Renúncia ao gozo; impossibilidade x possibilidade, ética x moral, dívida simbólica.
-da renúncia ao gozo
-da impossibilidade x proibição
-da ética x moral (Lei x código)
-da dívida simbólica.
A renúncia ao gozo é fundamental para a constituição do sujeito. Ao renunciar ao gozo, ao afirmar a castração, o sujeito está aceitando a perda de gozo necessária para o seu convívio no social. Está se afastando da relação incestuosa, aceita a Lei do desejo. É através dessa perda de gozo, que o objetoa pode aparecer nas formas de seio, fezes, olhar e voz, que seriam as partes que o sujeito cede em sua relação com o Outro.
A impossibilidade é da lógica do Real. É impossível “acessar” ao Real, só “acessamos” a pedaços do Real. Um exemplo desta lógica do Real: muitas vezes escutamos na clínica um paciente dizer: “não consigo fazer isso”. Na lógica do possível, algo pode estar inibindo o sujeito, inibição, ou um sintoma, um conflito pode estar por trás disso. Na impossibilidade o “não consigo” aponta para o Real, seria como um sujeito já lesionado gravemente sofrer por não conseguir realizar algo que o órgão já lesionado, irreversível, o impede de realizar. É necessário o paciente aceder a orientação do Real quando ele urge. Ao Real é o impossível...
A proibição, a proibição do incesto, lei universal, seria colocada pela Lei simbólica, atenderia ao Simbólico, à Lei. No obsessivo o desejo aponta para a sua proibição.
Lacan diz, e concordo, que o estatuto do inconsciente é ético (em Os 4 conceitos fundamentais da psicanálise, p. 37, Zahar, 1995), e não ôntico. A Lei, proibição do incesto, o desejo sempre insatisfeito, e o objeto é desde sempre perdido. O código está no Outro, o tesouro dos significantes, e implica em respostas as demandas vindas do/para o sujeito. A moral visa o Bem, enquanto o recalque/inconsciente “barra” o Bem, que perde gozo..
A dívida simbólica se refere também à perda de gozo que o sujeito sofreu ao aceder ao social. Ao se deixar barrar pela Lei simbólica, da proibição do incesto, o sujeito internaliza esta proibição. O assassinato do pai primevo pelos filhos-irmãos, e depois a simbolização deste ato, o parricídio, o pecado original, tem um preço. A morte do pai reforça a interdição do gozo, e não a libera. A interdição, Lei fundadora, constitui o sujeito como desejante, e então o gozo se torna parcial. Qualquer exercício de gozo engendra a dívida simbólica, na medida em que implica numa transgressão à Lei do desejo.
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quarta-feira, 5 de março de 2014
Renúncia ao gozo; impossibilidade x possibilidade, ética x moral, dívida simbólica.
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
A Grande Beleza - Filme
A
Grande Beleza.
Filme dirigido por Paolo Sorrentino
Rosa Jeni Matz
Em
Roma, um escritor pensa sobre a sua vida, passado e presente. Escreveu um livro
de sucesso, e não termina nenhum outro livro que inicia. Frequenta festas
luxuosas, com drogas e excessos. No
terraço com vista para o Coliseu, um grupo de “amigos” se reúne, entre eles uma
editora anã. Falam de Roma, da vida, de perdas: a decadência de Roma hoje.
Uma religiosa será entrevistada por ele. Há um encontro, um momento,
uma cena mágica, onde os animais alados pousam no terraço. A religiosa
questiona o porquê dele não escrever mais. Ele responde que busca “a grande
beleza”. E ela lhe diz porque come “raízes”: é bom voltar para o princípio.
Em Lacan, este é um filme sobre o gozo, a
Coisa = A Grande Beleza, o objeto a, objeto para sempre perdido. Em Freud,
também em Lacan, na experiência de satisfação, a primeira, o início, é onde se
dá o encontro com a Coisa, Das Ding, que é um "complexo". O objeto a é
o resultado deste encontro (objeto causa de desejo, e mais-valia, objeto do
gozo) onde acontece a perda do objeto, saímos do Paraíso, do encontro com a
Grande Beleza = Coisa (Mãe, "desejo incestuoso"). A beleza e o
horror, a feiúra, 2 faces de uma mesma moeda.
No início de vida há a perda do objeto, é a
raiz. Como escrever outro livro? Como é possível escrever outro livro da nossa
vida? Há Um. A feiúra da cara da religiosa é o horror, o medo da castração. Ela
sobe as escadas, sacrifica seu corpo, e goza frente à imagem santa. Este é o
gozo do místico que Lacan comenta no Seminário 20, Encore.
Outros cineastas italianos, Fellini, Pasolini, mostraram a
decadência romana. Uma das formas do gozo do Outro, é a decadência. A vida do
corpo é uma queda, de-cai. Este filme é sobre o início e o fim, da vida e da
morte: sexo e morte.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
O inconsciente real
O
Inconsciente Real.
As manifestações das ruas brasileiras em junho de 2013.
Rosa Jeni Matz
As
manifestações organizadas pelas redes sociais em junho em nosso país são
efeitos do inconsciente real. A partir daí surgem singularidades e uma nova
ordem social, apartidária, sem transferências, sem lideranças de um modelo
paterno.
Pensando
com Freud: em qualquer erupção do inconsciente emergem tanto pulsões de vida,
de amor, Eros, que seriam os laços fraternos das manifestações, quanto pulsões
de morte, algumas enlaçadas a Eros, onde o ódio, a agressividade a um poder
instituído que violenta de modo econômico, ético e social o povo, aparece numa
modalidade crítica, denunciativa, visando mudanças fundamentais. Mas, o ódio
pode surgir de um modo destrutivo, solto, não-vinculado, como o vandalismo, o
quebra-quebra, onde a capacidade de simbolizar fica submetida à ação imensa
destrutiva de alguns homens.
