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sexta-feira, 3 de junho de 2022

O gozo na contemporaneidade

 

                                            O gozo na contemporaneidade

                                                                                   Rosa Jeni Matz

 

O conceito de gozo em Lacan se aproxima do conceito de gozo em Freud. Freud utiliza o significante Genuss, gozo, em sua conotação sexual. Freud afirma que o aparelho psíquico é governado por um princípio regulador, princípio do prazer, que visa o esvaziamento de tensão, homeostase, equilíbrio, e quando ocorre um excesso de energia, que é sentido pelo sujeito como desprazer, entramos na dimensão do gozo, o além do princípio do prazer (Além do princípio do prazer, 1920).

 Freud se refere ao ganho secundário da doença, que é a vantagem, o lucro, que a doença pode trazer ao sujeito. Versa sobre o ganho primário e o ganho secundário da doença. O ganho primário de uma doença poupa o indivíduo de um conflito psíquico. Já o ganho secundário é o ganho que surge quando um sujeito sofre, por exemplo, um acidente no trabalho, é penoso porque ele fica sem o trabalho, mas no momento que ele recebe a indenização pelo acidente, ele pode não querer retornar ao trabalho. Surge um ganho de gozo nesta condição. É importante frisar que o adoecimento que se traduz em ganhos primários e secundários é inconsciente, e o ganho secundário é gozo.

Freud diz que há uma tendência do psiquismo para a repetição, compulsão à repetição, que ultrapassa o princípio do prazer, que aponta à pulsão de morte. Surge o novo dualismo pulsional: pulsão de vida e pulsão de morte. O sujeito sofre uma coação de repetir experiências dolorosas, traumáticas, de desprazer, experiências recalcadas, que o sujeito não recorda, e que são repetidas como vivências atuais em sua vida. O conceito de compulsão à repetição traz o além do princípio do prazer, como tentativa de assimilar o traumático, aproximando a pulsão de morte à inércia, estado anterior do ser vivo. A pulsão de morte surge em estados de gozo do sujeito quando ele ultrapassa a barreira do prazer, o limite, a lei, indo de encontro à morte. O princípio do prazer é limite ao gozo.

Em Lacan o conceito de gozo é fundamental. Apresenta o gozo como fora da linguagem, não tem representação. O aforismo lacaniano “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” apresenta o Outro como um lugar, onde a cadeia significante desliza, e no intervalo se situa o desejo. Mas, nem tudo é linguagem, nem tudo são palavras, no ser humano, há gozo. O lugar do gozo é no corpo.

No seminário A ética da psicanálise (1960), o conceito de gozo é importado do campo jurídico, jouissance (usufruto), que é um direito dado a uma pessoa de gozar ou fruir de um bem cuja propriedade pertence a outrem. Diferente do desejo, que aponta para o próprio. Neste livro Lacan traz o das Ding, a Coisa, de Freud, como estatuto do gozo inicial, de uma fusão inicial bebê-mãe, que equivale ao desejo incestuoso, sem limite. O gozo estaria do lado da Coisa.

O desejo é desejo do Outro, sendo o Outro lugar do significante. O desejo se articula com a lei, Nome-do-Pai, lei primordial da interdição do incesto. O desejo, submetido à lei, é defesa do sujeito em sua relação com o gozo. O gozo é uma transgressão da lei.

O gozo permanece nesse campo central da Coisa, cujo o acesso é impossível ao sujeito, pois abole o sujeito. A lei barra o gozo, que só pode ser dito entre linhas (inter-dito) pelo sujeito dividido entre o desejo que vem do Outro e o gozo que está na Coisa.

 No Seminário 20, Mais ainda (1973), Lacan apresenta tentativas de cifrar o gozo, em diferentes modalidades, como também as fórmulas da sexuação.

Tipos de gozo:                             

Gozo do Outro – lugar de proibida entrada porque falamos. Seria a satisfação absoluta do desejo. Gozo mítico, ligado à Coisa, não simbolizado. Busca de um gozo completo, pleno, de fazer Um com o outro. Santa Teresa D’Avila expressa o êxtase na escultura de Bernini, gozo dos místicos.

Gozo fálico – gozo parcial, que o sujeito se contenta parcialmente. O falo fazendo barreira ao gozo do Outro. Representa a perda de gozo devido à castração.

 Mais-de-gozar - equivale a mais-valia de Marx. Faz borda para uma falta. É o excesso de gozo como recuperação de uma perda. No processo de constituição do sujeito existe uma renúncia ao gozo do corpo, implicada na divisão do sujeito, sendo o objeto a resto deste sujeito barrado. O objeto a é captura de gozo.

Gozo da fala (jouis-sense) – gozo do sentido, ao falar, ao produzir sentido o sujeito goza. Também j’ouis sense (eu ouço sentido).

O outro gozo, gozo feminino, suplementar – gozo além do falo, gozo a mais, suplementar.

Como pensar o gozo na contemporaneidade? Podemos nos aproximar do momento atual como um estado de gozo. Gozo do imediato, pela velocidade, não permitindo a entrada do mediato, que seria o terceiro, que colocaria um limite na relação do sujeito com o outro. Ocorre a falência do Nome-do-Pai, da lei, da castração, operação necessária para barrar o sujeito, descompletá-lo, gerando a falta, para dar lugar ao desejo. O sujeito é falta-a-ser, não é completo, desejo é movimento, desejo de outra coisa. Hoje o gozo tapa a falta.

O Outro da linguagem, dimensão do simbólico, se desvanece, ocorrendo um gozo autístico, onde o Outro é excluído.

Atualmente os sujeitos usufruem de seus corpos, muitas vezes, sem limites. O discurso capitalista busca reproduzir um estado irrecuperável de completude. O laço social, relação entre os sujeitos, se sustenta do discurso, apresentando os modos de gozo de uma época, de uma cultura determinada. A cultura regula o gozo, como Freud já dizia no seu artigo o Mal-estar na Cultura (1930), fazendo com que o sujeito possa habitar com limites em sua época.

