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sábado, 18 de dezembro de 2021

Solidão, terror e totalitarismo em Hannah Arendt

 

                     Solidão, terror e totalitarismo em Hannah Arendt

                                                                                      Rosa Jeni Matz

Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo (2012), escrito em 1951, afirma que o totalitarismo difere de todas outras formas de opressão política. Difere do despotismo, da tirania e da ditadura. O totalitarismo sempre que galgou o poder criou instituições políticas novas e destruiu todas as tradições sociais legais e políticas do país.

No despotismo, o poder é ilimitado e o povo não pode se opor as ideias e ações do governante. Os únicos beneficiados, muitas vezes, é a própria família do déspota, caracterizando o nepotismo.

Por sua parte, o poder no absolutismo é limitado pela lei divina. Isto implicava que os monarcas eram pessoas religiosas e deviam tentar praticar os ensinamentos divinos no seu governo.

tirania é, historicamente, um tipo de governo em que o líder chega ao poder ou continua na liderança de maneira ilegítima. Um governo sem leis no qual o poder é exercido por um só homem. O medo surge como princípio de ação: medo do povo em relação ao governante e o medo do governante pelo povo. Os primeiros registros de governos tiranos datam do período arcaico da Grécia Antiga (séculos VIII A.C. a VI A.C.), sendo que a palavra tirania origina-se do vocábulo grego týrannos, que significa líder ilegítimo.

ditadura é um regime de governo onde o poder está concentrado nas mãos de um indivíduo ou grupo. Uma ditadura se caracteriza por ter censura, falta de eleições transparentes e um intenso controle na vida dos cidadãos.

Arendt diz que o governo totalitário sempre transformou as classes em massas, substituiu o sistema partidário não por ditaduras unipartidárias, mas por um movimento de massa, transferiu o poder do Exército para a polícia e estabeleceu uma política exterior que visava abertamente o domínio mundial. 

O poder totalitário destruiu, segundo a filosofia política, as definições da essência dos governos, isto é, a alternativa entre governo legal e ilegal, poder arbitrário e legítimo, mas não opera sem uma lei, pois afirma obedecer as leis da Natureza ou da História. Há um rompimento com o consensus iuris que segundo Cícero constitui um povo, e que como lei internacional tem constituído o mundo civilizado. Segundo Cícero o povo é uma reunião de homens associados pelo consentimento do direito e pela comunidade de interesses. Para Santo Agostinho, na Civitas Dei, o consentimento do direito significa que sem justiça não pode governar-se e que a justiça é uma virtude que dá a cada um o que é o seu. O julgamento moral como a punição legal pressupõe este consentimento básico. O conceito totalitário dispensa o consensus iuris porque promete libertar da lei todo ato e desejo humano. 

No totalitarismo todas as leis se tornam leis de movimento. Os nazistas se referiam à lei da natureza e os bolchevistas à lei da história.  Estas leis se manifestam no nazismo como leis raciais, como expressão da lei da natureza, da ideia de Darwin do homem como um produto da evolução natural. Na crença bolchevista, a luta de classes como expressão da lei da história, a ideia de Marx da sociedade como produto de um momento histórico que se dirige para o fim dos tempos históricos, quando então se extinguirá a si mesmo. Hannah Arendt diz que o movimento da história e o movimento da natureza são um só. Darwin introduziu o conceito de evolução na natureza, insistiu que o movimento natural é unilinear, que progride infinitamente, logo a natureza assimilada à história, sendo que a vida natural deve ser vista como histórica. "A lei natural da sobrevivência dos mais aptos é tão histórica - e pôde ser usada como tal pelo racismo - quanto à lei de Marx da sobrevivência da classe mais progressista". A luta de classes de Marx como força motriz da história é expressão externa do desenvolvimento de forças produtivas emanadas da "energia trabalho" dos homens. O trabalho para Marx é uma força natural-biológica produzida pelo metabolismo do homem com a natureza, e através dele conserva sua vida individual e reproduz a espécie. Arendt diz que o termo lei mudou de sentido, deixa de expressar a estrutura de estabilidade dentro do qual podem ocorrer os atos, ecos de movimentos humanos, para ser a expressão do próprio movimento.

Na política totalitária a lei de matar, forma pelo qual os governos totalitários exercem o poder é uma lei de movimento.

O lugar da lei no corpo político do governo totalitário é tomado pelo terror total, que se destina a converter em realidade a lei do movimento da história ou da natureza. O terror torna-se total quando independe de toda oposição, ninguém barra o seu caminho.

" Se a legalidade é a essência do governo não tirânico e a ilegalidade é a essência do tiranismo, o terror é a essência do domínio totalitário".