Lacan,
em seu ensino, desenvolve a questão do inconsciente em 2 momentos:
De
início, retornando a Freud:
- o inconsciente freudiano, inconsciente simbólico, transferencial. Este é o inconsciente do drama edípico, da universalidade do Édipo, o inconsciente do recalque, o inconsciente como saber, do sujeito suposto saber, inconsciente que pede interpretação. O modo de gozo é fálico, atende às medidas, aos limites.
Já em seu último ensino, Lacan apresenta o inconsciente real, devido à mudança cultural onde o gozo impera como absoluto. A meu ver, estas manifestações das ruas, políticas, apontam para o inconsciente real, traumático, onde o traumático se fez aparecer. Ato de surpresa, sem sujeito, horizontal, várias tribos, sem sentido e interpretação. De uma imanência onde um significante transcendente surge: MPL, Movimento Passe Livre. Penso no passe lacaniano onde o sujeito analisando manifesta o seu desejo de ser psicanalista. A manifestação das ruas é um ato, de ruptura e responsabilidade, mas também em alguns momentos percebemos acting-out, e passagens ao ato. O sentido se desfez aparecendo o non-sense, sem sentido, que é o inconsciente real. Este inconsciente está além da interpretação, fora do sentido, sendo que a busca é pela redução do sentido, para tentar alcançar o real que nos escapa.
- o inconsciente freudiano, inconsciente simbólico, transferencial. Este é o inconsciente do drama edípico, da universalidade do Édipo, o inconsciente do recalque, o inconsciente como saber, do sujeito suposto saber, inconsciente que pede interpretação. O modo de gozo é fálico, atende às medidas, aos limites.
Já em seu último ensino, Lacan apresenta o inconsciente real, devido à mudança cultural onde o gozo impera como absoluto. A meu ver, estas manifestações das ruas, políticas, apontam para o inconsciente real, traumático, onde o traumático se fez aparecer. Ato de surpresa, sem sujeito, horizontal, várias tribos, sem sentido e interpretação. De uma imanência onde um significante transcendente surge: MPL, Movimento Passe Livre. Penso no passe lacaniano onde o sujeito analisando manifesta o seu desejo de ser psicanalista. A manifestação das ruas é um ato, de ruptura e responsabilidade, mas também em alguns momentos percebemos acting-out, e passagens ao ato. O sentido se desfez aparecendo o non-sense, sem sentido, que é o inconsciente real. Este inconsciente está além da interpretação, fora do sentido, sendo que a busca é pela redução do sentido, para tentar alcançar o real que nos escapa.
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quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Pulsão em Lacan
Pulsão em Lacan
Rosa Jeni Matz
Lacan com Freud diz que a pulsão é o conceito limite entre
o psíquico e o somático, entre o simbólico e o real. A pulsão é representada no
inconsciente pelos significantes, estruturado como uma linguagem, significantes
que indicam as demandas do sujeito ao Outro, e as demandas do Outro ao sujeito,
pelos modos de pulsão oral, anal... A pulsão é um mito, pois ao mitificar o
real, narra a relação do sujeito com o objeto perdido. O significante ao barrar
a necessidade produz a pulsão, que é o resultado da operação do significante
sobre a necessidade, caindo um resto, algo que escapa, o desejo. No registro
simbólico da pulsão, o sujeito dividido se encontra em conexão e disjunção com
a demanda do Outro. No real o sujeito se torna seu objeto, é acéfalo,
percorrendo o trajeto de ida e volta em torno do objeto.
Fórmula da pulsão: $◊D
O neurótico (sujeito barrado)
identifica a falta do Outro com a demanda do Outro (D).
Em Posição do inconsciente, Congresso
de Bonneval, texto dos Escritos de 1960/1964, Lacan afirma: “...o significante
como tal, barrando por intenção primeira o sujeito, nele faz penetrar o sentido
da morte.” A morte, como significante, da linguagem, simbólica, entra na
“vida”, e vice-versa. Não há dualismo, a meu ver potência e ato. E, prossegue:
“Por isso é que toda pulsão é virtualmente pulsão de morte”. Lacan quer dizer
que o significante, a palavra mata a Coisa (Mãe como lugar do gozo incestuoso).
O significante Nome-do Pai barra o gozo, a relação incestuosa mãe-criança, e a
Coisa barrada dá origem ao objeto a, objeto perdido, causa do desejo,
resto de gozo. E a atividade, denominada pulsão (trieb), tenta restaurar
esta perda original, contornando o objeto.
A pulsão é uma montagem,
surrealista, unindo o Outro e a sexualidade. Lacan segue Freud ao distinguir os
4 termos da pulsão: impulso (Drang), fonte (Quelle), objeto (Objekt)
e alvo (Ziel). A Quelle é a zona erógena na pulsão. A atividade
da pulsão, o seu circuito, se concentra no se fazer, como na pulsão
escópica se fazer ver: uma flecha que contorna o objeto olhar e volta para o
sujeito. A pulsão contorna um furo, velado pelas “imagens” da história do
sujeito. Na pulsão, a
estrutura de borda dada à zona erógena é assegurada pelo contorno que a pulsão
faz em torno do objeto a.
Lacan cita o mito da lamela
(lâmina), desenvolvido no Congresso de Bonneval e no seminário 11, Os quatro
conceitos fundamentais da psicanálise. Ao romper as membranas do ovo
(óvulo), de onde sai o feto, algo se volatiza, que é a lâmina, algo extrachato
como uma ameba, e tem relação com o quê o ser sexuado perde na sexualidade, que
se torna imortal. Este órgão é a libido, que é “puro instinto de vida” (pur
instinct de vie), vida imortal. Observem que Lacan fala de “instinto de
vida” e não pulsão de vida. É o que é subtraído ao ser vivo por ele se submeter
ao ciclo da reprodução sexuada, sendo os objetos as suas figurações: seio,
fezes, olhar e voz. A pulsão é parcial, envolve as zonas erógenas que são
parciais. Toda pulsão é uma pulsão de morte, inexiste outra pulsão.
