quer possuir, revive a todo momento em outras situações esta cena de completude imaginária.
O eu se constitui junto com o outro no drama do ciúme. A introdução de um terceiro irá substituir a confusão afetiva e a ambiguidade pela concorrência de uma situação triangular. O sujeito que enveredou pelo ciúme por identificação, desemboca numa nova alternativa onde é jogado o seu destino. Ou ele reencontra o objeto materno e se prende à recusa do real e à destruição do outro, ou é levado a algum outro objeto, acolhe-o sob a forma de conhecimento humano, como objeto comunicável. A concorrência implica em rivalidade ou concordância, sendo que aí é possível reconhecer o outro com quem trava a luta e firmar o contrato. O ciúme humano se distingue da rivalidade vital imediata, revelando-se o arquétipo dos sentimentos sociais.
Os traços essenciais do complexo fraterno são: o papel traumatizante do irmão que se constitui por intrusão, o fato e a época do seu aparecimento determinam a sua significação para o sujeito, a intrusão parte do recém-chegado e infesta o ocupante, sendo que o primogênito desempenha em princípio o papel de paciente. A reação do paciente ao trauma depende do seu desenvolvimento psíquico. Surpreendido pelo intruso no desarvoramento (desorientação) do desmame, o paciente o reativa sem parar ante o espetáculo deste, faz uma regressão, que de acordo com os destinos do eu, pode se revelar uma psicose esquizofrênica ou uma neurose hipocondríaca, ou então, reage pela destruição imaginária do monstro, resultando em impulsos perversos ou numa culpa obsessiva.
Mas, se o intruso sobrevier apenas após o complexo de Édipo, será adotado no plano das identificações parentais, não sendo para o sujeito obstáculo ou o reflexo, mas uma pessoa digna de amor e de ódio. As pulsões agressivas se sublimarão como ternura ou severidade.
O irmão também pode proporcionar o modelo arcaico do eu. O papel do agente cabe aqui ao primogênito, e quanto mais conforme for este modelo ao conjunto das pulsões do sujeito, mais feliz será a síntese do eu. É através do semelhante que o objeto, como também o eu se realiza, quanto mais pode assimilar de seu parceiro, melhor será a sua eficácia futura. Mas, também, o grupo de fratria familiar pode favorecer as mais discordantes identificações do eu. A paranoia manifesta temas de filiação, usurpação e espoliação, sendo que através da estrutura narcísica, temas paranoides de intrusão, do duplo, e transformações delirantes do corpo são revelados. O grupo familiar, reduzido à mãe e a fratria, desenha um complexo psíquico em que a realidade é imaginária, possibilitando eclosões de psicoses, de delírio a dois. Assim, torna-se essencial a introdução do terceiro para a constituição do sujeito em suas relações sociais.
Podemos pensar a função fraterna em termos de identificações imaginárias, horizontais, sustentada pela função paterna, eixo vertical, de identificações simbólicas.
 As “tribos” na atualidade se organizam por relações horizontais, sendo grupos formados por afinidades. Se hoje há uma queda da função paterna, há também queda da função fraterna. Estamos num mundo narcísico onde o Outro não tem lugar. O ódio situado por Lacan no eixo formado pelo imaginário e real se apresenta a céu aberto. O ódio que é a resposta afetiva primeira do sujeito por ele ser cortado pela Linguagem, afeto efeito de estrutura, torna-se como diz Lebrun em gozo do ódio atualmente.
Estamos vivendo o que Freud relata em Totem e Tabu, o momento da horda primitiva, do pai tirânico, usurpador, de gozo interminável. Momento atual aquém ou após o complexo de Édipo? Estamos no caos político e social. Não há espaço simbólico para que nossas crianças, principalmente as que habitam as áreas de maior violência em nossa cidade, se organizem em grupos e frequentem as escolas. Lacan, em seu derradeiro ensino, considerou o simbólico uma confusão, muitas línguas, e várias dificuldades em apreender o real, tendo como consequência a queda do simbólico na atualidade. Hoje estacionamos no narcisismo, numa situação especular e espetacular sem saída. Os grupos se formam em situações narcísicas onde as rivalidades, situações de bullyng refletem a dificuldade na saída do complexo de intrusão apresentado por Lacan. E sem direção do Outro. Algumas crianças e jovens conseguem ir nesta direção. Algumas delas viveram ou vivem num lar onde havia ou há a mediação de um terceiro. Mais ainda, através de uma instituição que represente este lugar simbólico, crianças e jovens conseguem fazer sinthoma, um quarto nó que se acrescenta ao nó borromeano dos três registros, imaginário, simbólico e real, e a partir daí desenvolvem uma suplência simbólica. Mas, e as crianças abandonadas? Crianças de rua, que vivem a céu aberto? Nós, psicanalistas, precisamos estar atentos ao gozo desenfreado que cobre o espaço com balas perdidas, consumo, tóxicos e outros objetos a, que só apresentam a face de gozo. Onde está a face causa do desejo?

Fanny, em sua viagem de coragem para a liberdade, liberdade em relação com a Lei, Linguagem, conseguiu conduzir às crianças e atravessar à fronteira, sustentada pelas funções paterna e fraterna. Mas, se atualmente há o esvaziamento do simbólico, podemos então elucubrar sobre esta questão que Lacan nos deixa em seus últimos seminários, que é “imaginar o real”. Esta questão nos traz um fato clínico: a inibição. A inibição é a imisção do imaginário no real. Estamos neste momento social inibidos.
