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segunda-feira, 4 de julho de 2016

Transgeneridade e Psicanálise


                                            Transgeneridade e Psicanálise

                                                                                         Rosa Jeni Matz

O jornal informa a descoberta de uma nova espécie de humano antigo, o Homo naledi[1], que apresenta a mistura de características dos humanos modernos com hominídeos mais arcaicos. Também, a foto de um transgênero é publicada, não mais resultado de uma mistura de características do macaco e do Homem, mas uma mistura de características masculinas e femininas.
Outra notícia do jornal é a afirmação da educadora finlandesa sobre a contemporaneidade: “Pensar e resolver problemas não é mais suficiente”[2]. A Finlândia está se preparando para mudanças em seu modelo educacional, pois devido ao acesso de informações facilitado atualmente pela tecnologia, o professor não é mais “o cálice sagrado do conhecimento”. Há um foco na criatividade da criança, na responsabilidade social, no pensar diferente, e na transdisciplinaridade.
Alguns professores do Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, utilizaram “x” no lugar das vogais “a” e “o”, criando o neologismo “alunxs”[3], em vez de alunos/alunas, com o intuito de assinalar a não distinção de gêneros. Este neologismo foi utilizado em avisos de parede e cabeçalhos de provas.
Diferença sexual?
A transgeneridade é a condição onde a expressão de gênero ou identidade de gênero de uma pessoa é diferente daquelas atribuídas ao sexo biológico, e também ao gênero, designado ao sujeito no nascimento.
Falamos hoje em identidades. E por onde anda o conceito de identificação? O conceito de identificação estaria mais próximo à neurose e ao recalque, sendo resultado da Metáfora Paterna, operação de substituição do significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai. Ocorre a identificação a um traço paterno, traço unário (freudiano e lacaniano).
No momento atual nos referimos às identidades, pois em vez do Nome-do-Pai nomear, o parlêtre tem a possibilidade de fazer o seu próprio nome, se nomear. Através de estudos sobre James Joyce e os nós borromeanos, Lacan se aproxima de nossa época, cuja questão é “fazer-se um nome”, ter uma identidade singular.
O transgênero aponta para esta identidade de “fazer-se um nome”. Não só um nome, mas um sujeito. Transforma o sintoma, antes considerado patológico, em Sinthoma, fazendo um novo nó, que pode ser um Nome-do-Pai, e daí constrói a sua vida como sujeito. Lacan no seu último ensino fala de Nomes-do-Pai: Imaginário, Simbólico, Real e Sinthoma.
Para Freud no inconsciente só há uma libido, a masculina, não existindo representação da mulher no inconsciente. Só há Um. Na psicanálise o falo é o símbolo sexual por excelência, apontando à falta e à castração. O falo se refere à falta do pênis na mulher. Se todo sujeito é efeito de uma posição masculina, que termos são esses homem e mulher em uso na cultura? Os termos caminham para o desuso.
Freud pensa o falo através da fase fálica, contemporânea ao complexo de Édipo. Em seu texto ”Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925) [4] escreve:
“A diferença entre o desenvolvimento sexual dos indivíduos dos sexos masculino e feminino no estádio que estivemos considerando, é uma consequência inteligível da distinção anatômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí envolvida; corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que foi simplesmente ameaçada”.
Freud assinala a presença da percepção visual na discriminação dessa diferença. Em relação às meninas: “Elas notam o pênis de um irmão ou companheiro de brinquedo, notavelmente visível e de grandes proporções, e imediatamente o identificam com o correspondente superior de seu próprio órgão pequeno e imperceptível, dessa ocasião em diante caem vítimas da inveja do pênis”.
Enfatiza a ameaça da castração como fator fundamental para a dissolução deste complexo no menino, enquanto na menina a fantasia da castração já é “consumada”. Afirma que na saída do complexo de Édipo, em “casos normais, ou melhor, em casos ideais, o complexo de Édipo não existe mais, nem mesmo no inconsciente; o superego se tornou seu herdeiro”.