Mas, neste momento assistimos a queda dos ideais, que se apresenta pela falência do Pai, que se reflete no imaginário, inclusive na educação. Professores e pais não ocupam mais o lugar de autoridade. O autoritarismo, a tirania, substitui a autoridade, como o pai da horda, em Totem e Tabu (1913) de Freud, que é o pai autoritário que gozava das mulheres e dos filhos.

A falta que aponta para o desejo, hoje, é preenchida por objetos de consumo, como celulares, tablets, alimentos, drogas, etc. O sujeito não suporta a falta tão essencial para a estruturação da subjetividade. A cultura utilitária pós-moderna baseia-se na compulsão ao consumo, na busca em excesso do ter para camuflar a falta-a-ser. Uma sociedade narcisista, voltada para o espetáculo, onde a fronteira entre o público e o privado desaparece. Somos olhados o tempo todo, e objeto olhar ganha lugar de zênite, de apogeu, de gozo nas imagens oferecidas pela mídia.

Podemos observar o aumento de casos de anorexia e bulimia na atualidade. O modelo imaginário do corpo ideal, como supereu mundial, dita as normas do gozo do corpo perfeito. A anoréxica reage à demanda de se deixar alimentar através da recusa da demanda, já que não é signo de amor. Ela luta pelo seu desejo, querendo também furar o Outro do desejo. A bulímica goza em sua fome de boi, mas vomita para abrir espaço do desejo. Duas faces de desejo e gozo. O gozo da anoréxica pode conduzi-la à morte. Impulsões que apontam para a clínica do real, onde o gozo está localizado no corpo.

Nós, psicanalistas precisamos pensar a nossa época, onde o corpo, sede do gozo, devido à queda do simbólico, está capturado pelo Gozo do Outro, se tornando cada vez mais um espetáculo!

 

Nota:

Sobre os tipos de gozo: Maria Cristina Ocariz, O sintoma e a clínica psicanalítica, SP: Via Lettera Ed, 2003.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Transgeneridade e Psicanálise