As crianças podem nos trazer as respostas...

Notas:
1-Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
2-Ibid.p.13
3-Ibid.p.13
4-Ibid.p.13
5-Ibid.p.14
6-Ibid.p.14
7-Ibid. p.14
8-Ibid.p.18

Referência bibliográficas
Dor, J. O pai em sua função em psicanálise. RJ: Jorge Zahar Ed., 1997.
Freud. Totem e Tabu. Standard Edition. RJ: Imago Ed, vol XIII.
Kehl org. Função fraterna. RJ: Relume Dumará, 2000.
Miller, J-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. RJ: Jorge Zahar Ed., 2009.
Lacan, J. Os complexos familiares. RJ: Jorge Zahar Ed., 1985.
Lebrun, J-P. O futuro do ódio. Porto Alegre:CMC Ed., 2008.
Filme: Le Voyage de Fanny
           Direção: Lola Doillo    -  Nacionalidade: França

Filme baseado na história real de Fanny Bem-Ami contada em sua autobiografia Le Journal de Fanny.  

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Os complexos familiares em Lacan: complexos de desmame e de intrusão

            Os complexos familiares em Lacan: complexos de desmame e de intrusão
                                                                                            Rosa Jeni Matz

Texto de Lacan de 1938, Os complexos familiares na formação do indivíduo, apresenta temas pertinentes ao início da vida psíquica. Lacan apresenta o complexo do desmame, trazendo curiosas contribuições. O complexo de desmame, o mais primitivo do desenvolvimento psíquico, representa a forma primordial da imago materna (representação inconsciente mental), fixando a relação de amamentação no psiquismo, sob o modo parasitário, devido às exigências das necessidades dos primeiros meses de vida do homem, e funda os sentimentos mais arcaicos e mais estáveis que unem o indivíduo à família. É radicalmente diferente dos instintos, pois é dominado por fatores culturais, embora se aproxime dos instintos, por duas características: apresenta-se em toda espécie humana, sendo genérico; e pela lactação, representando no psiquismo uma função biológica. Mas, é a relação cultural que condiciona o desmame no homem, enquanto nos animais o instinto materno pára de agir quando o fim da amamentação é completado. Muitas vezes o desmame pode ser um trauma psíquico, gerando efeitos, como nas anorexias nervosas, nas toxicomanias pela boca, nas neuroses gástricas. Traumatizante ou não, o desmame deixa no psiquismo humano a marca da relação biológica que ele interrompe. Essa tensão vital é acompanhada por uma crise do psiquismo, a primeira cuja solução tem uma estrutura dialética. Uma tensão vital resolve-se numa intenção mental, que conduz a aceitação ou não do desmame, intenção elementar que não pode ser atribuída a um eu ainda em estado rudimentar. A aceitação ou a recusa não pode ser considerada uma escolha, pois não há ainda um eu para que haja uma afirmação ou negação, e não há contradição, pólos coexistentes e contrários determinam uma atitude ambivalente. Essa ambivalência se resolverá na continuidade do processo dialético, sofrendo destinos diversos.
É a recusa do desmame que funda o positivo do complexo, pois tende a restabelecer a imago da relação de amamentação. O conteúdo dessa imago é dado pelas sensações precoces, mas só adquire forma quando há uma organização mental posterior. Esta etapa é anterior ao advento da forma do objeto, logo estes conteúdos não podem ser representados na consciência, mas surgem como possíveis moldes das experiências psíquicas posteriores. As sensações exteroceptivas, proprioceptivas, e interoceptivas, ainda não estão (depois do décimo segundo mês) suficientemente coordenadas para que ocorra o reconhecimento do corpo próprio, como também, da idéia do que lhe é externo. Mas, algumas sensações exteroceptivas são isoladas como unidades de percepção no início da vida psíquica. São elementos de objetos que correspondem aos primeiros interesses afetivos. A reação de interesse manifestada pela criança diante do rosto humano é muito precoce, desde os primeiros dias, e antes que as coordenações motoras dos olhos estejam concluídas, sendo um fato estrutural. As psicoses reativam a máscara humana de modo inefável, trazendo o arcaísmo de sua significação.
Muito cedo a criança percebe a presença da função materna, sendo que a substituição dessa presença poderá causar danos futuros. A criança apegada ao seio adquire uma satisfação que surge como sinal da máxima plenitude com que pode se satisfazer o desejo humano. As sensações proprioceptivas da sucção e da preensão constituem a base da ambivalência do vivenciado: o ser que absorve é todo absorvido, e o complexo arcaico encontra correspondência no abraço materno. Lacan não fala aí em autoerotismo, como Freud, uma vez que o eu não está constituído, nem de narcisismo, já que não há uma imagem do eu, e nem de erotismo oral, pois a nostalgia do seio nutriente, equívoco da escola psicanalítica, só decorre do complexo de desmame após o seu remanejamento pelo complexo de Édipo. A relação com a realidade em que se baseia a imago materna é de “canibalismo”, canibalismo fusional, inefável, simultaneamente ativo e passivo, sobrevivendo nos jogos e palavras simbólicas, que no mais evoluído amor, recordam “o desejo de larva”.