O terror é a realização da lei do movimento. O seu objetivo é tornar possível à força da natureza ou da história propagar-se livremente por toda a humanidade sem o estorvo de qualquer ação humana espontânea. Esse movimento seleciona os inimigos da humanidade contra os quais se desencadeia o terror e não pode permitir que qualquer ação livre de oposição ou de simpatia interfira com a eliminação do inimigo objetivo da História ou da Natureza, da classe ou da raça. Culpa e inocência viram conceitos vazios, culpado é quem estorva o caminho do processo natural ou histórico, como as raças inferiores, classes agonizantes e povos decadentes. Este julgamento é para ser cumprido, mas neste tribunal os interessados são inocentes. O terror é a legalidade quando a lei é a lei do movimento de alguma força sobre-humana da Natureza ou da História. Não tem como fim o bem-estar humano, elimina os indivíduos pelo bem da espécie, sacrifica as partes em benefício do todo.

Mas, Hannah Arendt diz que a força sobre-humana da Natureza ou da História tem o seu próprio começo e o seu fim, de sorte que só pode ser retardada pelo novo começo e pelo fim individual que é a vida de cada homem. "A cada nascimento, um novo começo surge para o mundo, um novo mundo em potencial passa a existir". A estabilidade das leis corresponde ao constante movimento de todas as coisas humanas, que não podem cessar enquanto os homens nasçam e morram. As leis positivas circunscrevem cada novo começo e asseguram a liberdade de movimento, a potencialidade de algo novo e imprevisível. As leis positivas são as leis constitucionais e regulam os direitos humanos, garantem a preexistência de um mundo comum, que transcende a duração individual de cada geração.

O terror total muitas vezes, no início, é considerado sintoma de uma tirania, mas não visa o poder despótico de um homem contra todos. Constrói um cinturão de ferro que cinge os homens de tal forma, como se a pluralidade se dissolvesse em Um-Só-Homem de dimensões gigantescas. "Abolir as cercas da lei entre os homens - como faz a tirania - significa tirar dos homens os seus direitos e destruir a liberdade como realidade política viva, pois o espaço entre os homens delimitado pelas leis é o espaço vital da liberdade". O terror total também destrói o deserto sem cercas e sem lei, deserto da suspeita e do medo que a tirania deixa atrás de si. Mas, apesar do deserto da tirania não ser mais espaço vital da liberdade, ainda deixa margem aos movimentos medrosos de seus habitantes. Já o terror total, essência do regime totalitário, não existe a favor ou contra os homens. Quer acelerar o movimento das forças da história e da natureza, que se torna mais forte que as forças engendradas pela ação e pela vontade do homem. Embora este movimento possa ser retardado pela liberdade do homem, não pode ser negado nem pelo governante totalitário, a liberdade equivale ao fato de que os homens nascem e que portanto cada um deles é um novo começo e em certo sentido o início de um novo mundo. Pelo ponto de vista totalitário o fato dos homens nascerem e morrerem seria um modo aborrecido de interferir com forças superiores. Assim, o terror como servo obediente do movimento natural ou histórico tem de eliminar do processo não apenas a liberdade em sentido específico, mas a própria fonte de liberdade que está no nascimento do homem e na sua capacidade de começar de novo. O cinturão de ferro do terror destrói a pluralidade dos homens e faz todos Um, que age como fazendo parte desta corrente da história e da natureza, isto é, o terror executa as sentenças de morte que a Natureza pronunciou contra aquelas raças, indivíduos indignos de viver, ou que a História decretou contra as classes agonizantes. O movimento se torna a essência do próprio regime.

Hannah Arendt afirma que a ideologia é literalmente a lógica de uma ideia. O seu objeto de estudo é a história, à qual a ideia é aplicada, sendo um processo que está em constante mudança. Diz que a ideologia não se interessa pelo milagre do ser. As ideologias são históricas, interessadas no vir a ser e no morrer, na ascensão e queda das culturas. A ideia de uma ideologia não é a essência de Platão, nem o princípio regulador da razão de Kant, mas um instrumento de explicação a partir de uma única premissa. As ideologias pressupõem que uma ideia pode explicar tudo, onde a liberdade humana de pensar fica aprisionada. As ideologias não transformam a realidade, e sim afastam o pensamento da experiência, arrumando os fatos por um processo lógico que se inicia por uma premissa aceita como axioma, tudo sendo deduzido a partir dela, gerando o seu movimento, e a emancipação da realidade e da experiência. Não há dialética de tese, antítese e síntese. A premissa inicial engloba e atinge todos os campos da realidade.