Se
a pulsão no Seminário 11 aponta para uma ficção, em seu último ensino,
no seminário 23, O sinthoma, Lacan indica que a pulsão é uma
"fixão", a fixação do gozo do significante no corpo do sujeito:”...as
pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer". Prossegue:
"é preciso que haja alguma coisa no significante que ressoe", e que
para que esse dizer ressoe, "é preciso que o corpo lhe seja
sensível". Neste último ensino, a pulsão de morte é o real pensado como
impossível, “o fato de a morte não pode ser pensada é o fundamento do real”.
Bibliografia:
Lacan,
J. Escritos. Seminários 11 e 23. RJ: Jorge Zahar Ed.
Quinet,
A. A descoberta do inconsciente. RJ: Jorge Zahar Ed., 2000.
Brousse,
Marie-Hélène. A pulsão I e II, in Para ler o seminário 11 de Lacan, org.
Feldstein e outros. RJ: Jorge Zahar Ed., 1997.
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quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Terra Firme - filme
Terra Firme, do diretor italiano
Emanuele Crialese, filme franco-italiano.
Rosa Jeni Matz
Sempre gostei de filmes italianos
embora não os tenha assistido muito atualmente. Gosto deles, pois mostram os
costumes e a língua greco-romana, que também nos aproxima. E, além disso, a
dimensão do trágico/do desejo/do gozo na vida e na morte está presente em sua
cultura.
A ética é o fio condutor do
filme. Lembrou-me a Antígona de Lacan, que luta pela lei dos deuses contra a
lei da cidade de Creonte (seminário 7, a ética da psicanálise).
O avô de Filippo é a Antígona do
filme, que segue a lei do seu desejo, de pescador, de nunca abandonar um ser
humano no mar. A polícia, lei da cidade, confisca o seu barco, o impedindo de
pescar, pois salvou alguns africanos em seu barco, ação proibida por lei,
inclusive uma mulher grávida e seu filho que esconde em sua casa para não serem
deportados. O avô, quase morre pelo seu desejo, ao salvá-los da morte no mar,
dimensão trágica de Antígona.
A mãe de Filippo faz o parto,
salvando mãe e filha, esta resultado de violência e abuso sexual sofrido pela
mãe.
O jovem Filippo, ao se aproximar
do sexo no mar, encontra a angústia. Surgem do mar, avançando em sua direção,
africanos sedentos de braços amigos (terra firme). Não sabendo como lidar,
Filippo não permite que entrem no barco, agindo com violência sobre as mãos dos
africanos. Enquanto as mãos de sua mãe dão vida a uma menina africana, surgindo
a bela frase no filme dita pela africana à mãe de Fillipo, mais ou menos assim:
“minha filha para de chorar, pois sente o cheiro de suas mãos, que foram as
primeiras em sua vida”. Já Filippo não consegue dar as mãos aos africanos. Um
jovem esmagado pela angústia entre a demanda do avô e a demanda da polícia. Em
tempo posterior, resolve esta angústia pelo ato. Traz para si a
responsabilidade.
A ilha de Lampedusa está aí.
Milhares de negros que lutam pela imigração, frutos da pobreza. Não podemos fechar
os olhos. Todos nós somos responsáveis. Tudo isso é triste e vergonhoso!
O filme trata da dignidade humana.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Imaginário, Simbólico, Real, Autre
Quatro conceitos em Lacan: Imaginário, Simbólico, Real e Autre (Outro).
Rosa Jeni Matz
Lacan explicita
o campo psicanalítico através de 3 registros: Imaginário, Simbólico e Real,
registros essenciais da realidade humana (réalité humaine).
Imaginário.
Modalidades do Imaginário.
- No estádio especular se funda a relação narcisista
entre a criança e a mãe, relação dual estruturada pela imagem do semelhante
(semelhante = outro, autre), constituindo o eu (moi) da criança
através de uma identificação imaginária com a mãe (eu-ideal), que se torna uma
“unidade” ilusória de seu corpo, gestalt ilusória, pois o sistema motor
e o sistema nervoso do infans (que ainda não fala) não se encontram
desenvolvidos, devido a prematuração específica do nascimento no homem. A
criança sai do momento do corpo despedaçado. O espelho funciona como Autre (Outro),
pois se espera que a mãe ao entrar nesta relação com a criança já seja cortada
anteriormente pela linguagem (Simbólico), senão acarreta casos de psicose.
- É o registro das imagens, da ilusão, do engano, da
fascinação, da captação da imagem que determina a submissão da criança ao olhar
do outro, captação imaginária do duplo, e do transitivismo entre as crianças
colocadas uma frente à outra (a criança que bate diz que apanha), da confusão
entre si e o outro, da agressividade.
Simbólico
O registro do Simbólico baseia-se em
descobertas da antropologia estrutural e da lingüística. O simbolismo social,
cultural e lingüístico impõe-se como ordens anteriores, já constituídas para o infans,
que será modelado segundo as estruturas destas ordens. A entrada da criança na
ordem simbólica será pelo Édipo (os três momentos do Édipo em Lacan, sendo que
no terceiro momento se dá o acesso da criança ao simbólico através da metáfora
paterna, sustentada pelo recalque originário, que é estruturante, simbolização
primordial da lei, metaforização efetuada através da substituição do
significante do desejo da mãe pelo significante Nome-do-Pai), e pelas
estruturas da linguagem.
“O
inconsciente é estruturado como uma linguagem”, sendo o recalcado constituído
por significantes que se organizam numa rede de combinações metafóricas e
metonímicas (influências de Saussure e Jakobson). O sujeito é efeito da cadeia
de significantes inconsciente.