Essa base não pode ser desligada do caos das sensações interoceptivas de que emerge. A angústia, cujo protótipo surge na asfixia do nascimento, o frio ligado à nudez dos tegumentos, e o “mal-estar labiríntico” para o qual corresponde a satisfação de ser embalado (o acalanto), organizam nesta tríade o tom penoso da vida orgânica, que domina os seis primeiros meses de vida humana, sendo que todos estes mal-estares têm a mesma causa: uma “adaptação” insuficiente à ruptura das condições de ambiente e alimento da vida parasitária intra-uterina.
Devido a dados da fisiologia e da realidade anatômica da não-mielinização dos centros nervosos superiores do recém-nascido (mielinização=formação da baínha mielínica dos nervos durante os primeiros tempos de vida) é impossível fazer do nascimento um trauma psíquico, como alguns psicanalistas afirmam. O atraso na dentição e na marcha, como também na maioria dos aparelhos e funções, determina na criança uma impotência vital total que perdura além dos dois primeiros anos, caráter de exceção em relação aos animais, sendo o homem, então, um animal de nascimento prematuro.
A imago do seio materno domina toda a vida humana. No aleitamento, no abraço e na contemplação da criança, a mãe recebe e satisfaz o mais primitivo de todos os desejos. E, a tolerância da dor do parto pode ser compreendida como uma compensação representativa do primeiro dos fenômenos afetivos a surgir: “a angústia que nasce com a vida”.
Lacan afirma: “Somente a imago que imprime nas profundezas do psiquismo o desmame congênito do homem é capaz de explicar a potência, a riqueza e a duração do sentimento materno. A realização dessa imago na consciência assegura à mulher uma satisfação psíquica privilegiada, enquanto seus efeitos na conduta da mãe poupam a criança do abandono que lhe seria fatal”.
A imago materna é de difícil sublimação, mas deve ser sublimada para que novas relações se introduzam com o grupo social, e se isto não ocorrer, o que é salutar na origem se torna fator de morte. A tendência à morte é vivida pelo homem como objeto de um apetite. Mas, Lacan assinala que Freud a tentou explicar através de uma contradição em seus termos, instinto de morte, cedendo ao preconceito do biólogo, que relaciona tendência a instinto. Lacan diz que a tendência para a morte, que especifica o psiquismo humano, se explica pela razão de que o complexo, unidade funcional do psiquismo, não corresponde a funções vitais, mas à insuficiência congênita dessas funções vitais. Essa tendência psíquica para a morte, sob a forma dada pelo desmame, revela-se nos suicídios “não violentos”, evidenciando a forma oral do complexo: “a greve de fome da anorexia nervosa, o envenenamento lento de certas toxicomanias pela boca, o regime de fome das neuroses gástricas”. A análises desses casos mostra, que em seu abandono à morte, há uma busca do sujeito para o reencontro da imago da mãe.
O abandono das garantias da economia familiar repete o desmame, e somente nesta ocasião, muitas vezes, que o complexo é liquidado. Hegel afirma que o indivíduo que não luta pelo seu reconhecimento fora do grupo familiar nunca atinge a personalidade antes da morte. “A saturação do complexo funda o sentimento materno; sua sublimação contribui para o sentimento familiar”; sua liquidação deixa vestígios para o reconhecimento da imago materna. A sua forma abstrata poderia ser definida como “uma assimilação perfeita da totalidade do ser”, fórmula “meio filosófica” que faz aparecer as nostalgias da humanidade: “a miragem metafísica da harmonia universal, o abismo místico da fusão afetiva, a utopia social de uma tutela totalitária”.
O segundo complexo apresentado no texto é o complexo de intrusão que representa a experiência que a criança realiza quando se reconhece entre irmãos. As condições dessa experiência são variáveis conforme as culturas, extensão do grupo familiar, e conforme o lugar que o acaso confere ao sujeito na ordem de nascimento: a de abastado ou a de usurpador. O ciúme (jalousie) infantil é observado neste período, e Lacan se remete à citação de Santo Agostinho: “Vi com meus próprios olhos, e observei bem um menino tomado de ciúme: ele ainda não falava, mas não conseguia desviar os olhos, sem empalidecer, do amargo espetáculo de seu irmão de leite” (Confissões, I, VII). A estrutura do ciúme infantil esclarece seu papel na gênese da sociabilidade, e do conhecimento humano. O ciúme representa não uma rivalidade vital, mas uma identificação mental. Em crianças entre seis meses e dois anos, confrontados aos pares e sem terceiros, há uma comunicação, que parece reações de rivalidade, como adaptações de posturas e gestos, ocorrendo conformidade em sua alternância, como provocações e respostas, onde se esboça o reconhecimento de um rival, de um “outro” como objeto. Essa reação, que pode parecer precoce, é determinada por uma condição dominante, um limite que não pode ser ultrapassado na distância etária entre os sujeitos, distância de dois meses e meio no primeiro ano do período considerado, e permanece estrito ao se ampliar. As reações mais freqüentes são as da exibição, da sedução e do despotismo. O que se observa não é um conflito entre dois indivíduos, mas um conflito entre duas atitudes opostas e complementares. Cada parceiro confunde a pátria do outro com a sua e se identifica com o outro. Nesse estágio a identificação específica é baseada num sentimento do outro como imaginário. A imagem do outro aí está ligada à estrutura do corpo próprio.
