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quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência

A função fraterna na infância e na adolescência em momentos de violência
                                                                                      Rosa Jeni Matz

Este trabalho parte de um filme A viagem de Fanny sobre um fato real ocorrido na Segunda Guerra Mundial, que mostra como um grupo de crianças responde à violência da guerra, e pretende fazer um contraste entre as respostas das crianças e adolescentes na contemporaneidade.
Filme: A viagem de Fanny – Le Voyage de Fanny
Fanny (Léonie Souchaud) tem 12 anos, é judia, e se esconde numa casa de acolhimento distante de seus pais junto com as duas irmãs mais novas durante a Segunda Guerra Mundial. Forçada a fugir rapidamente do esconderijo devido a invasão nazista, torna-se líder de um grupo de crianças, que viajam num caminho perigoso pela França ocupada para a Suíça. De início, as crianças são acompanhadas de uma senhora, mas devido às pressões e de imprevistos da ocupação nazista, o grupo prossegue a viagem sem a presença de um adulto, tendo que Fanny se tornar a guia deste percurso, e prematuramente escolher, decidir, cuidar, proteger.
Apesar da tensão devido o perigo da guerra as crianças são crianças.  As crianças menores fantasiam os nazistas como “monstros”, todas brincam com alegria e espontaneidade num riacho e numa cabana que se tornam palcos de fantasias, e através do brincar transformam o ambiente hostil em ambiente alegre e criativo. Alguns habitantes da região, em diferentes ocasiões, as auxiliam na fuga, retratando o valor da solidariedade e da amizade.
Questões: é possível pensar o exercício da função fraterna sem a sustentação da função paterna? Como encontrar vias para lidar com a queda do simbólico, da função fraterna, no momento atual?
O filme aborda a função paterna e a função fraterna. Neste momento de guerra e violência Fanny sustenta uma função paterna, que possibilita uma organização fraterna.
Joel Dor, em seu livro “O pai e sua função em psicanálise” (1) afirma que “a noção de pai intervém no campo conceitual da psicanálise como um operador simbólico a-histórico” (2). Mas, ao ficar fora da história, ele está “paradoxalmente inscrito no ponto de origem de toda história” (3), uma história mítica, mito necessário e universal. A noção de pai em psicanálise também não se refere “exclusivamente à existência de algum pai encarnado” (4), nada garante que a encarnação corresponda à consistência de um pai investido de legítimo poder estruturante do inconsciente. Não se trata de um ser encarnado, mas de “uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (5). Pela sua característica universal, o seu caráter é operante e estruturante, para qualquer sexo que a ele se refere. É Lei universal, é Linguagem. Sendo este pai simbólico universal, somos tocados pela sua função, que nos estrutura como “sujeitos”. Questiona: Sob que insígnias se alojam os pais encarnados, os pais que empiricamente são colocados em situação de se designarem pais? Responde: aparecem no máximo como diplomatas, e embaixadores comuns. O embaixador representa o seu governo junto ao estrangeiro, e o pai, “no real de sua encarnação” (6), deve representar o governo do pai simbólico, assumindo a delegação desta autoridade junto à “comunidade estrangeira mãe-filho” (7).
Em termos da carência paterna, pode-se afirmar que “a função paterna conserva a sua virtude simbólica inauguralmente estruturante na própria ausência de todo Pai real” (8). A função do Pai simbólico é exterior ao Pai real, sendo a função simbólica, a pedra angular da problemática paterna na psicanálise.
No texto Os complexos familiares na formação do indivíduo, de 1938, Lacan apresenta dois complexos fundamentais que se apresentam no início da vida psíquica da criança. De início, o complexo do desmame, o mais primitivo do desenvolvimento psíquico, representando a forma primordial da imago materna (representação inconsciente mental), que fixa a relação de amamentação no psiquismo e suas derivações.
O segundo complexo é o complexo de intrusão que representa a experiência que a criança realiza quando se reconhece entre irmãos. As condições dessa experiência são variáveis conforme as culturas, extensão do grupo familiar, e conforme o lugar que o acaso confere ao sujeito na ordem de nascimento: a de abastado ou a de usurpador. O ciúme (jalousie) infantil é observado neste período, e Lacan se remete à citação de Santo Agostinho: “Vi com meus próprios olhos, e observei bem um menino tomado de ciúme: ele ainda não falava, mas não conseguia desviar os olhos, sem empalidecer, do amargo espetáculo de seu irmão de leite” (Confissões, I, VII). A estrutura do ciúme infantil esclarece seu papel na gênese da sociabilidade, e do conhecimento humano. O ciúme representa não uma rivalidade vital, mas uma identificação mental. Em crianças entre seis meses e dois anos, confrontados aos pares e sem terceiros, há uma comunicação, que parece reações de rivalidade, como adaptações de posturas e gestos, ocorrendo conformidade em sua alternância, como provocações e respostas, onde se esboça o reconhecimento de um rival, de um “outro” como objeto. Essa reação, que pode parecer precoce, é determinada por uma condição dominante, um limite que não pode ser ultrapassado na distância etária entre os sujeitos, distância de dois meses e meio no primeiro ano do período considerado, e permanece estrito ao se ampliar. As reações mais frequentes são as da exibição, da sedução e do despotismo. O que se observa não é um conflito entre dois indivíduos, mas um conflito entre duas atitudes opostas e complementares. Cada parceiro confunde a pátria do outro com a sua e se identifica com o outro. Nesse estágio a identificação específica é baseada num sentimento do outro como imaginário. A imagem do outro aí está ligada à estrutura do corpo próprio.