O
interdito do incesto (Lei) organiza a entrada da criança no social. A lei
instaura as relações mediatas, por meio do símbolo, passando a criança de uma
relação imediata com a mãe para uma relação mediata, graças à instauração da
ordem simbólica pela entrada do pai, Nome-do-Pai, instituindo a falta pela
castração.
Modalidades do Simbólico.
- o reconhecimento do sujeito, da palavra (plena), do ato,
da responsabilidade, da verdade (meia-verdade), do saber, do desejo em relação
à lei, se dá neste espaço/tempo de ordenamento simbólico.
Real
Campo
propriamente lacaniano, discernido pela modalidade lógica do impossível, não
cessando de não se escrever, ex-sistindo a imaginarização e à simbolização.
Modalidades do Real.
- O real escapa à simbolização, se situando à margem da
linguagem, embora tentamos apreender pedaços do real por intermédio do
simbólico.
- O real é sem lei, não tem ordem, sem fendas. Pelo real
aproximamos à categoria do gozo, que aponta para o excesso, tensão que
ultrapassa um limite, e ao objeto a. O objeto a apresenta uma
face como objeto causa de desejo, e outra face como resto, mais-gozar, que não
é simbolizável, sendo partes destacáveis do corpo: seio, fezes, olhar e voz.
- O estatuto da Coisa (das Ding), alguma coisa isolada da
cadeia significante, e a repetição, uma coisa não pode ser substituída por
outra por não poderem se tornar significantes.
- A impossibilidade da relação sexual (il n’y a pas de
rapport sexuel) – Lacan não afirma que as pessoas não têm relações sexuais,
mas como Freud, diz que só há libido masculina, logo não há no inconsciente
significante de/para mulher, a mulher não existe, portanto impossibilidade de
relação/razão (simbólica) entre os 2 sexos. Em termos de lógica simbólica e
teoria dos conjuntos só os homens são circunscritos pela função fálica, sendo
as mulheres não-todas nesta função.
Autre
– A -Outro
- A Outra cena, é um lugar onde se situam os elementos
significantes, marcando a determinação simbólica do sujeito, articulando o
inconsciente: “O inconsciente é o discurso do Outro”, “o inconsciente é
estruturado como uma linguagem”. São as relações significantes que obedecem às
leis da linguagem, determinando a constituição do sujeito desde o nascimento.
- Lugar do código, linguagem, lei.
- É do Autre que se trata na função da fala.
- “O desejo do homem é o desejo do Outro”, onde o sujeito se
pergunta “o que quer o Outro?”.
- Modalidades: lugar do tesouro dos significantes, como Pai e
Mãe (primeiros Outros da linguagem), desejo do Outro, demanda do Outro, gozo do
Outro, Deus, o inconsciente.
- Autre barrado – Outro como falta, incompleto
estruturalmente.
Referências
Fink, B. O sujeito lacaniano. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.
Lemaire,
Anika. Jacques Lacan: uma introdução. Rio de Janeiro: Campus, 1979.
Lacan, J. Seminários
1, 5, 7, 11, 22, 23. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor.
Lacan, J. Escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor, 1998.
Roudinesco, Elizabeth e Plon,
Michel. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1998.
Vallejo,
A. e Magalhães, L. Lacan: Operadores da Leitura. São Paulo: Ed.
Perspectiva, 1991.
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Lei,
linguagem,
não há relação sexual,
Outra cena,
Real,
simbólico
domingo, 26 de maio de 2013
Questões sobre a clínica psicanalítica no final do século XX e início do século XXI
Questões sobre a clínica psicanalítica no final do século XX e início do
século XXI
Rosa Jeni Matz
Este trabalho é uma reflexão sobre a crise da clínica psicanalítica nos
finais do século XX e no início do século XXI. Em nosso país, eficientes
psicanalistas trabalham em seus consultórios, mas por que a demanda clínica
diminuiu?
Podemos tentar responder a questão através da perspectiva econômica. O
Brasil e todas as nações vivem um momento difícil. O dinheiro, a moeda é rara.
O desemprego cresce nas manchetes dos jornais. A vida íntima é escrachada em
programas de televisão, onde a moeda comanda. A psicanálise que era considerada
elitista nos anos 1980, embora ocorresse o funcionamento de algumas clínicas
sociais, se popularizou mais, atendendo a população através de clínicas
sociais, convênios, cooperativas, e até nos consultórios particulares o preço
da consulta, muitas vezes, diminuiu pela baixa demanda. Mas será que o problema
econômico atual é a causa da crise na clínica?
Tem ocorrido uma inversão do
privado e do público. Expor o privado não é mais uma questão de vergonha,
humilhação, mas sim uma forma de se aproximar do poder. Na televisão, o privado
se torna público, e sustenta a atenção do público. Gilles Deleuze, em Conversações,
na entrevista Controle e Devir, afirma: “Talvez a fala, a comunicação estejam
apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente mas
por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de
comunicar”. Cita Primo Levi, que diz que os campos nazistas introduziram “a
vergonha de ser um homem”. Os homens foram manchados pelo nazismo. Primo Levi
chama de ”zona cinza”: “Vergonha por ter havido homens para serem nazistas,
vergonha por não ter podido ou sabido impedi-lo, vergonha de ter feito
concessões...” Acrescenta Deleuze: E quanto à vergonha de ser um homem,
acontece de a experimentarmos também em circunstâncias simplesmente
derrisórias: diante de uma vulgaridade grande demais no pensar, frente a um
programa de variedades, face ao discurso de um ministro, diante de conversas de
“bons vivants”.