                                            Transgeneridade e Psicanálise

                                                                                         Rosa Jeni Matz

O jornal informa a descoberta de uma nova espécie de humano antigo, o Homo naledi[1], que apresenta a mistura de características dos humanos modernos com hominídeos mais arcaicos. Também, a foto de um transgênero é publicada, não mais resultado de uma mistura de características do macaco e do Homem, mas uma mistura de características masculinas e femininas.
Outra notícia do jornal é a afirmação da educadora finlandesa sobre a contemporaneidade: “Pensar e resolver problemas não é mais suficiente”[2]. A Finlândia está se preparando para mudanças em seu modelo educacional, pois devido ao acesso de informações facilitado atualmente pela tecnologia, o professor não é mais “o cálice sagrado do conhecimento”. Há um foco na criatividade da criança, na responsabilidade social, no pensar diferente, e na transdisciplinaridade.
Alguns professores do Colégio Pedro II, Rio de Janeiro, utilizaram “x” no lugar das vogais “a” e “o”, criando o neologismo “alunxs”[3], em vez de alunos/alunas, com o intuito de assinalar a não distinção de gêneros. Este neologismo foi utilizado em avisos de parede e cabeçalhos de provas.
Diferença sexual?
A transgeneridade é a condição onde a expressão de gênero ou identidade de gênero de uma pessoa é diferente daquelas atribuídas ao sexo biológico, e também ao gênero, designado ao sujeito no nascimento.
Falamos hoje em identidades. E por onde anda o conceito de identificação? O conceito de identificação estaria mais próximo à neurose e ao recalque, sendo resultado da Metáfora Paterna, operação de substituição do significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai. Ocorre a identificação a um traço paterno, traço unário (freudiano e lacaniano).
No momento atual nos referimos às identidades, pois em vez do Nome-do-Pai nomear, o parlêtre tem a possibilidade de fazer o seu próprio nome, se nomear. Através de estudos sobre James Joyce e os nós borromeanos, Lacan se aproxima de nossa época, cuja questão é “fazer-se um nome”, ter uma identidade singular.
O transgênero aponta para esta identidade de “fazer-se um nome”. Não só um nome, mas um sujeito. Transforma o sintoma, antes considerado patológico, em Sinthoma, fazendo um novo nó, que pode ser um Nome-do-Pai, e daí constrói a sua vida como sujeito. Lacan no seu último ensino fala de Nomes-do-Pai: Imaginário, Simbólico, Real e Sinthoma.
Para Freud no inconsciente só há uma libido, a masculina, não existindo representação da mulher no inconsciente. Só há Um. Na psicanálise o falo é o símbolo sexual por excelência, apontando à falta e à castração. O falo se refere à falta do pênis na mulher. Se todo sujeito é efeito de uma posição masculina, que termos são esses homem e mulher em uso na cultura? Os termos caminham para o desuso.
Freud pensa o falo através da fase fálica, contemporânea ao complexo de Édipo. Em seu texto ”Algumas consequências psíquicas da distinção anatômica entre os sexos” (1925) [4] escreve:
“A diferença entre o desenvolvimento sexual dos indivíduos dos sexos masculino e feminino no estádio que estivemos considerando, é uma consequência inteligível da distinção anatômica entre seus órgãos genitais e da situação psíquica aí envolvida; corresponde à diferença entre uma castração que foi executada e outra que foi simplesmente ameaçada”.
Freud assinala a presença da percepção visual na discriminação dessa diferença. Em relação às meninas: “Elas notam o pênis de um irmão ou companheiro de brinquedo, notavelmente visível e de grandes proporções, e imediatamente o identificam com o correspondente superior de seu próprio órgão pequeno e imperceptível, dessa ocasião em diante caem vítimas da inveja do pênis”.
Enfatiza a ameaça da castração como fator fundamental para a dissolução deste complexo no menino, enquanto na menina a fantasia da castração já é “consumada”. Afirma que na saída do complexo de Édipo, em “casos normais, ou melhor, em casos ideais, o complexo de Édipo não existe mais, nem mesmo no inconsciente; o superego se tornou seu herdeiro”.
O pai, nos velhos tempos, representava a moral, a lei, fazendo a função de um Outro consistente. O Outro atualmente não proíbe nada, incita a gozar (Goze! Voz do supereu) e a ultrapassar limites, gozo do Outro. O que se manifesta na atualidade é o gozo, do supereu, o super-homem. Logo, o que herdamos hoje é o superego dos pais como caminho do gozo, e para o gozo, e não mais ideais.
No texto de 1924, “A dissolução do complexo de Édipo[5], Freud associa também outras duas experiências sofridas pelas crianças que “as preparam para a perda de partes altamente valorizadas do corpo” (p. 219), que são a retirada do seio materno e a exigência de soltarem os conteúdos do intestino.  Mas, só após o surgimento de uma “nova” experiência em seu caminho, que a criança avalia a possibilidade de sua castração, que ocorre principalmente através da “visão dos órgãos genitais femininos”.
Através desta afirmação de Freud sobre a “ameaça de perdas valorizadas do corpo” podemos encontrar o gancho para pensar o complexo de Édipo na atualidade. A ênfase hoje é no gozo, na perda de gozo. Os objetos a: seio, fezes, olhar e voz, representam estas partes perdidas do corpo infantil, mas que hoje se tornam zênite de gozo. A castração agenciada pelo pai real implica numa perda de gozo, do gozo incestuoso mãe-criança. A entrada do significante produz uma perda real. O que hoje acontece é o sujeito não aceitando esta perda necessária para estruturá-lo, o sujeito hoje tenta driblar esta perda de gozo. Busca tapar a falta do Outro com esta parte de gozo perdida, renegar a castração. O sujeito se iguala ao objeto. O S1 se torna a. A questão: Como posso melhor gozar?
Estamos num momento diferente do significante falo como significante do desejo do Outro. O gozo é do Um sem o Outro, solitário, autista e assexuado.
Logo, pode não implicar a sexualidade como diferença, já que o significante é o elemento diferencial último. O S1 é a marca da diferença no Outro, resultado da metáfora paterna, e identificação ao traço unário. Há apagamento do Outro, ficando o sujeito solitário frente ao objeto, mais além do Édipo.
No seminário 20, Encore (1972/3)[6], nas fórmulas da sexuação, apesar de Lacan eleger a função fálica como operador da castração, ele posiciona tanto o homem e a mulher em qualquer dos dois lados, abrindo assim o leque para diferentes identidades. O homem pode se posicionar no lado da Mulher, do gozo suplementar, ilimitado; e a mulher que é não-toda fálica pode se posicionar no lado Homem, do gozo fálico.
Père-version, as várias versões do pai. Respostas ao Um do pai. Cada sujeito vai ter a sua versão. Há vários Nomes-do-Pai. A neurose, a psicose e a perversão são posições diferentes diante da questão do Pai.
No seminário 4, A relação de objeto (1956)[7], Lacan comenta o caso da jovem homossexual de Freud, e assinala outras formas das vias perversas do desejo. Na perversão o sujeito busca esconder a falta fálica da mãe através do véu. O véu esconde que a mãe não tem o falo, mas ao mesmo tempo é onde se projeta a imagem do falo simbólico, a mãe tem o falo. No fetichismo, o fetiche é uma imagem projetada, deste falo ausente, simbólico.
Nestas vias pode ocorrer a identificação com a mulher, o sujeito se situando no lugar da mãe. No travestismo ocorre uma identificação com a mãe que tem o falo. No homossexualismo a ênfase é no seu falo, mas que deve ser buscado no outro. O homossexual se identifica com a mãe que deve ter o falo, a mãe que faz a lei para o pai. Identificação com o gozo da mãe, e não com o desejo e o amor. Várias leis?
Os lacanianos chegaram a aproximar os transexuais à psicose, devido à confusão entre o falo e o pênis, entre o significante e o órgão, reduzindo o falo ao pênis real, ao próprio órgão; e pela foraclusão da castração simbólica, buscando uma intervenção cirúrgica de fato ao nível corporal. Mas, Catherine Millot[8] traz uma proposta interessante de que assumindo uma identidade de “A Mulher” o transexual limita o gozo do Outro, colocando o significante “A Mulher” como função do Nome-do-Pai. Mas, este sujeito se coloca fora do sexo, encarna o sexo dos anjos, já que o significante da diferença sexual, o falo é desconsiderado. 
Assim, vários Nomes-do-Pai. Como diz Lacan: varité. Condensa verdade (vérité) e variável/variedade (variété), criando o neologismo “varité”, variedades da verdade. A verdade não é única, tem variedades.  
                                                                                                                                                          


[1] Jornal O Globo, Rio de Janeiro, 11/09/2015
[2] Ibid., 12/09/2015
[3] Ibid., 26/09/2015

[4] Freud, S. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.
[5] Ibid.
[6] Lacan. J (1972/3). Seminário 20: Mais, ainda. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1993.
[7] Lacan, J (1956/7). A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
[8] Dor, Joel. Estrutura e perversões. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1991.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A criança como sintoma dos pais


                     A criança como sintoma dos pais.                     
                                                                                          Rosa Jeni Matz

Lacan em Nota sobre a criança (1969), escrita à Dra. Jenny Aubry, publicado nos Outros Escritos, afirma que “o sintoma da criança acha-se em condição de responder ao que existe de sintomático na estrutura familiar”[1]. O sintoma infantil pode representar a verdade do casal parental. Verdade da mãe em relação à sua falta, ao seu desejo, e verdade do pai como vetor da encarnação da lei no desejo.
O sintoma como efeito da subjetividade materna torna a criança correlata de uma fantasia, que é um enquadre da realidade, onde vai responder à falta na mãe, desviando a mãe de sua verdade própria, e muitas vezes a protegendo. O sintoma do filho tem como fim ocultar uma verdade ameaçadora. Não ocorrendo mediação da função paterna, a criança fica exposta às capturas fantasísticas, imaginárias, tornando-se objeto da mãe, e revelando a verdade deste objeto. A criança ocupa o lugar do objeto a na fantasia.