Na situação fraterna primitiva a agressividade se mostra secundária à identificação. A amamentação é para a criança uma neutralização temporária das condições de luta pelo alimento, opondo-se Lacan à idéia darwiniana de que a luta está na origem da vida. O aparecimento do ciúme relacionado com a amamentação, apresentado pela citação de Santo Agostinho, dever ser interpretado prudentemente, pois esta cena pode se apresentar ao sujeito desmamado há muito tempo que não concorre com o irmão, sendo que este fenômeno exige uma identificação com o estado do irmão. Em outros trabalhos, Lacan se refere a esta cena como uma imagem de completude, onde o sujeito que a observa se vê excluído, uma visão totalizante, imaginária, onde o sujeito já esteve neste lugar. A agressividade se sustenta então numa identificação com o outro que é objeto da violência (a agressividade não é primária, é secundária).
Lacan aponta no mal-estar do desmame humano, a origem do desejo de morte, sendo que o masoquismo primário é o momento dialético em que o sujeito assume, por seus primeiros atos lúdicos, a reprodução desse mal-estar, e assim o sublima e o supera (jogo do fort-da de Freud). O sujeito inflige a si mesmo o desmame que sofreu, só que agora triunfa sobre ele, sendo ativo em sua reprodução. A identificação com o irmão fornece a imagem que fixa um dos pólos do masoquismo primário, gerando a violência imaginária do assassinato do irmão, não tendo relação com a luta pela vida. A saída masoquista se situa no ponto de junção entre o imaginário e o simbólico. Freud isolou este masoquismo num jogo de infância, numa criança de dezoito meses. O objeto escolhido, chocalho ou dejeto, ou o carretel em Freud é abolido com prazer, consumando a perda do objeto materno. A imagem do irmão não desmamado só desperta uma agressão por repetir no sujeito a imago da situação materna e com ela o desejo da morte.
A identificação aí citada se refere ao estádio do espelho, que corresponde ao declínio do desmame, ao fim dos seis meses, cuja dominante psíquica é de mal-estar devido ao atraso do crescimento físico, pela prematuração do nascimento, que é a base específica do desmame no homem. O reconhecimento pelo sujeito de sua imagem no espelho é um fenômeno significativo, surge depois dos seis meses e demonstra a realidade desse sujeito, seu valor afetivo é ilusório, quanto a sua imagem, e sua estrutura é o reflexo da forma humana. A percepção da forma do semelhante como unidade mental está ligada a um nível de sociabilidade e inteligência. Neste estágio a discordância tanto das pulsões e das funções é ainda a continuação prolongada da descoordenação dos aparelhos. Daí resulta uma fase que afetiva e mentalmente constitui-se com base numa proprioceptividade que apresenta o corpo como despedaçado, visando uma recolocação do corpo próprio, e a realidade inicialmente submetida a um despedaçamento perceptivo ordena-se refletindo as formas do corpo, que fornecem o modelo de todos os objetos. Há aí uma estrutura arcaica do mundo humano que surge através da análise do inconsciente humano, como as fantasias de desmembramento, de desarticulação do corpo, da imagem do duplo. O restabelecimento da imagem perdida de si mesmo instala-se desde a origem no centro da consciência. É a origem da energia do progresso mental, predominando as funções visuais. A busca da unidade afetiva promove as formas em que o sujeito representa a sua identidade para si mesmo, sendo que a forma mais intuitiva é dada pela imagem especular. O sujeito saúda a unidade mental, reconhece nela o ideal da imago do duplo, e aclama a vitória da imagem salutar. O mundo próprio dessa fase é narcísico, não apenas pelo sentido atribuído por Freud e Abraham, do investimento enérgico da libido no corpo, mas também, como uma estrutura mental que inclui o mito de Narciso, que indica a morte, como insuficiência vital para quem veio a esse mundo; surge a reflexão especular, a imago do duplo central, e a ilusão da imagem, indicando que este mundo não contém o outro.
A percepção da atividade de outrem não é bastante para romper o isolamento afetivo do sujeito. A imagem do semelhante desempenha apenas um papel primário, limitado à função de expressividade, ela desencadeia no sujeito emoções e posturas similares, permitida pela estrutura atual de seus aparelhos. O sujeito ao se sofrer essa sugestão motora ou emocional não se distingue da imagem em si, a imagem só acrescenta a intromissão temporária de uma imagem estrangeira, chamada de intrusão narcísica, que, no entanto, contribuirá pela unidade introduzida pelas tendências na formação do eu. Mas, antes que o eu afirme a sua identidade, ele se confunde com essa imagem que o forma, mas que o aliena. Aí se dá a estrutura ambígua do espetáculo, através de situações de despotismo, sedução e exibição, dando forma às pulsões sadomasoquista e escopofílicas (desejo de ver e ser visto), que são destruidoras do outro. Essa intrusão primordial permite compreender a projeção do eu constituído, que se manifesta como mitomaníaca (tendência mórbida para a mentira), na criança cuja identificação pessoal ainda vacila; transitivista, no paranóico cujo eu regride a um estágio arcaico; e compreensiva, quando é integrada num eu normal.