O pai, nos velhos tempos, representava a moral, a lei, fazendo a função de um Outro consistente. O Outro atualmente não proíbe nada, incita a gozar (Goze! Voz do supereu) e a ultrapassar limites, gozo do Outro. O que se manifesta na atualidade é o gozo, do supereu, o super-homem. Logo, o que herdamos hoje é o superego dos pais como caminho do gozo, e para o gozo, e não mais ideais.
No texto de 1924, “A dissolução do complexo de Édipo[5], Freud associa também outras duas experiências sofridas pelas crianças que “as preparam para a perda de partes altamente valorizadas do corpo” (p. 219), que são a retirada do seio materno e a exigência de soltarem os conteúdos do intestino.  Mas, só após o surgimento de uma “nova” experiência em seu caminho, que a criança avalia a possibilidade de sua castração, que ocorre principalmente através da “visão dos órgãos genitais femininos”.
Através desta afirmação de Freud sobre a “ameaça de perdas valorizadas do corpo” podemos encontrar o gancho para pensar o complexo de Édipo na atualidade. A ênfase hoje é no gozo, na perda de gozo. Os objetos a: seio, fezes, olhar e voz, representam estas partes perdidas do corpo infantil, mas que hoje se tornam zênite de gozo. A castração agenciada pelo pai real implica numa perda de gozo, do gozo incestuoso mãe-criança. A entrada do significante produz uma perda real. O que hoje acontece é o sujeito não aceitando esta perda necessária para estruturá-lo, o sujeito hoje tenta driblar esta perda de gozo. Busca tapar a falta do Outro com esta parte de gozo perdida, renegar a castração. O sujeito se iguala ao objeto. O S1 se torna a. A questão: Como posso melhor gozar?
Estamos num momento diferente do significante falo como significante do desejo do Outro. O gozo é do Um sem o Outro, solitário, autista e assexuado.
Logo, pode não implicar a sexualidade como diferença, já que o significante é o elemento diferencial último. O S1 é a marca da diferença no Outro, resultado da metáfora paterna, e identificação ao traço unário. Há apagamento do Outro, ficando o sujeito solitário frente ao objeto, mais além do Édipo.
No seminário 20, Encore (1972/3)[6], nas fórmulas da sexuação, apesar de Lacan eleger a função fálica como operador da castração, ele posiciona tanto o homem e a mulher em qualquer dos dois lados, abrindo assim o leque para diferentes identidades. O homem pode se posicionar no lado da Mulher, do gozo suplementar, ilimitado; e a mulher que é não-toda fálica pode se posicionar no lado Homem, do gozo fálico.
Père-version, as várias versões do pai. Respostas ao Um do pai. Cada sujeito vai ter a sua versão. Há vários Nomes-do-Pai. A neurose, a psicose e a perversão são posições diferentes diante da questão do Pai.
No seminário 4, A relação de objeto (1956)[7], Lacan comenta o caso da jovem homossexual de Freud, e assinala outras formas das vias perversas do desejo. Na perversão o sujeito busca esconder a falta fálica da mãe através do véu. O véu esconde que a mãe não tem o falo, mas ao mesmo tempo é onde se projeta a imagem do falo simbólico, a mãe tem o falo. No fetichismo, o fetiche é uma imagem projetada, deste falo ausente, simbólico.
Nestas vias pode ocorrer a identificação com a mulher, o sujeito se situando no lugar da mãe. No travestismo ocorre uma identificação com a mãe que tem o falo. No homossexualismo a ênfase é no seu falo, mas que deve ser buscado no outro. O homossexual se identifica com a mãe que deve ter o falo, a mãe que faz a lei para o pai. Identificação com o gozo da mãe, e não com o desejo e o amor. Várias leis?
Os lacanianos chegaram a aproximar os transexuais à psicose, devido à confusão entre o falo e o pênis, entre o significante e o órgão, reduzindo o falo ao pênis real, ao próprio órgão; e pela foraclusão da castração simbólica, buscando uma intervenção cirúrgica de fato ao nível corporal. Mas, Catherine Millot[8] traz uma proposta interessante de que assumindo uma identidade de “A Mulher” o transexual limita o gozo do Outro, colocando o significante “A Mulher” como função do Nome-do-Pai. Mas, este sujeito se coloca fora do sexo, encarna o sexo dos anjos, já que o significante da diferença sexual, o falo é desconsiderado. 
Assim, vários Nomes-do-Pai. Como diz Lacan: varité. Condensa verdade (vérité) e variável/variedade (variété), criando o neologismo “varité”, variedades da verdade. A verdade não é única, tem variedades.  
                                                                                                                                                          


[1] Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 11/09/2015
[2] Ibid., 12/09/2015
[3] Ibid., 26/09/2015