Podemos refletir sobre a
banalização do pensar, como também a ausência do pensamento no mundo atual, no
campo da comunicação, e em muitos programas de televisão. Pensamento como criação,
criação de conceitos. O que encontramos são programas onde a intimidade sai do
ambiente fechado, entrando no ambiente aberto, sem limites. Além da inversão do
privado e do público, as fronteiras se dissipam. Estamos no mundo sem
fronteiras. A arquitetura lança projetos onde as paredes desaparecem. O novo
modelo de residência, o loft, inclui ambientes sem divisórias, onde a
intimidade desaparece. O privado é olhado, controlado.
Gilles Deleuze afirma: “Estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam
não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea.
Burroughs começou a análise dessa situação. Certamente não se deixou de falar
da prisão, da escola, do hospital: essas instituições estão em crise. Mas se
estão em crise, é precisamente em combates de retaguarda. O que está sendo
implantado, às cegas, são novos tipos de sanções, de educação, de tratamento.
O consultório psicanalítico, ambiente de arquitetura fechada, com portas
e paredes, com limites precisos, teria de ser também atingido por essa prática
de poder, o controle. As suas paredes poderão ser demolidas? O edifício
psicanalítico está sendo transformado, sem que muitos profissionais se dêem
conta.
Podemos, também, refletir sobre a psicanálise pelo viés da “moda” (senso
comum). No dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira se encontra a moda
definida como: “uso, hábito ou estilo geralmente aceito, variável no tempo, e
resultante de determinado gosto, idéia, capricho e das interinfluências do
meio: conceitos em moda, a moda parnasiana”. Nos anos 1970 e 1980, podemos
perguntar se a psicanálise estava em moda? Com muita força havia o movimento hippie,
a revolução cultural, a anti-psiquiatria e a psicanálise. Os consultórios eram
procurados, a demanda era farta, o apogeu. Para muitos a psicanálise estava em
moda. Mas será que podemos associa-la à moda? Seria a psicanálise um “uso,
hábito ou estilo”? Para os que a utilizaram como uso ela estava em moda. Numa
sociedade capitalista, onde a própria invenção humana, a sua criatividade se
torna um bem de consumo, um gadget, que depois de um tempo é jogado
fora, como uma roupa que não está mais na moda, a clínica pode ter sido
utilizada como um bem durável, como um meio de atingir a felicidade, que ao
atingi-la ou não atingi-la, seria descartado após o seu uso.
Não é, também, pelo hábito que ela pode ser discutida, já que,
figuradamente, como aparência exterior, aparece no mesmo dicionário a expressão
“o hábito não faz o monge”, que Lacan revoluciona ao afirmar que “o hábito faz
o monge”. A questão do estilo é muito vasta. Estilo é definido, no dicionário,
como modo de escrever, de exprimir os pensamentos (entre outras definições).
Podemos pensar em estilo psicanalítico? Esta é uma questão. “Freud explica?”,
como expressão popular estaria relacionada ao estilo psicanalítico e/ou desejo?
Gilles Deleuze, em Diálogos, diz que os devires “são atos que só
podem estar contidos em uma vida e expressos em um estilo”. Tanto os estilos,
como os modos de vida não são construções. “No estilo não são as palavras que
contam, nem as frases, nem os ritmos e as figuras... Gostaria de dizer o que é
um estilo. É a propriedade daqueles dos quais habitualmente se diz “eles não
têm estilo...”. Não é uma estrutura significante, nem uma organização
refletida, nem uma inspiração espontânea, nem uma orquestração, nem uma
musiquinha. É um agenciamento, um agenciamento de enunciação. Conseguir
gaguejar em sua própria língua é isso um estilo... ser gago da própria
linguagem. Ser como um estrangeiro em sua própria língua”.
Podemos pensar em Freud como um estrangeiro em sua língua alemã. Um
estrangeiro, o estranho (unheimlich) no sentido do que lhe era mais
familiar (heimlich). Consideramo-lo um grande escritor. A sua obra
revolucionária gerou estranheza no meio intelectual de sua época. A expressão
“Freud explica” aponta para uma estranheza, um desconhecimento na língua. Algo
precisa ser explicado, algo escapa, há uma falta, daí a sua relação com o
desejo.
Psicanálise não é moda. Ela se torna moda quando é usada e abusada. Esta
não é sua finalidade. Mas, constantemente ouvimos afirmações como: “A
psicanálise saiu de moda”. Como tentar explicar este momento? Como sair desta
indagação? Em várias revistas e jornais encontramos entrevistas em que os entrevistadores
questionam aos entrevistados (psicanalistas, historiadores da psicanálise, etc)
se a psicanálise terminou, se a morte da psicanálise se aproxima.
Hoje, as
academias de ginásticas estão lotadas. O corpo malhado é a grande meta, o bem
supremo. A aparência jovem, esbelta, musculosa comanda o espetáculo. A saúde,
tanto física como mental, é adquirida através de exercícios físicos regulares.
O corpo é a grande estrela. Bodypump, Spinner, e outras técnicas são
utilizadas em academias como fornecedoras de uma idéia de um corpo perfeito,
ideal. “Become Somebody”. Esta é uma propaganda ligada ao BodyPump.
Tornar-se alguém, tornar-se pessoa? A famosa obra de Carl Rogers, Tornar-se
Pessoa, hoje se banalizou nas academias. Hoje, tornar-se alguém ou ninguém
é ter um corpo “sarado”, quer dizer musculoso.
