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quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Algumas palavras sobre Coringa

                                    
Coringa (Joker), filme de 2019, dirigido por Todd Phillips, estrelado por Joaquin Phoenix


O anti-herói é herói. Reação à agressão pela agressão. Ao bullying, ao abuso, ao Gozo do Outro pela morte do outro e do Outro. Matar...Exterminar os idiotas. Uma identificação ao anti-herói na sociedade atual. O povo usa a máscara do Coringa como na série A Casa de Papel. O povo clama a reação pela violência. Não há escuta nem espaço para a palavra. Somente a eliminação do inimigo, do explorador, é a solução dada. Denúncia da sociedade atual. Desestruturação e psicose familiar. Coringa em vez de ter tido a possibilidade do processo de separação da mãe adotiva, a mata. A morte simbólica não tem espaço e sim o Real bruto de passagem ao ato. Uma criança explorada e maltratada. Questiona e aniquila o tratamento psiquiátrico. O menino Batman presencia a violência aos pais, poder sem saber, resultado da exploração econômica. Os meios de comunicação de moral demagógica também são assassinados. O que resta? Pegadas de sangue no chão. Os traços de sangue, as marcas de sangue da memória inconsciente...

terça-feira, 24 de março de 2015

Dois lados do amor - The disappearance of Eleanor Rigby

Dois lados do amor - The disappearance of Eleanor Rigby
de Ned Benson, 2014.
Com James McAvoy  e Jessica Chastain.

Eleanor Rigby, inspiração de uma linda e triste canção dos Beatles que trata da solidão humana:
“Ah, look at all the lonely people = Ah ,olhe para todas as pessoas solitárias…”


Este filme apresenta vários temas. Entre eles o do luto não realizado. O casal se amava, mas tragicamente perdem um filho, e nada é falado. Nem o que aconteceu com o filho é divulgado, narrativa cinematográfica da beleza e do horror da tragédia silenciada. O filme mostra o calar sobre o luto e suas conseqüências. Eleanor desaparece, faz uma passagem ao ato, tentando o suicídio. O marido, Conor, também depois do incidente fatal coloca tudo sobre e do filho “dentro do armário”, desaparecimento do filho. Conor a busca, mas ela busca a solidão (lonely people). Apesar do afeto familiar a palavra pouco aparece. Simbólico apagado. Eles se amam ainda? Mais, ainda? O gozo como saída...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

O inconsciente real

O Inconsciente Real.
As manifestações das ruas brasileiras em junho de 2013.

Rosa Jeni Matz

As manifestações organizadas pelas redes sociais em junho em nosso país são efeitos do inconsciente real. A partir daí surgem singularidades e uma nova ordem social, apartidária, sem transferências, sem lideranças de um modelo paterno.
Pensando com Freud: em qualquer erupção do inconsciente emergem tanto pulsões de vida, de amor, Eros, que seriam os laços fraternos das manifestações, quanto pulsões de morte, algumas enlaçadas a Eros, onde o ódio, a agressividade a um poder instituído que violenta de modo econômico, ético e social o povo, aparece numa modalidade crítica, denunciativa, visando mudanças fundamentais. Mas, o ódio pode surgir de um modo destrutivo, solto, não-vinculado, como o vandalismo, o quebra-quebra, onde a capacidade de simbolizar fica submetida à ação imensa destrutiva de alguns homens.
Lacan, em seu ensino, desenvolve a questão do inconsciente em 2 momentos:
De início, retornando a Freud:
- o inconsciente freudiano, inconsciente simbólico, transferencial. Este é o inconsciente do drama edípico, da universalidade do Édipo, o inconsciente do recalque, o inconsciente como saber, do sujeito suposto saber, inconsciente que pede interpretação. O modo de gozo é fálico, atende às medidas, aos limites.
Já em seu último ensino, Lacan apresenta o inconsciente real, devido à mudança cultural onde o gozo impera como absoluto. A meu ver, estas manifestações das ruas, políticas, apontam para o inconsciente real, traumático, onde o traumático se fez aparecer. Ato de surpresa, sem sujeito, horizontal, várias tribos, sem sentido e interpretação. De uma imanência onde um significante transcendente surge: MPL, Movimento Passe Livre. Penso no passe lacaniano onde o sujeito analisando manifesta o seu desejo de ser psicanalista. A manifestação das ruas é um ato, de ruptura e responsabilidade, mas também em alguns momentos percebemos acting-out, e passagens ao ato. O sentido se desfez aparecendo o non-sense, sem sentido, que é o inconsciente real. Este inconsciente está além da interpretação, fora do sentido, sendo que a busca é pela redução do sentido, para tentar alcançar o real que nos escapa.