[4] Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.
[5] Ibid.
[6] Lacan. J (1972/3). Seminário 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.
[7] Lacan, J (1956/7). A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
[8] Dor, Joel. Estrutura e perversões. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1991.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A função do pai em psicanálise


A  função do pai em psicanálise

                                                         Rosa Jeni Matz

Joel Dor, em seu livro “O pai e sua função em psicanálise” (1) afirma que “a noção de pai intervém no campo conceitual da psicanálise como um operador simbólico a-histórico” (2). Mas, ao ficar fora da história, ele está “paradoxalmente inscrito no ponto de origem de toda história” (3), uma história mítica, mito necessário e universal. A noção de pai em psicanálise também não se refere “exclusivamente à existência de algum pai encarnado” (4), nada garante que a encarnação corresponda à consistência de um pai investido de legítimo poder estruturante do inconsciente. Não se trata de um ser encarnado, mas de “uma entidade essencialmente simbólica que ordena uma função” (5). Pela sua característica universal, o seu caráter é operante e estruturante, para qualquer sexo que a ele se refere. É Lei universal, é Linguagem. Sendo este pai simbólico universal, somos tocados pela sua função, que nos estrutura como “sujeitos”: “nenhuma outra saída é proposta ao ser falante a não ser curvar-se ao que lhe é imposto por esta função simbólica paterna que o assujeita numa sexuação” (6). Por esta especificação é proposto ao sujeito “um espaço de identidade sexual, que não tem, necessariamente, adequação biunívoca com a bipartição biológica dos sexos” (7).
Questiona: Sob que insígnias se alojam os pais encarnados, os pais que empiricamente são colocados em situação de se designarem pais? Responde: aparecem no máximo como diplomatas, e embaixadores comuns. O embaixador representa o seu governo junto ao estrangeiro, e o pai, “no real de sua encarnação” (8), deve representar o governo do pai simbólico, assumindo a delegação desta autoridade junto à “comunidade estrangeira mãe-filho” (9). Para realizar melhor esta missão é importante que o pai encarnado, assim como o embaixador,  fale a língua estrangeira no país onde se aloja, conheça a língua da dialética do desejo dos protagonistas perante os quais deve assumir a sua função.
Assim, “nenhum pai, na realidade, é detentor e, a fortiori, fundador da função simbólica que representa. Ele é seu vetor” (10). Instala-se, um desvio entre a paternidade e a filiação, sendo a filiação prevalente à paternidade real, já que se desenvolve num nível prioritariamente simbólico.
Sobre a qualidade do pai, sobre as suas virtudes, não é importante questionar, mas sim pensar a sua “natureza”.
É fundamental distinguir o pai simbólico, do pai real que tem uma existência concreta e histórica, do pai imaginário, entidade fantasística. A instância do Pai simbólico se refere à Lei da proibição do incesto. Mas, para que esta Lei se funde é necessário uma negociação imaginária entre os protagonistas da família, Pai-mãe-filho, reunidos pela triangulação edípica, sendo que todos se referem a um quarto elemento, o falo, que é o parâmetro fundador capaz de inferir o investimento do pai simbólico a partir do Pai real, pela via do imaginário. “O falo constitui o centro da gravidade da função paterna, que vai permitir a um Pai real chegar a assumir a sua representação simbólica”(11). O Pai precisa, num dado momento, dar provas de que é capaz de regular a circulação da economia do desejo entre a mãe e o filho.
Em termos da carência paterna, pode-se afirmar que “a função paterna conserva a sua virtude simbólica inauguralmente estruturante na própria ausência de todo Pai real”(12). A função do Pai simbólico é exterior ao Pai real, sendo a função simbólica, a pedra angular da problemática paterna na psicanálise. É estruturante porque se funda num princípio estrutural. Esta função se aplica “no quadro de uma estrutura, ou seja, o conjunto de um sistema de elementos governados por leis internas”(13).
A dimensão do Pai simbólico transcende a contingência do Pai real, “não é pois necessário que haja um homem para que haja um pai” (14). Seu estatuto é de puro referente, sendo o papel simbólico do pai sustentado pela atribuição imaginária do objeto fálico. Assim, basta que um terceiro, mediador do desejo da mãe e do filho, ocupe esta função, para que seja significada a sua incidência legalizadora e estruturante.