Observamos uma
mudança na sexualidade. A psicanálise tem como um dos seus fundamentos a
sexualidade humana. O surgimento da AIDS trouxe transformações no comportamento
humano, e principalmente na sua vida sexual. Atualmente morte e sexo estão
fortemente associados. As pessoas diminuíram a sua atividade sexual, fazendo
sexo por telefone, pela Internet. O grande momento da clínica psicanalítica vem
junto a um movimento de liberdade sexual. As pessoas faziam sexo,
experimentavam suas possibilidades. Podemos associar esta crise psicanalítica
com a crise da libido atual. Esta energia está presa, deslocando a prática
sexual para o sexo virtual. O discurso psicanalítico trata do sexo, o
esvaziamento da clínica demonstra também o desinteresse atual pelo sexo, sendo
o sexo deslocado para o virtual e o banal. Apesar de estarmos em outra direção
do que a de Deleuze é importante cita-lo: “A psicanálise é exatamente uma
masturbação, um narcisismo generalizado, organizado, codificado. A sexualidade
não se deixa sublimar, nem fantasiar, o que a interessa está noutra parte, na
vizinhança e na conjugação reais com outros fluxos, que a esgotam ou precipitam
– tudo depende do momento, e do agenciamento”. Precisamos refletir sobre estes
fluxos que esgotam ou precipitam a sexualidade e sua relação com a teoria e a
técnica psicanalítica atual. Quais os fluxos que estariam esgotando a prática
psicanalítica?
Como pensar sobre
a diminuição da demanda na clínica psicanalítica? Como se aproximar deste
esvaziamento? Utilizarei a filosofia como “ferramenta” auxiliar a psicanálise,
aproximando-me da seguinte reflexão de Deleuze nos Diálogos: “Quando se
consegue traçar a linha, pode-se dizer é “filosofia”. Não que a filosofia seja
uma disciplina última, uma raiz última que contivesse a verdade das outras, ao
contrário. Muito menos uma sabedoria popular. É porque a filosofia nasce ou é
produzida de fora pelo pintor, pelo músico, pelo escritor, a cada vez que a
linha melódica leva o som, ou a pura linha traçada, a cor, ou a linha escrita,
a voz articulada. Não há necessidade alguma de filosofia: ela é inevitavelmente
produzida lá onde cada atividade faz brotar sua linha de desterritorialização.
Sair da filosofia, fazer qualquer coisa para produzi-la de fora. Os filósofos
sempre foram outra coisa, nasceram de outra coisa.”
Assim, este
próprio trabalho produziu de fora a filosofia, já que traz uma voz, escrita
articulada. A psicanálise, como atividade clínica, está fazendo brotar uma
linha de desterritorialização. Ocorre um esvaziamento de um território para
outro. A filosofia nasce de outra coisa. Este acontecimento, encontro do
agenciamento psicanálise e do agenciamento filosofia, nas suas diferenças,
estabelecem relações. Através destas relações, deste encontro, será
desenvolvida esta reflexão.
Hannah Arendt,
filósofa e pensadora política, nascida na Alemanha em 1906, morrendo em 1975,
deixou inacabada a obra A Vida do Espírito, dedicada ao pensamento, à
vontade, e ao juízo. No volume 1, sobre o pensar, cita que tanto a filosofia, a metafísica, a
teologia “caíram em descrédito”.
Discute a afirmação de que Deus está morto: “Deus está morto” (Hegel e
Nietzsche), não é que certamente esteja morto (“algo sobre o qual o nosso conhecimento é tão pequeno quanto o que
temos sobre a existência de Deus (tão pequeno, de fato que mesmo a palavra
“existência” está mal empregada), mas que a maneira pela qual Deus foi pensado
durante milhares de anos não é mais convincente; se algo está morto, só pode
ser o pensamento tradicional sobre Deus. E algo semelhante
vale também para o fim da filosofia metafísica: não que as velhas questões tão
antigas quanto o próprio aparecimento do homem sobre a Terra tenham se tornado
“sem sentido”, mas a maneira pela qual foram feitas e respondidas perdeu a
razoabilidade”. Logo, alerta para as novas questões que surgem para o
pensamento.
Estas “mortes
modernas” foram acontecimentos com determinadas conseqüências históricas
importantes. Descartes, o filósofo fundamental da Era Moderna, no estágio
inicial desta era, trata cada assunto afirmando “como se ninguém o tivesse
abordado antes de mim”. O mundo novo se descortinava. Através do ponto
arquimediano um novo olhar é introduzido. O sujeito entra em cena. O mundo é o
da subjetividade. Passamos a nos olhar e a olhar a tudo como seres universais.
Ocorre uma mudança na maneira de representar o mundo. A compreensão do mundo
através de um ponto remoto da Terra; uma recodificação do mundo em termos
algébricos.
A psicanálise surgiu no final do século
passado. Freud revoluciona o pensamento ao introduzir o conceito de
inconsciente. Não falamos em Séc. XVII, mas em Séc. XIX. A psicanálise que teve
uma grande demanda nos anos 1970 e 1980 no Brasil, séc. XX, também como a
metafísica e outros campos do saber, teria de viver a sua crise, já que é
característica do capitalismo decodificar para depois recodificar. Teria que
viver a sua “morte moderna”, ou melhor, pós-moderna. Este é o processo
capitalista, construção e desconstrução. A noção de progresso surgiu como
produto das descobertas científicas no Séc. XVII, criando uma conexão com o
ilimitado, levando a necessidade de descobertas renovadas, de um “processo” de
progresso. Seria uma nova ilusão de felicidade. Novas formas de conhecimento
precisam surgir para que a visão capitalista de felicidade se mantenha. Agora,
como H. Arendt afirma ao se referir a “morte” da metafísica, é possível que
algumas respostas às questões psicanalíticas perderam o sentido, não
invalidando estas questões.
Hoje, ocorre um
descrédito de tudo que não é visível. Segundo H Arendt, a principal
característica das atividades espirituais é a sua invisibilidade. Há uma grande
dificuldade em abordar e percorrer o “domínio do invisível”, sendo que ela
adverte sobre o perigo de se perder o passado e suas tradições. Podemos falar
de uma crise dos ideais? Seria possível, como H. Arendt coloca, haver uma morte
do invisível? Entre 1929, Moisés e o monoteísmo, e 1938, O mal-estar
na cultura, Freud “terminou” a sua reflexão sobre o supereu, reunindo as
reflexões já feitas em Totem e Tabu, fundamentando o assassínio do chefe
da horda primitiva como a origem do supereu e do sentimento de culpa,
estabelecendo uma relação entre agressividade e sentimento de culpa, e
surgimento da linguagem e do pensamento.