Fórmula da fantasia
$ ◊ a

A fantasia é fundamental porque articula o sujeito ($) ao objeto (a), objeto causa de desejo, sempre perdido, que escapa, mas que pode ser acionado como tampa da falta, gerando gozo. A fantasia sustenta o desejo.


Guillaume, a criança como objeto de gozo materno

Filme: Les garçons, et Guillaume, à la table (2013), direção de Guilhaume Gallienne.
Título em português: Eu, Mamãe e os Meninos.
“A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Les garçons, et Guillaume, à la table”  (“Meninos e Guillaume, à mesa!”).
Esta “sentença” de sua mãe traça o seu destino, caminho que Guillaume percorre, narrando a sua história.
Guillaume é o desejo do desejo do Outro (Mãe): uma menina. Encarna o desejo da mãe, uma menina. Mais tarde, na vida adulta, busca desvendar o enigma da sua sexualidade, até então enganado por uma suposta homossexualidade, através de encontros confusos e cômicos com homens. Mas, num jantar de uma amiga, uma mulher desperta o seu desejo. Neste momento, neste mesmo jantar, surge a enunciação que o reconhece e o coloca como sujeito em sua vida: “Les filles, Guillaume, à la table” (“As meninas, Guillaume, à mesa”); surpreendendo-o, colocando-o na posição de homem, trazendo assim o significante da diferença sexual, modificando uma alienação a que estava assujeitado.

Em Alocução sobre as psicoses da criança[2], 1968, Lacan afirma: “Toda formação humana tem por essência, e não por acaso, de refrear o gozo”, sendo “o princípio do prazer o freio do gozo”[3]. A mãe de Guillaume, ao tamponar a sua falta pelo filho, torna-o objeto de seu gozo.
Lacan discordou de alguns pós-freudianos que desconheciam a ação do significante na constituição do sujeito na relação dual mãe-criança, e também pelo não estabelecimento do enquadre da fantasia que conjuga sujeito, desejo e gozo. Diz que eles criaram uma fantasia postiça sobre a harmonia instalada no habitat materno.
Lacan formula a expressão “criança generalizada”, lançando uma questão ética, chamando a atenção para o declínio do pai em nossa cultura. Destaca a tendência a objetalização do sujeito, resultando então em irresponsabilidade quanto ao modo de gozo de cada um. A responsabilidade do sujeito adulto fica tomada pelo zênite do gozo (“todos somos crianças”). Assinala que o sintoma somático da criança desvela a não mediação paterna na relação mãe-criança, encarnando a verdade do Outro, sendo um recurso inesgotável para o encobrimento do sintoma parental, e garantindo o desconhecimento da verdade materna ao proteger a mãe.
A criança se torna um objeto familiar, impossibilitada de expressar o seu lugar de sujeito na família, colocando no corpo o gozo excessivo, devido à impossibilidade da cifra da linguagem. Conforme a sua posição nas estruturas: neurótica, perversa e psicótica, a criança pode saturar, ocupar o lugar deste objeto, substituindo a falta específica do desejo da mãe, podendo atestar a culpa (neurose), servindo de fetiche (perversão), ou encarnando a recusa primordial (psicose). O sintoma somático da criança pode ser o representante da culpabilidade inesgotável de seus pais. A criança colocada como fetiche dos pais encobre a castração, renegando a falta, sendo objeto da perversão parental. E, a criança, na psicose, pode ser objeto da rejeição dos pais, não ter sido desejada pela mãe, havendo recusa de seu nascimento.  
É preciso estar atento na clínica com crianças para a seguinte posição ética no dizer de Lacan: “se opor a que seja o corpo da criança que corresponda ao objeto a[4]. Que o corpo real da criança não sirva como objeto do Outro, a criança não pode ser capturada pelos caprichos maternos, como refém da mãe, assim apagando a sua posição de sujeito desejante. O analista de crianças se opõe ao gozo parental. Qualquer criança, no início de sua vida, é colocada no lugar de objeto materno, um objeto que pode ser precioso, mas que também pode ser lixo do Outro. O importante é a possibilidade do movimento advir: partindo inicialmente de objeto, assujeitado, para a posição de sujeito, onde tanto o desejo da criança como o desejo da mãe possam surgir.
O processo de subjetivação, o advento do sujeito, acontece em dois momentos. O primeiro momento é o da alienação, movimento simbólico que introduz a linguagem para a criança. Depois, num segundo momento, ocorre o mecanismo da separação, onde a criança percebe que ela não cobre totalmente a falta da mãe, e a mãe também aponta o seu desejo para outras direções diferentes da criança, mostrando a sua falta. O perigo está quando a criança fica fixada à posição de objeto materno, na alienação, não ocorrendo a possibilidade do mecanismo de separação. O fundamental é a castração materna, é esta mãe ser um ser para o sexo, cortada pelo significante Nome-do-Pai.