Na situação fraterna primitiva a agressividade se mostra secundária à identificação. A amamentação é para a criança uma neutralização temporária das condições de luta pelo alimento, opondo-se Lacan à ideia darwiniana de que a luta está na origem da vida. O aparecimento do ciúme relacionado com a amamentação, apresentado pela citação de Santo Agostinho, dever ser interpretado prudentemente, pois esta cena pode se apresentar ao sujeito desmamado há muito tempo que não concorre com o irmão, sendo que este fenômeno exige uma identificação com o estado do irmão. Em outros trabalhos, Lacan se refere a esta cena como uma imagem de completude, onde o sujeito que a observa se vê excluído, uma visão totalizante, imaginária, onde o sujeito já esteve neste lugar. A agressividade se sustenta então numa identificação com o outro que é objeto da violência (a agressividade não é primária, é secundária).
Podemos encontrar expressão de agressividade em diversas cenas sociais. Esta identificação onde uma criança se percebe usurpada por outra criança abastada, e excluída desta imagem completa, acontece a todo momento em nossa sociedade através da luta de classes. Uma criança sem recursos econômicos, que olha através de uma vitrine de brinquedos o outro abastado de posse com o brinquedo que quer possuir, revive a todo momento em outras situações esta cena de completude imaginária.
O eu se constitui junto com o outro no drama do ciúme. A introdução de um terceiro irá substituir a confusão afetiva e a ambiguidade pela concorrência de uma situação triangular. O sujeito que enveredou pelo ciúme por identificação, desemboca numa nova alternativa onde é jogado o seu destino. Ou ele reencontra o objeto materno e se prende à recusa do real e à destruição do outro, ou é levado a algum outro objeto, acolhe-o sob a forma de conhecimento humano, como objeto comunicável. A concorrência implica em rivalidade ou concordância, sendo que aí é possível reconhecer o outro com quem trava a luta e firmar o contrato. O ciúme humano se distingue da rivalidade vital imediata, revelando-se o arquétipo dos sentimentos sociais.
Os traços essenciais do complexo fraterno são: o papel traumatizante do irmão que se constitui por intrusão, o fato e a época do seu aparecimento determinam a sua significação para o sujeito, a intrusão parte do recém-chegado e infesta o ocupante, sendo que o primogênito desempenha em princípio o papel de paciente. A reação do paciente ao trauma depende do seu desenvolvimento psíquico. Surpreendido pelo intruso no desarvoramento (desorientação) do desmame, o paciente o reativa sem parar ante o espetáculo deste, faz uma regressão, que de acordo com os destinos do eu, pode se revelar uma psicose esquizofrênica ou uma neurose hipocondríaca, ou então, reage pela destruição imaginária do monstro, resultando em impulsos perversos ou numa culpa obsessiva.
Mas, se o intruso sobrevier apenas após o complexo de Édipo, será adotado no plano das identificações parentais, não sendo para o sujeito obstáculo ou o reflexo, mas uma pessoa digna de amor e de ódio. As pulsões agressivas se sublimarão como ternura ou severidade.
O irmão também pode proporcionar o modelo arcaico do eu. O papel do agente cabe aqui ao primogênito, e quanto mais conforme for este modelo ao conjunto das pulsões do sujeito, mais feliz será a síntese do eu. É através do semelhante que o objeto, como também o eu se realiza, quanto mais pode assimilar de seu parceiro, melhor será a sua eficácia futura. Mas, também, o grupo de fratria familiar pode favorecer as mais discordantes identificações do eu. A paranoia manifesta temas de filiação, usurpação e espoliação, sendo que através da estrutura narcísica, temas paranoides de intrusão, do duplo, e transformações delirantes do corpo são revelados. O grupo familiar, reduzido à mãe e a fratria, desenha um complexo psíquico em que a realidade é imaginária, possibilitando eclosões de psicoses, de delírio a dois. Assim, torna-se essencial a introdução do terceiro para a constituição do sujeito em suas relações sociais.
Podemos pensar a função fraterna em termos de identificações imaginárias, horizontais, sustentada pela função paterna, eixo vertical, de identificações simbólicas.
 As “tribos” na atualidade se organizam por relações horizontais, sendo grupos formados por afinidades. Se hoje há uma queda da função paterna, há também queda da função fraterna. Estamos num mundo narcísico onde o Outro não tem lugar. O ódio situado por Lacan no eixo formado pelo imaginário e real se apresenta a céu aberto. O ódio que é a resposta afetiva primeira do sujeito por ele ser cortado pela Linguagem, afeto efeito de estrutura, torna-se como diz Lebrun em gozo do ódio atualmente.
Estamos vivendo o que Freud relata em Totem e Tabu, o momento da horda primitiva, do pai tirânico, usurpador, de gozo interminável. Momento atual aquém ou após o complexo de Édipo? Estamos no caos político e social. Não há espaço simbólico para que nossas crianças, principalmente as que habitam as áreas de maior violência em nossa cidade, se organizem em grupos e frequentem as escolas. Lacan, em seu derradeiro ensino, considerou o simbólico uma confusão, muitas línguas, e várias dificuldades em apreender o real, tendo como consequência a queda do simbólico na atualidade. Hoje estacionamos no narcisismo, numa situação especular e espetacular sem saída. Os grupos se formam em situações narcísicas onde as rivalidades, situações de bullyng refletem a dificuldade na saída do complexo de intrusão apresentado por Lacan. E sem direção do Outro. Algumas crianças e jovens conseguem ir nesta direção. Algumas delas viveram ou vivem num lar onde havia ou há a mediação de um terceiro. Mais ainda, através de uma instituição que represente este lugar simbólico, crianças e jovens conseguem fazer sinthoma, um quarto nó que se acrescenta ao nó borromeano dos três registros, imaginário, simbólico e real, e a partir daí desenvolvem uma suplência simbólica. Mas, e as crianças abandonadas? Crianças de rua, que vivem a céu aberto? Nós, psicanalistas, precisamos estar atentos ao gozo desenfreado que cobre o espaço com balas perdidas, consumo, tóxicos e outros objetos a, que só apresentam a face de gozo. Onde está a face causa do desejo?