Esta função determina “um lugar terceiro na lógica da estrutura” (15), sendo que o estatuto do pai simbólico se refere ao significante do Nome-do-Pai, logo a não exigência da presença de um homem que se designe pai na realidade. O pai é investido de uma contextura significante, que na metáfora paterna implica a substituição do significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai. Como Lacan diz, o pai é uma metáfora, um significante que vem no lugar de outro significante.
O falo:
A metáfora Nome-do-Pai gravita em torno do objeto fálico. O objeto fálico constitui a pedra angular da problemática edipiana e da castração: “A referência ao falo não é a castração via pênis, mas referência ao pai, ou seja, a referência a uma função que mediatiza a relação da criança com a mãe e da mãe com a criança”(16).
Dor afirma que “o pai só é estruturalmente terceiro na situação edipiana porque o falo é o elemento significante que lhe é atribuído...o objeto fálico é, antes de mais nada, um objeto cuja natureza está em ser um elemento significante” (17).
Surge em Freud, como organização fálica, estádio fálico, mãe fálica. A noção de falta (“falta do pênis”), é introduzida na diferença dos sexos: “o órgão genital feminino só é diferente do órgão genital masculino porque lhe falta alguma coisa”(18). A concepção de que alguma coisa falta confere um lugar ao que falta no registro imaginário, postulando um objeto, o falo imaginário, algo faltante devia estar ali. Mas, a problemática fálica imaginária é sustentada pela dimensão simbólica, a castração permite ao imaginário a concepção da falta. O falo, enquanto objeto imaginário, entra na báscula do desejo, na questão do ser, que desemboca na resolução da metáfora paterna. Para Lacan, o falo é o significante primordial do desejo na triangulação edipiana. Então, o Complexo de Édipo: lugar do falo no desejo da mãe, da criança, e do pai, na dialética do ser e do ter.
O falo na teoria é igual a carência e falta (manque, presença de uma ausência) do “pênis”. O significante é presença de uma ausência, o falo não é representável, pertencendo à ordem das representações imaginárias, mas como falo simbólico, funciona como circulante na estrutura edípica, produzindo as suas variações na determinação de funções de seus personagens.
Em Lacan, ao se falar do falo imaginário, imagem fálica, surge o tema da completude corporal, o falo é aí o objeto imaginário com que o sujeito se identifica, marcando a perfeição, não-carência, narcisista, onipotente, da fase do espelho para a criança, como também para a mãe (falo=filho), representa o outro do seu desejo. Como significante é o entrecruzamento dos dois desejos, a possibilidade de intercâmbio e troca. 
O falo imaginário é qualquer coisa que pode completar a falta. O falo simbólico se caracteriza pela possibilidade de substituição, de circulação entre o dar e o receber: “este falo se pode ter e perder (castração), mas não se pode ser”. O falo organiza, regula a estrutura do sujeito, tanto no imaginário, como no simbólico.
Em “As Formações do Inconsciente”, sobre a expressão recente “carência paterna” Lacan diz que é o resultado de uma análise que se torna cada vez mais ambientalista, ressaltando que “nem todos os analistas incorrem nessa mania, Graças a Deus”(20). As perguntas sobre a biografia do pai, como: o pai estava presente ou não? se viajava ou não? se o Édipo pode se constituir normalmente quando há inexistência do pai? diz que são questões que não impedem a constituição do Édipo, que pode se constituir na ausência do pai real.

Notas:
1-Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
2-Ibid.p.13
3-Ibid.p.13
4-Ibid.p.13
5-Ibid.p.14
6-Ibid.p.14
7-Ibid.p.14
8-Ibid.p.14
9-Ibid. p.14
10-Ibid.p.15
11-Ibid.p.18
12-Ibid.p.18
13-Ibid.p.19
14-Ibidp.19
15-Ibid.p.19
16-Dor, J., Introdução à leitura de Lacan, Porto Alegre: Artes Médicas, 1989, p.73.
17-Ibid.p.74
18-Ibid.,p.75
19-Vallejo,A.,Magalhães,L.. Lacan: operadores da leitura, São Paulo: Editora Perspectiva, 1991, p. 57.
20-Lacan, Jacques. As Formações do Inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1957-1958, p.172.

Bibliografia:
Dor, J., Introdução à leitura de Lacan, Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
Dor, J., O pai e sua função em psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
Lacan, J. As Formações do Inconsciente, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1957-1958.
Vallejo, A.,Magalhães,L.. Lacan: operadores da leitura, São Paulo: Editora Perspectiva, 1991.