Lacan, ao comentar o objeto transicional de Winnicott  diz que o importante “não é que o objeto transicional preserve a autonomia da criança, mas que a criança sirva ou não de objeto transicional para a mãe”[5]. A estrutura deste objeto é “a de um condensador para o gozo na medida em que, pela regulação do prazer, ele é despojado do corpo”[6]. O “objeto transicional” da criança, como o paninho ou o ursinho, não é o representante nem da criança, nem da mãe, nem da ausência física da mãe, mas representa o significante da falta da mãe (Seminário 4: A relação de objeto), representa o objeto materno. Assim, o falo imaginário da mãe não fica colocado no corpo da criança, seu desejo não se realiza no corpo de seu filho, o que seria extremamente perigoso. O desejo materno permite que a criança possa investir nesse outro objeto. É importante que a criança também seja transicional para a mãe, que apesar de ter sido proveniente do corpo da mãe possa se tornar separada desta. 
Vivemos num momento de novas famílias. Novos arranjos acontecem, embora a família se mantém. O que mudam são os que ocupam estes lugares. Os lugares parentais podem ser ocupados por casais heterossexuais, como também por casais homossexuais como a homopaternidade e a homomaternidade. A questão da criança como sintoma dos pais, desenvolvida por Lacan no final da década de 1960, ainda vigora em nossa cultura atual, também nestas novas famílias, pois o que ele denuncia é o perigo do corpo da criança ser tomado como objeto do gozo do Outro. O importante é a sustentação da falta do objeto, isto é, permitir que o desejo singular de cada membro familiar esteja vivo. Esta é uma questão fundamentalmente ética na clínica psicanalítica de crianças, e nós psicanalistas, temos como tarefa frear o gozo parental e desvelar a verdade do desejo singular, tanto da criança como de seus “pais”, pois o desejo é o melhor remédio contra o gozo.

Maud Mannoni busca no mito familiar a causa, a origem, do sofrimento da criança. Para ela o fundamental é como a criança foi gerada, recebida pelos seus pais e conduzida para a costura de suas pulsões. Antes da criança chegar ao mundo familiar as bases edípicas já estão colocadas. O mito familiar aparece através de “certo feixe de palavras”, discurso que a criança recebe dos pais. Este feixe de palavras alimenta uma repetição sintomática, daí a tese de Mannoni sobre a importância do tratamento psicanalítico dos pais. O problema é os pais, sendo a criança apenas efeito. Durval Checchinato em seu livro Psicanálise de pais: crianças, sintomas dos pais enfatiza a análise dos pais da criança-sintoma, pois a criança responde e está alienada à demanda e desejo do Outro: “Como o filho pode querer desejar se o desejo dos pais, ou de um deles, é tão imperativo, abafador?”[7]
Mannoni, ao se referir à psicose, assinala a emissão de uma palavra mortífera que a criança se defrontou no início de sua vida, que lançou uma maldição sobre a criança. A criança se torna refém dessa palavra de seus pais, impedindo que o seu desejo surja. Assim, a análise dos pais consiste em detectar esta palavra mortífera, significante que aprisiona a criança. Ao se desembaraçar a palavra mortífera dos pais o núcleo patogênico da criança se dissipará, havendo um movimento contrário a impressão da “marca ao nível do corpo”, tendo acesso tanto a criança como os pais ao simbólico. Ocorre aí uma operação de castração, libertando o sujeito ao seu desejo próprio. 
Mannoni enfatiza a importância da análise dos pais devido ao efeito que é a criança como depositário das palavras dos pais, que aprisionam a criança em seu discurso. Por mais que se trate a criança, ela está inserida em seu contexto familiar, e se o feixe das palavras parentais não forem decifradas retornarão constantemente nos sintomas infantis. Ao descobrir o significante devastador do desejo parental, ou de um dos pais, o sintoma da criança se desfaz. 
Questão: Como praticar uma análise de criança sem a análise parental?
Não nos referimos ao acompanhamento dos pais, mas a análise dos pais.
A análise dos pais se torna fundamental e indispensável para o processo de decifração do sintoma infantil.


Bibliografia:
Checchinato, Durval. Psicanálise de pais: crianças, sintomas dos pais. R J: Cia de Freud, 2007.
Lacan, J. A relação de objeto (Seminário 4). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
Lacan, J. Alocução sobre as psicoses da criança. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003.
Lacan, J. Nota sobre a criança. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003.
Filme: Les garçons, et Guillaume, à la table (2013), direção de Guilhaume Gallienne, França/Bélgica, 2013.

Notas

[1] Lacan, J. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003, p.369.
[2] Lacan, J. Outros Escritos. R J: Jorge Zahar Ed., 2003, p.359. 
[3] Ibid., p.362.
[4] Ibid., p.366.
[5] Ibid., p.366.
[6] Ibid., p.368.
[7] Checchinato, Durval. Psicanálise de pais: crianças, sintomas dos pais. R J: Cia de Freud, 2007, p.119.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Cadeia significante e outros conceitos

Cadeia significante: o significante é um elemento diferencial último. Enquanto para Saussure o signo é composto por uma unidade de significante e significado, Lacan rompe essa unidade, ligando os significantes uns com os outros. O lugar do significante é sua relação com outros significantes, vinculados numa cadeia significante.
As leis que determinam a combinatória de significantes são as leis da linguagem, através dos processos metafóricos e metonímicos, apresentados por Jakobson. Lacan aproxima os conceitos freudianos de condensação à metáfora e o de deslocamento à metonímia.

A metáfora é constituída por uma substituição significante, acarretando um efeito inesperado de sentido.
Metáfora Paterna: É a simbolização primordial da Lei, efetuada na substituição do significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai. O advento do sujeito implica uma operação inaugural de linguagem, esforço simbólico, onde a criança renuncia ao objeto fálico; sendo que o significante do desejo da mãe é recalcado.
A metonímia alude à relação de contigüidade: barco, vela... De palavra a palavra...
O desejo é a metonímia de uma falta. O objeto perdido insiste em deslizar na cadeia significante, e este deslizamento metonímico vai se constituindo nos intervalos do deslocamento de um significante a outro enganando a censura.