Fanny, em sua viagem de coragem para a liberdade, liberdade em relação com a Lei, Linguagem, conseguiu conduzir às crianças e atravessar à fronteira, sustentada pelas funções paterna e fraterna. Mas, se atualmente há o esvaziamento do simbólico, podemos então elucubrar sobre esta questão que Lacan nos deixa em seus últimos seminários, que é “imaginar o real”. Esta questão nos traz um fato clínico: a inibição. A inibição é a imisção do imaginário no real. Estamos neste momento social inibidos.
As crianças podem nos trazer as respostas...

Notas:
1-Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
2-Ibid.p.13
3-Ibid.p.13
4-Ibid.p.13
5-Ibid.p.14
6-Ibid.p.14
7-Ibid. p.14
8-Ibid.p.18

Referência bibliográficas
Dor, J. O pai em sua função em psicanálise. RJ: Jorge Zahar Ed., 1997.
Freud. Totem e Tabu. Standard Edition. RJ: Imago Ed, vol XIII.
Kehl org. Função fraterna. RJ: Relume Dumará, 2000.
Miller, J-A. Perspectivas do Seminário 23 de Lacan. RJ: Jorge Zahar Ed., 2009.
Lacan, J. Os complexos familiares. RJ: Jorge Zahar Ed., 1985.
Lebrun, J-P. O futuro do ódio. Porto Alegre:CMC Ed., 2008.
Filme: Le Voyage de Fanny
           Direção: Lola Doillo    -  Nacionalidade: França

Filme baseado na história real de Fanny Bem-Ami contada em sua autobiografia Le Journal de Fanny.  