O movimento totalitário afasta o pensamento da experiência e da realidade, buscando através da propaganda injetar um significado secreto em cada evento público e farejar intenções secretas atrás de cada ato político público. O conceito de inimizade é substituído pelo conceito de conspiração, incutindo uma mentalidade no indivíduo que o afasta de seu pensar próprio, afastando o pensamento da experiência.

Os governantes totalitários, ideólogos como Hitler e Stalin, transformaram as suas ideologias em armas para que que cada um dos governados entrassem em harmonia com o movimento do terror que engolia os "indignos de viver", os "incapazes". 

A força do processo lógico deduzido do totalitarismo se apodera das massas para a realização dos seus objetivos ideológicos: massa, uma sociedade sem classes (luta de classes, lei da história) ou uma raça dominante (luta de raças, lei da natureza).

A tirania da lógica, compulsão interna do totalitarismo, começa com a submissão da mente à lógica como processo sem fim, no qual o homem elabora seus pensamentos. Através dessa submissão ele renuncia tanto à sua liberdade interior de pensar, liberdade como a capacidade interior do homem de começar, como à liberdade política, que equivale a um espaço que permite o movimento entre os homens. O governo totalitário impedindo o pensar individual ignora o nascimento e a morte.

A compulsão do terror total, com o seu cinturão de ferro comprime as massas de homens isolados umas contra as outras e lhe dá apoio num mundo que para elas se tornou deserto, sendo que a força autocoercetiva da dedução lógica prepara cada indivíduo em seu isolamento solitário contra todos os outros que se retroalimentam.

O terror arruína as relações entre os homens, e a auto-compulsão do pensamento ideológico destrói toda a relação com a realidade. 

Hannah Arendt diz que o preparo do movimento totalitário triunfa quando as pessoas perdem o contato com os seus semelhantes e com a realidade, perdendo assim a capacidade de sentir e pensar.

"O súdito ideal do governo totalitário...é aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção (isto é, a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento).

Arendt questiona qual  tipo de experiência básica na vida em comum, que inspira uma forma de governo cuja a essência é o terror e cujo princípio de ação é a lógica do pensamento ideológico. Afirma que esta forma de domínio político, mistura do terror com a lógica totalitária, nunca foi utilizada anteriormente, e acentua que este corpo político foi planejado por homens, e que responde à necessidade humanas. O terror só pode reinar absolutamente sobre homens que se isolam uns contra os outros, e um governo tirânico quer provocar este isolamento. O isolamento pode ser o começo do terror, é o seu solo mais fértil e sempre decorre dele. É um isolamento pré-totalitário, sua característica é a impotência, pois a força somente surge do trabalho em conjunto, sendo os homens isolados impotentes por definição. O isolamento e a impotência, que é a incapacidade básica de agir, são características da tirania.

Os contatos políticos entre os homens são cortados no governo tirânico e as capacidades humanas de ação e poder são frustradas. Mas nem todos os contatos entre os homens são interrompidos e nem todas as capacidades humanas são destruídas na tirania. Toda a esfera da vida privada, junto com a capacidade de sentir, de inventar, e pensar permanece intacta.

Já no totalitarismo o terror total, seu cinturão de ferro, elimina o espaço para essa vida privada e a autocoerção da lógica totalitária destrói a capacidade humana de sentir e pensar como a capacidade de agir.

Arendt afirma que o que chama de isolamento na esfera política é chamado de solidão na esfera dos contatos sociais. Isolamento e solidão não são a mesma coisa. Pode-se estar isolado, numa situação em que não se possa agir, pois não há ninguém para interagir, sem que se esteja solitário como numa situação de abandono. O isolamento é um impasse quando a esfera política da vida dos homens, seus interesses em comum, é destruída. Mas o isolamento embora destrua a capacidade e o poder de agir deixa intactas as atividades produtivas do homem, sendo também em alguns momentos necessário. O homo faber tende a se isolar pelo seu trabalho, deixando temporariamente o terreno da política. A fabricação, a poiesis, o ato de fazer coisas que se distingue da ação, da praxis, e do mero trabalho acontece quando o homem se isola dos interesses comuns. No isolamento o homem permanece em contato com o mundo como obra humana, mas somente quando se destrói a forma mais elementar da criatividade humana, que é a capacidade de acrescentar algo de si mesmo ao mundo ao redor, o isolamento se torna insuportável. Isso pode acontecer num mundo ditado só pelo trabalho, onde permanece o esforço do homem de se manter vivo e desaparece a relação com o mundo como criação humana.