Outro (Autre) é um lugar, onde se organizam elementos significantes que articulam o inconsciente, marcando a determinação simbólica do sujeito (ordem simbólica).
Lacan afirma que o pai é no Outro, o significante que representa o lugar da cadeia significante como Lei.
O outro se refere ao semelhante, ao próximo (a mãe), da relação especular no imaginário.

Em Freud: a realidade divide-se em uma realidade psíquica e uma realidade material/externa, sendo a primeira mais determinante que a segunda. A realidade psíquica é constituída por fantasias e desejos.
Em Lacan pela fórmula da fantasia podemos nos aproximar da realidade de um sujeito. 
Real – escapa à simbolização, fora do sentido (non-sense).

Objeto a
    – objeto perdido devido à divisão do sujeito. Objeto causa do desejo que engendra a “eternização” do desejo pelo deslocamento de um significante a outro significante.
- objeto parcial da pulsão (seio, fezes, olhar e voz), substituindo o objeto da falta.
 - resto caído da concatenação significante
       - gozo, mais-valia é mais-de-gozar para o Outro.


Referências bibliográficas:
Matz, R. O conceito de Identificação em Jacques Lacan (blog Jardim Lacaniano) 
Vallejo e Magalhães. Lacan: operadores de leitura. SP: Perspectiva, 1991

                                                                  

                                                                    

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Reflexões sobre dinheiro e psicanálise.

Reflexões sobre dinheiro e psicanálise.
Comentários a partir de Freud e do texto “Capital e libido” de Antonio Quinet.

                                                                                               Rosa Jeni Matz

Aproximei o tema “dinheiro e psicanálise” aos 2 registros lacanianos: Simbólico e Real, detendo-me no registro do Real, pois é onde se encontra a questão do dinheiro, da libido como gozo, e a psicanálise na contemporaneidade.
Para Freud na Metapsicologia a libido é energia, grandeza quantitativa das pulsões.
Quinet parte do conceito de pulsão, constituída pelo significante (representante da representação) e libido. O significante é cifrado no inconsciente, sendo que a libido, parte quantitativa da pulsão, não tem representação no inconsciente. O dinheiro se situa com um pé no ciframento/deciframento (cifra/representação) e outro pé na energia quantificável (libido/satisfação). A pulsão situada como conceito limítrofe entre o somático (Real) e o psíquico (Simbólico).
Millet em seu livro Silet afirma que Lacan fez três reescrituras do conceito freudiano de libido em sua obra. No primeiro momento situou a libido no registro do Imaginário em relação ao narcisismo. No segundo momento fez da libido desejo no registro do Simbólico, conduzindo a equivalência entre desejo e deslizamento metonímico. Na terceira reescritura Lacan dá conta da libido no registro do Real como gozo indo contra o princípio do prazer.
A entrada do sujeito na cultura insere o dinheiro como Simbólico, fazendo-o existir em função da linguagem, como troca de objetos marcados pela simbolização Em Freud o dinheiro faz parte da série de equivalências simbólicas formada pelos objetos marcados pela castração: seio, pênis, excremento, dinheiro, criança, presente, etc.
O dinheiro vinculado ao desejo aponta para a falta, falta a ser, deslizando pelos intervalos da cadeia significante, como metonímia da falta.
Freud em seu trabalho “O início do tratamento” diz que poderosos fatores sexuais acham-se envolvidos no valor dado ao dinheiro pelo analisante. O fator sexual é da ordem da pulsão. Podemos pensar que sendo o sujeito singular, cada um lida com a questão do dinheiro num modo próprio. Freud relacionou dinheiro e fase anal, e Lacan à demanda do Outro, onde a mãe demanda ao filho suas fezes, este podendo reter ou ofertar, ambos num processo de demanda incondicional de amor. O objeto a, as fezes, é um objeto cedível.
Para Quinet o gozo é o conceito que Lacan propõe para abranger os conceitos freudianos de libido e satisfação, e o dinheiro no registro do Real aponta a libido como gozo.
O dinheiro na análise se encontra em conjunção entre os significantes da pulsão recalcados e cifrados no inconsciente, e a energia quantificável denominada por Freud de libido. Logo, o dinheiro com um pé no Simbólico e outro no Real.
Os significantes podem equivaler à própria cifra no inconsciente, e o “cifrão” representa o montante das operações libidinais.
O sintoma que pode ser decifrado é da ordem da linguagem, sendo que a libido é o que se satisfaz no sintoma, resistindo ao deciframento e dificultando o abandono do sintoma pelo sujeito.
Quinet questiona: se o sintoma é um cômodo investimento do sujeito por que ele busca a análise?
Pode-se pensar a constituição da demanda para a análise em 3 tempos:
Primeiro tempo: o preço que o sujeito paga pelo seu sintoma é caro, bem elevado! Quando a formação de compromisso do sintoma se rompe, o benefício secundário se desfaz, e o Real surge, superando a satisfação produzida pelo sintoma. O sujeito pode buscar a análise, ou não, pode buscar outros meios para compensar o desequilíbrio, como uma viagem, compras etc.
Segundo tempo: o sujeito quer decifrar o seu sintoma, quer saber de seu sintoma. Há uma questão no seu sintoma que precisa ser decifrada, procurando decifrar a sua posição de assujeitamento ao desejo do Outro que é a alienação. A alienação é o primeiro momento no processo de constituição da subjetividade, sendo que o segundo momento é o da separação.
Situa o sujeito no início da análise nos 3 registros do campo lacaniano:
No Imaginário: amor de transferência – a reciprocidade de amar e ser amado, o analisante “ama” e se sente considerado pelo analista em seu sofrimento.
No Simbólico: é a entrada do sujeito na cadeia significante pela associação livre, o analista sendo o Outro para onde o sujeito endereça, envia seus significantes.
No Real: remanejamento da libido como transferência do gozo, transferência do preço pago com o sintoma para os custos (preço) da análise, esvaziamento do bolso através de privações, sacrifícios etc. O sujeito fabrica um objeto que se chama analista, que se paga para desfrutar. O analista “se vende” como objeto que é de início contabilizado: tanto por sessão. O analista é um objeto investido libidinalmente que se amoeda com o dinheiro. É um objeto de “aluguel”, não podendo permitir a economia, que é economia de gozo que se representa pelo dinheiro, e que se expressa pela retenção, que infringe a regra da associação livre, que é contra qualquer retenção. O gozo do dinheiro é a libidinização do capital no ser falante.
“Só há uma maneira de fazer análise: investindo tudo”.
 Para Quinet a despesa de dinheiro acompanha a despesa de libido que é um esvaziamento de gozo, hemorragia inicial de gozo do sintoma simultaneamente à transferência para o analista. A transferência em análise é de significante e de capital da libido, gozo. 
O analista ao cobrar, o preço da sessão, transforma a ordem do destino em objeto de troca. Trata o Real pelo Simbólico. Na análise o sujeito presta conta de seus “crimes”, de sua “verdade”, e paga com dinheiro, movimentando a dívida simbólica, dívida que o sujeito paga pela entrada no simbólico renunciando ao gozo.
O preço cobrado tem como função amortecer algo de infinitamente mais perigoso do que pagar em dinheiro, que consiste em dever algo a alguém.
Diz que o analista não está na análise por amor, por sacrifício ou por ideal, ou para gozar das histórias dos analisantes. Para além do amor de transferência está o cerne do amor: a questão “o que sou como objeto para Outro?”, onde o analista é colocado no lugar do Outro que pode gozar do sujeito ao torná-lo objeto. Fazer o analisante pagar é o analista mostrar que não se interessa pelo analisante como objeto, e sim como sujeito, e que pode adquirir outros objetos com o dinheiro pago pelo analisante.
O dinheiro é o significante mais aniquilador de significação, contrabalança a responsabilidade do analista que recebe os segredos do analisante. O dinheiro, como significante, esvazia os sentidos imaginários.
O analista é depositário das palavras, letras, “cartas” do analisante, e é constituído como um cofre precioso, a agalma de Sócrates, que contém males e bens do analisante. Mas, o analista também paga nos 3 registros:
No Simbólico através da interpretação. No Imaginário com a sua pessoa, apagando o seu eu. No Real, como o seu ser, no faz de conta de ser o objeto a, anulando-se como sujeito.
Quinet desenvolve a questão do dar: o analisante através do amor de transferência demanda amor. Demanda que precisa ser recusada para que surja o desejo que desliza nos intervalos da cadeia significante. Lacan afirma que amar é dar o que não se tem. Dar nada? Não, na questão do dinheiro o analista faz o analisante pagar bem. O analista como o Outro do amor para quem o analisante endereça a sua demanda se torna valioso, pois o analisante supõe que ele detém este objeto precioso, a agalma, objeto causa de desejo. Por este objeto valioso o analisante paga bem.
A prática do contrabando aparece através da obsessionalização do pagamento. O obsessivo e o seu desejo tenta driblar o Outro, negociando preço com recibo ou preço sem recibo.
Na análise, diz Quinet, há um recibo.
Cada analista, através da sua escuta, sua práxis, sua linha teórica, vai “receber” o dizer do analisante e irá significá-lo: o sujeito é responsável pelo seu dizer. O que foi dito está dito! O recibo do analista pode ser uma pontuação, o próprio corte da sessão, onde ele significa ter recebido o que o analisante depositou. O recibo vem antes do gesto do pagamento.