O eu se constitui junto com o outro no drama do ciúme. Esta é uma discordância que intervém na satisfação espetacular. Implica a introdução de um objeto terceiro, que irá substituir a confusão afetiva e a ambigüidade espetacular pela concorrência de uma situação triangular. O sujeito que enveredou pelo ciúme por identificação, desemboca numa nova alternativa onde é jogado o destino da realidade. Ou ele reencontra o objeto materno e se prende à recusa do real e à destruição do outro, ou é levado a algum outro objeto, acolhe-o sob a forma de conhecimento humano como objeto comunicável, já que a concorrência implica em rivalidade e concordância, reconhecendo o outro com quem trava a luta ou firma o contrato, encontrando o outro e o objeto socializado. O ciúme humano se distingue da rivalidade vital imediata, revelando-se o arquétipo dos sentimentos sociais.
O eu não encontra antes dos três anos a sua constituição essencial.
Os traços essenciais do complexo fraterno são: o papel traumatizante do irmão que se constitui por intrusão, o fato e a época do seu aparecimento determinam a sua significação para o sujeito, a intrusão parte do recém-chegado e infesta o ocupante, sendo que o primogênito desempenha em princípio o papel de paciente. A reação do paciente ao trauma depende do seu desenvolvimento psíquico. Surpreendido pelo intruso no desarvoramento (desorientação) do desmame, o paciente o reativa sem parar ante o espetáculo deste, faz uma regressão, que de acordo com os destinos do eu, pode se revelar uma psicose esquizofrênica ou uma neurose hipocondríaca, ou então, reage pela destruição imaginária do monstro, resultando em impulsos perversos ou numa culpa obsessiva.
Mas, se o intruso sobrevier apenas após o complexo de Édipo, será adotado no plano das identificações parentais, não sendo para o sujeito obstáculo ou o reflexo, mas uma pessoa digna de amor e de ódio. As pulsões agressivas se sublimarão como ternura ou severidade.

O irmão também pode proporcionar o modelo arcaico do eu. O papel do agente cabe aqui ao primogênito, e quanto mais conforme for este modelo ao conjunto das pulsões do sujeito, mais feliz será a síntese do eu. É através do semelhante que o objeto, como também o eu se realiza, quanto mais pode assimilar de seu parceiro, melhor será a sua eficácia futura. Mas, também, o grupo de fratria familiar pode favorecer as mais discordantes identificações do eu. A paranóia manifesta temas de filiação, usurpação e espoliação, sendo que através da estrutura narcísica, temas paranóides de intrusão, do duplo, e transformações delirantes do corpo são revelados. O grupo familiar, reduzido à mãe e a fratria, desenha um complexo psíquico em que a realidade é imaginária, possibilitando eclosões de psicoses, de delírio a dois. Assim, torna-se essencial a introdução do terceiro para a constituição do sujeito em suas relações sociais. 

Bibliografia:
Lacan, J. Os complexos familiares. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O conceito de Identificação em Jacques Lacan


O  conceito de Identificação em Jacques Lacan

                                                                                               Rosa Jeni Matz

Este trabalho tem como objetivo esboçar uma via teórica sobre o conceito de identificação no sistema de pensamento lacaniano, tentando esclarecer este conceito no percurso de sua construção.
A identificação ocupa lugar proeminente na teoria de Jacques Lacan. No desenvolvimento do pensamento lacaniano, inicialmente, a identificação surge no registro do imaginário, na fase do estádio do espelho. Depois, ela pontua os três tempos do Édipo desenvolvido por Lacan: identificação com o desejo da mãe; a seguir a descoberta da lei do pai; e finalmente a simbolização desta lei, permitindo as identificações posteriores constitutivas do sujeito. E, em 1961, no seminário “A Identificação”, Lacan destaca o conceito de traço unário como matriz da identificação.
O estádio do espelho ordena-se a partir de uma experiência fundamental de identificação, onde a criança conquista a imagem do seu próprio corpo. A identificação primordial da criança com esta imagem promove a estruturação do eu, encerrando a vivência do corpo despedaçado. Antes do estágio do espelho a criança não experimenta seu corpo como uma unidade, mas sim como algo disperso. O primeiro tempo dessa fase é de uma confusão entre a criança e o outro, assujeitando-se ao registro do imaginário. No segundo tempo, a criança descobre que o outro do espelho não é um outro real, mas uma imagem, distinguindo a imagem do outro da realidade do outro. No terceiro tempo reconhece que a imagem do espelho é a dela, recupera a dispersão do corpo despedaçado numa totalidade unificada, representação do próprio corpo. A imagem do corpo se torna estruturante para a identidade do sujeito, que é sustentada pela dimensão imaginária.
Lacan afirma que para a compreensão do complexo de Édipo devemos considerar três tempos.  No primeiro tempo do Édipo, a criança ainda está numa relação de indistinção fusional com a mãe, identificando-se com o que supõe ser o objeto de seu desejo. Lacan fala: “o sujeito se identifica especularmente com aquilo que é o objeto do desejo de sua mãe. Essa é a etapa fálica primitiva, aquela que a metáfora paterna age por si, uma vez que a primazia do falo já está instaurada no mundo pela existência do símbolo do discurso e da lei. Mas, a criança, por sua vez, só pesca o resultado. Para agradar a mãe...é necessário e suficiente ser o falo”(1). O desejo da criança se faz desejo do desejo da mãe, fase facilitada pelos primeiros cuidados e satisfação das necessidades da criança na relação criança-mãe. A relação da criança é com o desejo: “É um desejo de desejo”(2). Coloca-se como objeto do que é suposto faltar à mãe, o falo. Lacan diz que no primeiro tempo do Édipo a criança é radicalmente assujeitada ao desejo da mãe, se tornando alienada na dialética do ser: ““to be or not to be” o objeto do desejo da mãe”(3).