Quando o homem isolado perdeu o seu lugar no terreno político de ação e também é abandonado pelo mundo das coisas, quando já não é reconhecido como homo faber, mas é tratado como animal laborans cujo necessário "metabolismo com a natureza" não é do interesse de ninguém, o isolamento se torna solidão. A escravatura na Antiguidade dominada por tirania provocou homens solitários e não apenas isolados, tendendo a ser totalitária.

Enquanto o isolamento se refere apenas ao terreno político da vida, a solidão se refere à vida humana como um todo. O governo totalitário, como todas as tiranias, não poderia existir sem destruir a esfera da vida pública, sem destruir pelo isolamento as suas capacidades políticas. Mas, a inovação do domínio totalitário é que ele não se contenta com esse isolamento e destrói a vida privada. "Baseia-se na solidão, na experiência de não se pertencer ao mundo, que é uma das mais radicais e desesperadas experiências que o homem pode ter".

A solidão, o fundamento para o terror, é a essência do governo totalitário. Para a ideologia e a lógica, a preparação de seus carrascos e vítimas, têm íntima ligação com o desarraigamento e a superfluidade que atormentavam as massas modernas desde a Revolução industrial e também com o colapso das instituições políticas e tradições sociais. Não ter raízes significa não ter no mundo um lugar reconhecido e garantido pelos outros, ser supérfluo significa não pertencer ao mundo de forma alguma. O desarraigamento pode ser a condição preliminar da superfluidade, tal como o isolamento pode ("mas não deve") ser a condição preliminar da solidão.

Em sua essência a solidão é contrária às necessidades básicas da condição humana. Até a experiência do mundo depende do nosso contato com outros homens, do nosso senso comum que regula nossos sentidos, sem o qual cada um de nós ficaria enclausurado em sua própria particularidade de dados sensoriais, que são traiçoeiros e indignos de fé. Somente porque a Terra é habitada por homens no plural que podemos confiar em nossa experiência sensorial imediata. 

Solidão não é estar só. Quem está desacompanhado está só, enquanto a solidão se manifesta mais nitidamente na companhia de outras pessoas. Quando se está só se está consigo mesmo, em companhia do seu próprio eu, se é dois em um, enquanto na solidão se é apenas um, abandonado por todos os outros. Todo ato de pensar é feito quando se está a sós, e constitui um diálogo entre eu e o eu mesmo, e este diálogo de dois em um não perde contato com o mundo dos semelhantes, que estão representados no eu, onde se estabelece o diálogo do pensamento. Mas, dois em um necessita de outros para que volte a seu um, um indivíduo imutável cuja a identidade não pode ser confundida com a de qualquer outro.

Viver a sós pode levar à solidão, quando o próprio eu desaparece.

O que torna a solidão insuportável é a perda do próprio eu, onde se perde a confiança em si mesmo como parceiro de seus pensamentos e perde a confiança elementar do mundo, das experiências. O eu e o mundo, a capacidade de pensar e de sentir, perdem-se ao mesmo tempo.

Arendt diz que a única capacidade do espírito humano que não precisa do eu, nem dos outros, nem do mundo para funcionar, que independe do pensamento e da experiência, é a capacidade do raciocínio lógico cuja a premissa é evidente por si mesmo. Na solidão absoluta 2 e 2 são quatro. É a única "verdade" segura quando os seres humanos perdem a garantia mútua, senso comum de que necessitam para viver, de sentir e encontrar seu caminho no mundo. Mas essa "verdade" é vazia e nem chega a ser verdade, uma vez que nada revela. A verdade não pode ser definida como coerência como fazem alguns lógicos modernos. Na solidão a evidência passa a produzir as linhas de "pensamento". Como disse Lutero o homem solitário sempre deduz uma coisa da outra, e sempre pensa o pior de tudo. O extremismo dos movimentos totalitários não é o radicalismo, mas consiste em "pensar o pior", num processo dedutivo que leva às piores conclusões possíveis.

O que prepara os homens para o domínio totalitário no mundo não totalitário é o fato que a solidão, já sofrida em situações marginais como a velhice, passa a ser experiência diária de massas cada vez maiores. "O impiedoso processo no qual o totalitarismo engolfa e organiza as massas é uma fuga suicida dessa realidade. O "raciocínio frio como o gelo" e o "poderoso tentáculo" parecem ser o último apoio num mundo onde ninguém merece confiança e onde não se pode contar com coisa alguma. É a coerção interna cujo único conteúdo é a rigorosa evitação de contradições, que parece confirmar a identidade de um homem independentemente de todo relacionamento com os outros. Ele é preso no cinturão de ferro do terror mesmo quando ele está sozinho. Destruindo todo os espaços entre os homens e pressionando-os uns contra os outros, destrói-se até mesmo o potencial produtivo do isolamento, ensinando e glorificando o raciocínio lógico da solidão, onde o homem estará completamente perdido se deixar fugir a primeira premissa que inicia este processo. Comparado a tirania é encontrado um meio de imprimir movimento ao próprio deserto, um meio de desencadear uma tempestade de areia que pode cobrir todas as partes de um mundo habitado.