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A função do pai em psicanálise


A  função do pai em psicanálise

                                                         Rosa Jeni Matz

Joel Dor, em seu livro “O pai e sua função em psicanálise” (1) afirma que “a noção de pai intervém no campo conceitual da psicanálise como um operador simbólico a-histórico” (2). Mas, ao ficar fora da história, ele está “paradoxalmente inscrito no ponto de origem de toda história” (3), uma história mítica, mito necessário e universal. A noção de pai em psicanálise também não se refere “exclusivamente à existência de algum pai encarnado” (4), nada garante que a encarnação corresponda à consistência de um pai investido de legítimo poder estruturante do inconsciente. Não se trata de um ser encarnado, mas de “uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (5). Pela sua característica universal, o seu caráter é operante e estruturante, para qualquer sexo que a ele se refere. É Lei universal, é Linguagem. Sendo este pai simbólico universal, somos tocados pela sua função, que nos estrutura como “sujeitos”: “nenhuma outra saída é proposta ao ser falante a não ser curvar-se ao que lhe é imposto por esta função simbólica paterna que o assujeita numa sexuação” (6). Por esta especificação é proposto ao sujeito “um espaço de identidade sexual, que não tem, necessariamente, adequação biunívoca com a bipartição biológica dos sexos” (7).
Questiona: Sob que insígnias se alojam os pais encarnados, os pais que empiricamente são colocados em situação de se designarem pais? Responde: aparecem no máximo como diplomatas, e embaixadores comuns. O embaixador representa o seu governo junto ao estrangeiro, e o pai, “no real de sua encarnação” (8), deve representar o governo do pai simbólico, assumindo a delegação desta autoridade junto à “comunidade estrangeira mãe-filho” (9). Para realizar melhor esta missão é importante que o pai encarnado, assim como o embaixador,  fale a língua estrangeira no país onde se aloja, conheça a língua da dialética do desejo dos protagonistas perante os quais deve assumir a sua função.
Assim, “nenhum pai, na realidade, é detentor e, a fortiori, fundador da função simbólica que representa. Ele é seu vetor” (10). Instala-se, um desvio entre a paternidade e a filiação, sendo a filiação prevalente à paternidade real, já que se desenvolve num nível prioritariamente simbólico.
Sobre a qualidade do pai, sobre as suas virtudes, não é importante questionar, mas sim pensar a sua “natureza”.
É fundamental distinguir o pai simbólico, do pai real que tem uma existência concreta e histórica, do pai imaginário, entidade fantasística. A instância do Pai simbólico se refere à Lei da proibição do incesto. Mas, para que esta Lei se funde é necessário uma negociação imaginária entre os protagonistas da família, Pai-mãe-filho, reunidos pela triangulação edípica, sendo que todos se referem a um quarto elemento, o falo, que é o parâmetro fundador capaz de inferir o investimento do pai simbólico a partir do Pai real, pela via do imaginário. “O falo constitui o centro da gravidade da função paterna, que vai permitir a um Pai real chegar a assumir a sua representação simbólica”(11). O Pai precisa, num dado momento, dar provas de que é capaz de regular a circulação da economia do desejo entre a mãe e o filho.
Em termos da carência paterna, pode-se afirmar que “a função paterna conserva a sua virtude simbólica inauguralmente estruturante na própria ausência de todo Pai real”(12). A função do Pai simbólico é exterior ao Pai real, sendo a função simbólica, a pedra angular da problemática paterna na psicanálise. É estruturante porque se funda num princípio estrutural. Esta função se aplica “no quadro de uma estrutura, ou seja, o conjunto de um sistema de elementos governados por leis internas”(13).
A dimensão do Pai simbólico transcende a contingência do Pai real, “não é pois necessário que haja um homem para que haja um pai” (14). Seu estatuto é de puro referente, sendo o papel simbólico do pai sustentado pela atribuição imaginária do objeto fálico. Assim, basta que um terceiro, mediador do desejo da mãe e do filho, ocupe esta função, para que seja significada a sua incidência legalizadora e estruturante.