Esta oscilação anuncia o segundo tempo do Édipo, iniciada com a inclusão paterna na relação mãe-criança. A criança é introduzida ao registro da castração, através da dimensão paterna. A mediação paterna intervirá na relação mãe-criança-falo sob a forma de privação, o pai priva a mãe do objeto fálico de seu desejo, sendo que é vivida pela criança como interdição (a mãe é dele, e não da criança), e  frustração, frustrando a criança da mãe (ato imaginário que se refere a um objeto real, a mãe, enquanto objeto de satisfação de necessidades para criança). Como diz Lacan: “Esse é o estádio...pelo qual aquilo que desvincula o sujeito de sua identificação liga-o, ao mesmo tempo, ao primeiro aparecimento da lei, sob a forma desse fato de que a mãe é dependente de um objeto, que já não é simplesmente o objeto de seu desejo, mas um objeto que o Outro tem ou não tem”(4). A criança descobre que o desejo da mãe também é submetido à lei do desejo do Outro, remetendo-se à questão de ter ou não o falo. A criança abalada de sua certeza de ser o falo da mãe, é forçada pela função paterna não somente não ser o falo, mas também não tê-lo, assim como a mãe. O complexo de castração incide que para ter o falo é preciso que antes seja estipulado que não se pode tê-lo, que a possibilidade de ser castrado é essencial para tê-lo.
O terceiro tempo do Édipo finaliza a rivalidade fálica pai-mãe-criança, instalando o tempo da simbolização da lei. O pai, ao ser investido do atributo fálico, o que tem o falo, reinstaura o lugar exato do desejo da mãe. A criança abandona a problemática do ser, aceitando negociar a problemática do ter. Tanto ela, como a mãe não têm o falo, logo se dirigem para aquele que o tem, o pai. A dialética do ter convoca   o jogo das identificações. O menino, ao renunciar a ser o falo materno, identifica-se com o pai que supostamente tem o falo. A menina, pode renunciar a posição de objeto do desejo materno, ao se deparar com a lógica de não ter o falo, identificando-se com a mãe: “ela sabe onde está, ela sabe onde deve ir buscá-lo, do lado do pai, junto àquele que o tem”(5).
Assim, com diz Lacan: “em primeiro lugar, a instância paterna se introduz de uma forma velada, ou que ainda não aparece. Isso não impede que o pai exista na realidade mundana, ou seja, no mundo, em virtude de neste reinar a lei do símbolo. Por causa disso, a questão do falo já está colocada em algum lugar da mãe, onde a criança tem de situá-la. Em, segundo lugar, o pai se afirma em sua presença privadora, como aquele que é o suporte da lei, e isso já não é feito de maneira velada, porém de um modo mediado pela mãe, que é quem o instaura como aquele que lhe faz a lei. Em terceiro lugar, o pai se revela como aquele que tem. É a saída do complexo de Édipo. Essa saída é favorável na medida em que a identificação com o pai é feita nesse terceiro tempo, no qual ele intervém como aquele que tem o falo. Essa identificação chama-se Ideal do eu”(6).
Lacan afirma que “o pai é no Outro, o significante que representa a existência do lugar da cadeia significante como lei... É nessa medida que o terceiro tempo do complexo de Édipo pode ser transposto, isto é, a etapa da identificação, na qual se trata de o menino se identificar com o pai possuidor do pênis, e de a menina reconhecer o homem como aquele que o possui”(7).
A reposição do falo em seu devido lugar, é estruturante para a criança, quando o pai, que supostamente o tem, é preferido pela mãe. Esta preferência, que registra a passagem do ser ao ter, é a manifestação da instauração da metáfora paterna, e do recalque originário.
A metáfora paterna pode ser ilustrada com o jogo do fort-da freudiano, onde ao jogar o carretel amarrado num cordão, a criança simboliza a presença e ausência da mãe, tendo acesso ao simbólico, controlando simbolicamente o objeto perdido. O fort-da é uma substituição significante, o carretel uma metáfora da mãe, e a atividade lúdica demonstra que a criança passou de uma posição passiva, assujeitada, para uma posição ativa. A criança inverte a situação, pois agora ela que abandona a mãe simbolicamente. A criança se torna mestre da ausência devido a identificação.  Consegue controlar o fato de que não é mais o único e exclusivo objeto do desejo da mãe, o objeto que preenche a falta do Outro, o falo. A criança mobiliza seu desejo como desejo de sujeito, dirigindo-se para objetos substitutos do objeto perdido, e principalmente, o advento da linguagem, acesso ao simbólico, será signo do controle deste objeto perdido, através da metáfora do Nome-do-Pai, sustentada pelo recalque originário.