Podemos relacionar a
crise da clínica, neste final de século, com a reflexão realizada por Hannah
Arendt sobre a ausência de pensamento? Estaríamos convivendo com a banalidade
do mal?
A. Green
denomina de estados - limite uma variedade da clínica atual, que também podem
ser considerados como estados limites de anasabilidade. J. Mc. Dougall denominou
– os de anti – analisantes. O modelo destes casos – limite conduz a uma
contradição entre angústia de separação e angústia de intrusão. Esta angústia,
diz Green, parece não atingir a problemática do desejo, mas sim à formação do
pensamento (Bion).
H. Arendt
pergunta: “O que nos faz pensar?” Responde com Kant que seria pela “necessidade
da razão, o impulso interno dessa faculdade para se realizar na especulação”.
Kant distingue Vernunft (razão) e Verstand (intelecto) após
descobrir o “escândalo da razão”, que seria que “o nosso espírito não é capaz
de um conhecimento certo e verificável em relação a assuntos e questões sobre
os quais, no entanto, ele mesmo não se
pode impedir de pensar”. São as “questões últimas”, que apenas o pensamento se
ocupa: Deus, liberdade e imortalidade. A “necessidade urgente” da razão é mais
que a busca de conhecimento, que caberia ao intelecto. Razão coincidiria com o
pensar, e este com o significado; e o intelecto com o conhecimento, a cognição.
Mas, Hannah Arendt comenta, que pela influência da metafísica, Kant permaneceu
inconsciente com relação ao fato de que a necessidade humana de refletir
acompanha quase tudo o que acontece ao homem, ora as coisas que conhece, e ora
as que nunca poderá conhecer. Mas, por tê-la justificado unicamente em termos
das questões últimas Kant não se deu conta que havia liberado a razão, portanto
a habilidade de pensar. Afirmava, defensivamente, que havia achado necessário
negar o conhecimento para abrir espaço para fé. Mas não abriu espaço para a fé,
e sim para o pensamento, não “negou o conhecimento“, mas separou o conhecimento
do pensamento.
Sócrates,
consciente de que lidava com invisíveis, utiliza uma metáfora para esclarecer a
atividade de pensar, a metáfora do vento: “os ventos são eles mesmos
invisíveis, mas o que eles fazem mostra-se a nós e, de certa maneira, sentimos
quando eles se aproximam”. Em Antígona de Sófocles, encontramos a mesma
metáfora: “pensamento rápido como o vento”.
Heidegger se refere ao “tufão do pensamento“. Descartes, em suas Meditações
afirma: “Se duvido, penso”. Parte da máxima incerteza, do mundo sensível,
do mundo dos sentidos, demolindo antigas opiniões, consideradas falsas, regidas
por um malin génie, chegando a uma primeira certeza a respeito da
própria subjetividade: ”penso”. Depois da dúvida chega-se a certeza do Cogito:
“Penso, logo sou”.
Lacan reflete sobre
o sujeito da certeza, afirmando que a via de Freud é cartesiana, parte do
fundamento do sujeito da certeza, mas o que “Descartes não sabia, a não ser que
fosse o sujeito de uma certeza e rejeição de todo saber anterior – mas nós
sabemos, graças a Freud, que o sujeito do inconsciente se manifesta, que isso
pensa antes de entrar na certeza”. Esta é a grande revolução freudiana, o
“pensamento” inconsciente. Como Lacan fala: “Tudo que anima, o de que fala toda
enunciação, é desejo”. Para Lacan a hiância do inconsciente é “pré-ontológica”,
o que é da ordem do inconsciente “é que ele não é nem ser nem não-ser, mas é
algo de não-realizável“.
Eros, no sentido
grego é amor, e Sócrates se diz conhecedor do tema do amor onde Hannah Arendt
afirma: “O amor, como Eros, é antes de tudo, uma falta; deseja o que não tem.
Os homens amam a sabedoria e começam a filosofar porque não são sábios... Ao
desejar o que não tem, o amor estabelece uma relação com o que não está
presente... É porque a busca empreendida pelo pensamento é um tipo de amor
desejante que os objetos do pensamento só podem ser coisas merecedoras de amor
– beleza, sabedoria, justiça etc. O mal e a feiúra quase por definição estão
excluídos da consideração do pensamento. Eles podem apresentar-se como
deficiências, consistindo a feiúra na ausência da beleza e o mal, kakia,
na ausência de bem”. Para Sócrates o pensamento dissolve conceitos positivos
até o significado original, o mesmo acontecendo com os negativos, até o nada.
Logo, não acredita em mal voluntário, “o mal não tem estatuto ontológico: ele
consiste em uma ausência, um algo que não é”. A relação entre o mal e a
ausência de pensamento em Sócrates é “que as pessoas que não amam a beleza, a
justiça e a sabedoria são incapazes de pensar, enquanto que reciprocamente,
aqueles que amam a investigação, e assim “fazem filosofia” são incapazes de fazer
o mal”.
Hannah Arendt,
tomando como base esta reflexão socrática, aproxima-se da questão tão discutida
da possível conexão entre a ausência de pensamento e o mal. Diz que Sócrates
não pode ter acreditado que só poucos têm capacidade de pensar, nem que só
alguns objetos de pensamento ofertam dignidade à atividade de pensar. “Se há
algo no pensamento que possa impedir os homens de fazer o mal, esse algo deve
ser uma propriedade inerente à própria atividade, independente dos seus objetos”.