Esta função determina “um lugar terceiro na lógica da estrutura” (15), sendo que o estatuto do pai simbólico se refere ao significante do Nome-do-Pai, logo a não exigência da presença de um homem que se designe pai na realidade. O pai é investido de uma contextura significante, que na metáfora paterna implica a substituição do significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai. Como Lacan diz, o pai é uma metáfora, um significante que vem no lugar de outro significante.
O falo:
A metáfora Nome-do-Pai gravita em torno do objeto fálico. O objeto fálico constitui a pedra angular da problemática edipiana e da castração: “A referência ao falo não é a castração via pênis, mas referência ao pai, ou seja, a referência a uma função que mediatiza a relação da criança com a mãe e da mãe com a criança”(16).
Dor afirma que “o pai só é estruturalmente terceiro na situação edipiana porque o falo é o elemento significante que lhe é atribuído...o objeto fálico é, antes de mais nada, um objeto cuja natureza está em ser um elemento significante” (17).
Surge em Freud, como organização fálica, estádio fálico, mãe fálica. A noção de falta (“falta do pênis”), é introduzida na diferença dos sexos: “o órgão genital feminino só é diferente do órgão genital masculino porque lhe falta alguma coisa”(18). A concepção de que alguma coisa falta confere um lugar ao que falta no registro imaginário, postulando um objeto, o falo imaginário, algo faltante devia estar ali. Mas, a problemática fálica imaginária é sustentada pela dimensão simbólica, a castração permite ao imaginário a concepção da falta. O falo, enquanto objeto imaginário, entra na báscula do desejo, na questão do ser, que desemboca na resolução da metáfora paterna. Para Lacan, o falo é o significante primordial do desejo na triangulação edipiana. Então, o Complexo de Édipo: lugar do falo no desejo da mãe, da criança, e do pai, na dialética do ser e do ter.
O falo na teoria é igual a carência e falta (manque, presença de uma ausência) do “pênis”. O significante é presença de uma ausência, o falo não é representável, pertencendo à ordem das representações imaginárias, mas como falo simbólico, funciona como circulante na estrutura edípica, produzindo as suas variações na determinação de funções de seus personagens.
Em Lacan, ao se falar do falo imaginário, imagem fálica, surge o tema da completude corporal, o falo é aí o objeto imaginário com que o sujeito se identifica, marcando a perfeição, não-carência, narcisista, onipotente, da fase do espelho para a criança, como também para a mãe (falo=filho), representa o outro do seu desejo. Como significante é o entrecruzamento dos dois desejos, a possibilidade de intercâmbio e troca. 
O falo imaginário é qualquer coisa que pode completar a falta. O falo simbólico se caracteriza pela possibilidade de substituição, de circulação entre o dar e o receber: “este falo se pode ter e perder (castração), mas não se pode ser”. O falo organiza, regula a estrutura do sujeito, tanto no imaginário, como no simbólico.
Em “As Formações do Inconsciente”, sobre a expressão recente “carência paterna” Lacan diz que é o resultado de uma análise que se torna cada vez mais ambientalista, ressaltando que “nem todos os analistas incorrem nessa mania, Graças a Deus”(20). As perguntas sobre a biografia do pai, como: o pai estava presente ou não? se viajava ou não? se o Édipo pode se constituir normalmente quando há inexistência do pai? diz que são questões que não impedem a constituição do Édipo, que pode se constituir na ausência do pai real.

Notas:
1-Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
2-Ibid.p.13
3-Ibid.p.13
4-Ibid.p.13
5-Ibid.p.14
6-Ibid.p.14
7-Ibid.p.14
8-Ibid.p.14
9-Ibid. p.14
10-Ibid.p.15
11-Ibid.p.18
12-Ibid.p.18
13-Ibid.p.19
14-Ibidp.19
15-Ibid.p.19
16-Dor, J., Introdução à leitura de Lacan, Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, p.73.
17-Ibid.p.74
18-Ibid.,p.75
19-Vallejo,A.,Magalhães,L.. Lacan: operadores da leitura, São Paulo: Editora Perspectiva, 1991, p. 57.
20-Lacan, Jacques. As Formações do Inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1957-1958, p.172.

Bibliografia:
Dor, J., Introdução à leitura de Lacan, Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
Lacan, J. As Formações do Inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1957-1958.
Vallejo, A.,Magalhães,L.. Lacan: operadores da leitura, São Paulo: Editora Perspectiva, 1991.