Bibliografia

Freud, S. Sobre o início do tratamento (1913). In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.
Miller, Jacques-Alain. Silet: os paradoxos da pulsão de Freud a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
Quinet, Antonio. As 4+1 condições de análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.



quinta-feira, 13 de março de 2014

Ela - filme her/dela/sua

Ela -her -filme
her (em letra minúscula), filme dirigido por Spike Jonze.

A tradução do título não é Ela, que seria em inglês She, sujeito, mas sim sua, dela.

Theodore escreve cartas para outras pessoas. Triste com o final de um casamento, ele se conecta com um novo e avançado sistema operacional, onde conhece "Samantha", uma voz feminina que lhe desperta desejo e por ela se apaixona. É um filme sobre o gozo, objeto a, voz, de Lacan. No processo de constituição do sujeito ocorre uma perda, resultado do encontro do sujeito e do Autre (Outro). Esta perda é o objeto a, face de desejo e face de gozo. A voz é um objeto a, como o seio, as fezes e o olhar. Uma pinta, um estrabismo, um modo de cruzar as pernas, podem despertar o desejo de um homem. E por que não uma voz? Neste filme a voz, embora numa inteligência artificial, é real. Quais as fronteiras atuais entre o real e o virtual? Também a escrita de Theodore é efeito de sua voz, de sua fala. Desperta desejo daquele que lê a sua escrita/carta (lettre). É um filme sobre o homem, a linguagem e o gozo, sem corpo, incorpóreo. É possível se apaixonar por uma voz, por uma pinta, por um olhar... E a voz também como qualquer objeto se perde. No final o ombro, outro objeto, é o suporte dela, her, “amiga” dele. Grande filme do presente futuro!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Grande Beleza - Filme