Sobre este assunto, no diálogo Górgias, onde o tema é a retórica (arte
de dirigir e convencer as pessoas), Sócrates traz duas afirmações. A primeira é
“melhor sofrer o mal do que o cometer“; e a segunda: ”Eu preferiria que minha
lira ou um coro por mim dirigido desafinasse e produzisse ruído desarmônico, e
[preferiria] que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, viesse a entrar em desacordo
comigo mesmo e a contradizer-me”. Apesar de Platão ter concluído o diálogo com
um mito de além-mundo, onde reconhece o fato de que o homem voluntariamente
comete atos maus, demonstrando a dificuldade destes filósofos de lidar com o
problema do mal, Sócrates não está falando como cidadão comum, mas abordando a
questão do pensamento. Sócrates se diz apaixonado pela sabedoria, respondendo a
Cálicles que não o compreende, que diz primeiro que é melhor morrer do que ser
escravo, pois sofrer o mal não é digno do homem (na Grécia se o indivíduo fosse
a guerra e perdesse, era melhor morrer do que se tornar escravo do vitorioso);
e segundo, que Sócrates estava “enlouquecido pela eloquência”.
Hannah Arendt
afirma que Sócrates se diz um, logo não quer entrar em desacordo consigo mesmo,
mas nada do que é Um, idêntico a si mesmo (A é A), pode estar em harmonia ou
desarmonia consigo mesmo, “no mínimo dois tons sempre são necessários para
produzir um som harmonioso. Certamente quando apareço e sou visto pelos outros,
sou um; de outro modo seria irreconhecível... Chamamos de consciência
(literalmente, “conhecer comigo mesmo”, como vimos) o fato curioso de que, em
certo sentido, eu também sou para mim
mesmo, embora quase não apareça para mim – o que indica que “sendo um” socrático não é tão pouco
problemático como parece; eu não sou
apenas para os outros, mas também para mim mesmo; e, nesse último caso,
claramente eu não sou apenas um. Uma diferença se instala na minha unicidade”.
Hannah
Arendt afirma que Sócrates descobriu o “dois-em-um” como essência do
pensamento, mas quando o pensador é chamado para o mundo das aparências, ele se
torna Um, pois o processo de pensamento é interrompido, como se a dualidade em
que tinha se dividido o pensamento retornasse à unidade. O pensamento,
existencialmente falando, é um “estar-só“, não sendo solidão. “O estar-só é a
situação que me faço companhia”. A solidão seria a incapacidade de se dividir
em “dois-em-um”, como Jaspers afirmava: “eu falto a mim mesmo“. Os homens, para
Hannah Arendt existem no plural. É a dualidade do eu consigo mesmo que torna o
pensamento uma atividade onde eu mesmo pergunto e respondo.
Para Sócrates a
dualidade do “dois–em-um” representava que para aquele que quer pensar é
proveitoso que os parceiros do diálogo sejam “amigos”. “O parceiro que desperta...
quando estamos alertas e sós, é o único do qual não podemos nos livrar - exceto
parando de pensar. É melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la; quem
gostaria de ser amigo e ter que conviver com um assassino?” Hannah Arendt
associa a afirmação socrática com o Imperativo Categórico de Kant: “subjacente
ao imperativo “aja apenas segundo uma máxima tal que você possa ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal” está a ordem: não se
contradiga”. A lei básica do diálogo do pensamento é não se contradiga.
No diálogo Hípias
Maior, Sócrates descreve esta situação ao se referir que em sua casa lhe
espera um parente próximo, afirmando Hannah Arendt, que anos depois a este
sujeito que lhe aguarda em casa foi dado o nome de “consciência moral”, que
aparece como um repensar de opiniões não submetidas à análise: “O que faz um
homem temê-la é a antecipação da presença de uma testemunha que o aguarda
apenas se e quando ele volta para
casa”. E, prossegue: “Não se trata aqui de perversidade ou bondade, como também
não se trata de inteligência ou estupidez. Uma pessoa que não conhece essa
interação silenciosa (na qual examinamos o que dizemos e fazemos) não se
importa em contradizer-se, e isso significa que ela jamais quererá ou poderá prestar
contas do que faz ou diz; nem se importará em cometer um crime, já que pode
estar certa de esquecê-lo no momento seguinte”. Nem poderá começar “este
diálogo isolado e sem som que chamamos de pensar...”.
A psicanálise é "arte" com palavras, linguagem. O pensamento socrático traz importantes
contribuições para a compreensão do discurso psicanalítico. No Banquete,
de Platão, obra de leitura atenta realizada por Lacan, encontramos conceitos
fundamentais como desejo e transferência. Hannah Arendt realiza uma leitura
original do pensamento socrático sobre
pensar e ausência do pensar. Hoje, ocorre desinteresse para a ação do
pensar. A diminuição da demanda à clínica psicanalítica se aproxima desta
situação crescente mundial de ausência de pensamento, do encolhimento do
simbólico, aparecendo a condição de solidão. Cada vez mais o homem se torna
solitário: a solidão como incapacidade de dividir “dois-em-um”.
Bibliografia
Arendt, H.. A Vida do Espírito.
RJ: Relume Dumará, 1995.
Arendt H.. A Condição Humana.
RJ: Forense Universitária, 1999.
Descartes, R.. Meditações. In Os pensadores.
SP: Editora Nova Cultural, 1999.
Deleuze, G.. Conversações. SP: Editora 34, 1998.
Deleuze, G. e Parnet, C.. Diálogos. SP: Editora Escuta,1998.
Ferreira, A. B. H.. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. RJ:
Editora Nova Fronteira.
Kaufmann P.. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. RJ: Jorge
Zahar, 1996.
Lacan, J.. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. RJ:
Jorge Zahar, 1988.
Rogers, C. R.. Tornar–se Pessoa, Lisboa: Livraria Martins
Fontes, 1973.
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