O recalque originário é estruturante, sendo uma metaforização. É a simbolização primordial da lei, efetuada na substituição do significante fálico pelo significante Nome-do-Pai. A criança substitui a posição de ser o único objeto do desejo da mãe, o falo, a dialética do ser, para a dimensão do ter. É a passagem para sujeito, deixando de ser o objeto do desejo do Outro. O advento do sujeito implica numa operação inaugural de linguagem, esforço simbólico, onde a criança renuncia ao objeto fálico; sendo que o significante fálico, significante do desejo da mãe, é recalcado. Como Lacan afirma “ que não há sujeito se não houver um significante que o funde”(8). O sujeito é efeito do significante.
O recalque originário seria a intervenção intrapsíquica que assegura a simbolização do real pela linguagem. O processo metafórico é a introdução de um significante novo, que faz o significante antigo passar sob a barra de significação, mantendo-se inconsciente.
Num momento do Édipo a criança associa a ausência da mãe com a presença do pai. O pai aparece inicialmente como rival, e depois como o que tem o falo. A criança consegue nomear a ausência da mãe, invocando o Pai, que tem o Falo, o pai simbólico. O Nome-do-Pai é associado à lei simbólica, que ele representa. Como Joel Dor afirma: “O Nome-do-Pai é uma designação endereçada ao reconhecimento de uma função simbólica, circunscrita no lugar de onde se exerce a lei. Esta designação é que é o produto de uma metáfora”(9).
Para Lacan o pai simbólico é uma metáfora, e uma metáfora “é um significante que surge no lugar de outro significante”(10). E prossegue: “...a função do pai, Nome-do-Pai, está ligada à proibição do incesto...”(11). O significante do desejo da mãe sofre um recalque e se torna inconsciente.
Em 1962, Lacan se dedicou um ano a questão da identificação no seu seminário “A Identificação” (livro IX). Distingue três tipos de identificações, inspiradas em Freud, apesar de sofrerem modificações: identificação por “incorporação” com o Outro; identificação por regressão, a um traço unário, tomado do Outro do desejo considerado como objeto, e identificação imaginária, histérica, do desejo com o desejo do outro, marca de um desejo insatisfeito. O conjunto do problema da identificação será colocado a partir do segundo tipo de identificação, da função do traço unário. Constrói o seu conceito de traço unário, que apesar de se basear em Freud, no traço único da identificação regressiva,  fundamenta a concepção do Um, a diferença, que é a base da identidade, distinguindo-o da lógica clássica, onde o Um é a marca do único. O traço unário é pura diferença, sendo que a identificação não é unificação, mas fissura. Partindo da análise do cogito cartesiano, Lacan situa a identificação inaugural, a do sujeito (je) distinto do eu (moi), no traço unário, essência do significante, que é o nome próprio.
Definindo o Um como “o Um como tal é o Outro”(12), Lacan o designa como a estrutura da diferença como tal. O Um, unidade da pura diferença, o traço unário, não deixa de evocar o Einziger Zug (traço único) de Freud, quando se refere a identificação regressiva. Lacan traduz einziger (unicidade) por unário, pois afirma que a identificação tem mais uma função distintiva do que unificadora. Dora imita a tosse do pai, o sintoma é o mesmo da pessoa amada, “o eu absorve as propriedades do objeto”(13), sendo a identificação parcial: “o eu se limitando a tomar do objeto apenas um de seus traços”(14). Este traço é como uma assinatura, onde se lê algo de sua identidade, que se articula com um objeto, que ao se apagar pela marcação do traço, se torna ausência. O sujeito passa por outro sujeito para se singularizar.
Ao contrário de Kant, para quem o Um é síntese, o Um de Freud, o traço unário, é para Lacan a entrada do significante no real sob a forma de diferença pura.
Como Taillandier afirma em sua resenha deste seminário: “Se há algo de identificação nos fenômenos inconscientes, é porque há significante...Só há identificação a partir do significante (na medida em que este tem como efeito um sujeito), e a identificação é identificação com o significante – só há identificação com um significante e não com uma pessoa, com um objeto, ou com qualquer outra coisa)...”(15) Lacan interroga a estrutura do significante em sua relação com a “identidade”, questionando se A é idêntico a A como diz a lógica, negando isto. Na ordem do significante não há o mesmo, só no real, que é o impossível. O significante não pode ser idêntico a si mesmo, é o que os outros não são, a pura diferença, representa um sujeito para outro significante.
A primeira identificação definida por Freud, a identificação com o pai, também designada como identificação canibalesca, constitui-se sobre uma incorporação baseada no mito da horda primitiva, cuja transformação simbólica inicia-se no gozo da devoração de um pai violento, ciumento e possuidor de todas as mulheres. O seu valor simbólico se dá pelo enraizamento subjetivo da lei, a metáfora paterna e a função do significante Nome-do-Pai. Assim se esboça uma subjetividade, sobre um corpo que se tornou ausente (pai assassinado e devorado), instalando-se a falta, que se sobrepõe à ausência, introduzida pela referência simbólica à lei. Ocorre a incorporação do Nome-do-Pai, intervindo a função do nome próprio, identificação a um significante, elemento da diferença.
Taillandier traz a questão se esta primeira identificação “trata-se da mãe, como sugerem certos textos, ou do pai, seguindo a linha freudiana? Ou antes se tratará da mãe na medida em que esta é portadora da metáfora paterna primordial?” (16)
 Lacan integra em sua teoria do significante as outras duas identificações freudianas, a identificação primária, no viés do pai simbólico, e a terceira identificação, a identificação histérica, que age na constituição das massas, tendo como vetor o desejo do desejo do Outro, “Que queres?”(Che vuoi?) (17), marca da dependência do sujeito.