A Grande Beleza.
Filme dirigido por Paolo Sorrentino
                                    
                                                                        Rosa Jeni Matz

Em Roma, um escritor pensa sobre a sua vida, passado e presente. Escreveu um livro de sucesso, e não termina nenhum outro livro que inicia. Frequenta festas luxuosas, com drogas e excessos. No terraço com vista para o Coliseu, um grupo de “amigos” se reúne, entre eles uma editora anã. Falam de Roma, da vida, de perdas: a decadência de Roma hoje.
Uma religiosa será entrevistada por ele. Há um encontro, um momento, uma cena mágica, onde os animais alados pousam no terraço. A religiosa questiona o porquê dele não escrever mais. Ele responde que busca “a grande beleza”. E ela lhe diz porque come “raízes”: é bom voltar para o princípio.
Em Lacan, este é um filme sobre o gozo, a Coisa = A Grande Beleza, o objeto a, objeto para sempre perdido. Em Freud, também em Lacan, na experiência de satisfação, a primeira, o início, é onde se dá o encontro com a Coisa, Das Ding, que é um "complexo". O objeto a é o resultado deste encontro (objeto causa de desejo, e mais-valia, objeto do gozo) onde acontece a perda do objeto, saímos do Paraíso, do encontro com a Grande Beleza = Coisa (Mãe, "desejo incestuoso"). A beleza e o horror, a feiúra, 2 faces de uma mesma moeda.
No início de vida há a perda do objeto, é a raiz. Como escrever outro livro? Como é possível escrever outro livro da nossa vida? Há Um. A feiúra da cara da religiosa é o horror, o medo da castração. Ela sobe as escadas, sacrifica seu corpo, e goza frente à imagem santa. Este é o gozo do místico que Lacan comenta no Seminário 20, Encore. 
Outros cineastas italianos, Fellini, Pasolini, mostraram a decadência romana. Uma das formas do gozo do Outro, é a decadência. A vida do corpo é uma queda, de-cai. Este filme é sobre o início e o fim, da vida e da morte: sexo e morte.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Pulsão em Lacan

Pulsão em Lacan
                                                                             Rosa Jeni Matz

Lacan com Freud diz que a pulsão é o conceito limite entre o psíquico e o somático, entre o simbólico e o real. A pulsão é representada no inconsciente pelos significantes, estruturado como uma linguagem, significantes que indicam as demandas do sujeito ao Outro, e as demandas do Outro ao sujeito, pelos modos de pulsão oral, anal... A pulsão é um mito, pois ao mitificar o real, narra a relação do sujeito com o objeto perdido. O significante ao barrar a necessidade produz a pulsão, que é o resultado da operação do significante sobre a necessidade, caindo um resto, algo que escapa, o desejo. No registro simbólico da pulsão, o sujeito dividido se encontra em conexão e disjunção com a demanda do Outro. No real o sujeito se torna seu objeto, é acéfalo, percorrendo o trajeto de ida e volta em torno do objeto.
Fórmula da pulsão: $◊D
O neurótico (sujeito barrado) identifica a falta do Outro com a demanda do Outro (D).
Em Posição do inconsciente, Congresso de Bonneval, texto dos Escritos de 1960/1964, Lacan afirma: “...o significante como tal, barrando por intenção primeira o sujeito, nele faz penetrar o sentido da morte.” A morte, como significante, da linguagem, simbólica, entra na “vida”, e vice-versa. Não há dualismo, a meu ver potência e ato. E, prossegue: “Por isso é que toda pulsão é virtualmente pulsão de morte”. Lacan quer dizer que o significante, a palavra mata a Coisa (Mãe como lugar do gozo incestuoso). O significante Nome-do Pai barra o gozo, a relação incestuosa mãe-criança, e a Coisa barrada dá origem ao objeto a, objeto perdido, causa do desejo, resto de gozo. E a atividade, denominada pulsão (trieb), tenta restaurar esta perda original, contornando o objeto.
A pulsão é uma montagem, surrealista, unindo o Outro e a sexualidade. Lacan segue Freud ao distinguir os 4 termos da pulsão: impulso (Drang), fonte (Quelle), objeto (Objekt) e alvo (Ziel). A Quelle é a zona erógena na pulsão. A atividade da pulsão, o seu circuito, se concentra no se fazer, como na pulsão escópica se fazer ver: uma flecha que contorna o objeto olhar e volta para o sujeito. A pulsão contorna um furo, velado pelas “imagens” da história do sujeito. Na pulsão, a estrutura de borda dada à zona erógena é assegurada pelo contorno que a pulsão faz em torno do objeto a.
Lacan cita o mito da lamela (lâmina), desenvolvido no Congresso de Bonneval e no seminário 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Ao romper as membranas do ovo (óvulo), de onde sai o feto, algo se volatiza, que é a lâmina, algo extrachato como uma ameba, e tem relação com o quê o ser sexuado perde na sexualidade, que se torna imortal. Este órgão é a libido, que é “puro instinto de vida” (pur instinct de vie), vida imortal. Observem que Lacan fala de “instinto de vida” e não pulsão de vida. É o que é subtraído ao ser vivo por ele se submeter ao ciclo da reprodução sexuada, sendo os objetos as suas figurações: seio, fezes, olhar e voz. A pulsão é parcial, envolve as zonas erógenas que são parciais. Toda pulsão é uma pulsão de morte, inexiste outra pulsão.
Se a pulsão no Seminário 11 aponta para uma ficção, em seu último ensino, no seminário 23, O sinthoma, Lacan indica que a pulsão é uma "fixão", a fixação do gozo do significante no corpo do sujeito:”...as pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer". Prossegue: "é preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe", e que para que esse dizer ressoe, "é preciso que o corpo lhe seja sensível". Neste último ensino, a pulsão de morte é o real pensado como impossível, “o fato de a morte não pode ser pensada é o fundamento do real”.

Bibliografia:
Lacan, J. Escritos. Seminários 11 e 23. RJ: Jorge Zahar Ed.
Quinet, A. A descoberta do inconsciente. RJ: Jorge Zahar Ed., 2000.
Brousse, Marie-Hélène. A pulsão I e II, in Para ler o seminário 11 de Lacan, org. Feldstein e outros. RJ: Jorge Zahar Ed., 1997.