Nasio afirma que para Lacan “a identificação é o nome que serve para designar o nascimento de uma nova instância psíquica, a produção de um novo sujeito”(18). Seria o nascimento de um novo lugar. Segundo a natureza deste lugar distingue duas categorias de identificações. A primeira se situa na origem do sujeito do inconsciente, identificação simbólica; a segunda se relaciona a origem do eu, que denomina de identificação imaginária. A terceira não se relaciona a produção de uma nova instância, mas à instituição da fantasia, que qualifica de fantasística. Os componentes da identificação simbólica são o significante e o sujeito do inconsciente. Os da imaginária são a imagem e o eu, e o da fantasística são o sujeito do inconsciente e o objeto a .
Em Lacan, diz Nasio, a identificação sofre modificação ao designar papel ativo ao objeto. O objeto é o agente da identificação. A identificação simbólica consiste no nascimento do sujeito do inconsciente, a produção de um traço singular “que se distingue ao retomarmos um a um cada significante de uma história”(19).
A terceira identificação, a fantasia ($a), caracteriza-se pela identificação do sujeito com o objeto, objeto a, o sujeito é o objeto na fantasia. A fantasia é uma formação psíquica com o objetivo de “entreter” o ímpeto de uma pulsão, para que não haja a descarga de um gozo intolerável. Nasio diz que o sujeito se cristaliza numa parte de uma tensão que não se descarrega, a fantasia barra o acesso ao gozo absoluto, satisfazendo parcialmente a pulsão, tendo função de defesa. Este objeto não é apenas um excedente de energia pulsional, mas também uma tensão de natureza sexual, já que se relaciona a uma fonte corporal erógena, parte erotizada do corpo. O objeto a adotará diferentes figuras, conforme a zona corporal prevalente na fantasia. Quando a zona dominante é a boca o objeto a surge como seio, e a fantasia oral, se for o anus, o objeto será as fezes, e a fantasia anal, etc..
Lacan afirma que há uma isomorfia estrutural entre estes três tipos de identificação. Há uma identidade estrutural entre a identificação, do primeiro gênero, identificação com o pai, e a identificação da segunda espécie, promovida por Lacan, a identificação ao traço unário, que é matriz fundadora de todas as identificações, e a identificação do terceiro gênero, identificação com o desejo do outro, denominada por Freud de identificação do tipo histérico.
Podemos observar isto no seminário “As formações do inconsciente” (1957/58), onde Lacan, ao se estender sobre o tema de sugestão e transferência, afirma:”... a identificação sob a sua forma primária, aquela que conhecemos bem, que é a identificação com as insígnias do Outro como sujeito da demanda, aquele que tem o poder de satisfazê-la ou não satisfazê-la, e que marca a todo instante essa satisfação como algo que é, no primeiro plano, sua linguagem, sua fala”(20). Ao comentar a segunda identificação freudiana, diz que “é a escolha dos significantes que dá a indicação da regressão”(21), logo a identificação com o significante. E sobre a terceira identificação, afirma que para a histérica “...ela só pode realizar essa fixação do ponto de seu desejo sob a condição de se identificar com uma coisa qualquer, com um pequeno traço. Onde lhes falo de uma insígnia, Freud fala de um traço, um traço único, einziger Zug, não importa qual, num outro qualquer em quem ela possa pressentir que existe o mesmo problema de desejo... A identificação de que se trata situa-se aqui, em ($a), ali onde lhes apontei a fantasia, da última vez....O outro, aqui, serve...para permitir ao sujeito manter uma certa posição que evite o colapso do desejo...”(22).


Notas:
Lacan, Jacques. As Formações do Inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1957-1958, p.1982-Ibid., p.205
3-Ibid., p.197
4-Ibid., p.199
5-Dor, Joel. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem, Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1989, p.88.
6-Op. Cit., p.200
7-Op. Cit., pp.202/203
8-Op. Cit., p.195
9-Op. Cit., p.92
10-Op. Cit., p. 180
11-Op. Cit., p.194
12- Dor, Joel. Introdução à leitura de Lacan: estrutura do sujeito, Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1995, p.69
13- Kaufman, Pierre, Dicionário enciclopédico de psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996, p.561
14-Ibid., p.561
15- Manonni, Maud, et al. As identificações na clínica e na teoria psicanalítica, Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994, p.20.
16- Ibid., p.18
17- Roudinesco, Elizabeth e Plon, Michel. Dicionário de psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p.365
18- Nasio, Juan-David. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995, p.101
19-Ibid., p.114
20-Op. Cit., p.441
21-Op. Cit., p.438
22-Op. Cit., pp 447/448


Bibliografia:
Dor, Joel. Introdução à leitura de Lacan: o inconsciente estruturado como linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1989.
Dor, Joel. Introdução à leitura de Lacan: estrutura do sujeito. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1995.
Lacan, Jacques. As Formações do Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1957-1958.
Lacan, Jacques. A Identificação, seminário inédito, 1962.
Kaufman, Pierre. Dicionário enciclopédico de psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.
Manonni, Maud, et al. As identificações na clínica e na teoria psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.
Nasio, Juan-David. Lições sobre os sete conceitos cruciais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
Roudinesco, Elizabeth e Plon, Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.