Hoje, o terreno da política é ameaçado por estas devastadoras tempestades de areia.

Mas, não se estabelece um mundo permanente. O domínio totalitário como a tirania traz o germe de sua própria destruição. Como o medo e a impotência que vêm do medo são princípios antipolíticos e levam os homens a uma situação contrária à ação política, também a solidão e a dedução do pior (por meio da lógica ideológica que advém da solidão) representam uma situação antissocial que contêm um princípio que pode destruir toda forma de vida humana em comum. A solidão organizada é mais perigosa que a impotência organizada pelo governo tirânico de um só homem. É o seu perigo que ameaça devastar o mundo que conhecemos, um mundo que parece ter chegado ao fim, antes que um novo começo surgisse desse fim, e que tenha tido tempo de firmar-se.

Arendt diz que a crise de nosso tempo deu origem a esta nova forma de governo que tende a permanecer. Mas, permanece também a verdade que todo fim na história constitui um novo começo, sendo esse começo a promessa, a única "mensagem" que o fim pode produzir. 

"O começo, antes de tornar-se evento histórico, é a suprema capacidade do homem; politicamente equivale à liberdade do homem".

Cita Agostinho que diz que "o homem foi criado para que houvesse um começo". 

Cada novo nascimento garante o começo.

Bibliografia

 Arendt, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

 

domingo, 26 de maio de 2013

Questões sobre a clínica psicanalítica no final do século XX e início do século XXI

Questões sobre a clínica psicanalítica no final do século XX e início do século XXI
                                                                                                     Rosa Jeni Matz

Este trabalho é uma reflexão sobre a crise da clínica psicanalítica nos finais do século XX e no início do século XXI. Em nosso país, eficientes psicanalistas trabalham em seus consultórios, mas por que a demanda clínica diminuiu?
Podemos tentar responder a questão através da perspectiva econômica. O Brasil e todas as nações vivem um momento difícil. O dinheiro, a moeda é rara. O desemprego cresce nas manchetes dos jornais. A vida íntima é escrachada em programas de televisão, onde a moeda comanda. A psicanálise que era considerada elitista nos anos 1980, embora ocorresse o funcionamento de algumas clínicas sociais, se popularizou mais, atendendo a população através de clínicas sociais, convênios, cooperativas, e até nos consultórios particulares o preço da consulta, muitas vezes, diminuiu pela baixa demanda. Mas será que o problema econômico atual é a causa da crise na clínica?
 Tem ocorrido uma inversão do privado e do público. Expor o privado não é mais uma questão de vergonha, humilhação, mas sim uma forma de se aproximar do poder. Na televisão, o privado se torna público, e sustenta a atenção do público. Gilles Deleuze, em Conversações, na entrevista Controle e Devir, afirma: “Talvez a fala, a comunicação estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar”. Cita Primo Levi, que diz que os campos nazistas introduziram “a vergonha de ser um homem”. Os homens foram manchados pelo nazismo. Primo Levi chama de ”zona cinza”: “Vergonha por ter havido homens para serem nazistas, vergonha por não ter podido ou sabido impedi-lo, vergonha de ter feito concessões...” Acrescenta Deleuze: E quanto à vergonha de ser um homem, acontece de a experimentarmos também em circunstâncias simplesmente derrisórias: diante de uma vulgaridade grande demais no pensar, frente a um programa de variedades, face ao discurso de um ministro, diante de conversas de “bons vivants”.
 Podemos refletir sobre a banalização do pensar, como também a ausência do pensamento no mundo atual, no campo da comunicação, e em muitos programas de televisão. Pensamento como criação, criação de conceitos. O que encontramos são programas onde a intimidade sai do ambiente fechado, entrando no ambiente aberto, sem limites. Além da inversão do privado e do público, as fronteiras se dissipam. Estamos no mundo sem fronteiras. A arquitetura lança projetos onde as paredes desaparecem. O novo modelo de residência, o loft, inclui ambientes sem divisórias, onde a intimidade desaparece. O privado é olhado, controlado.
Gilles Deleuze afirma: “Estamos entrando nas sociedades de controle, que funcionam não mais por confinamento, mas por controle contínuo e comunicação instantânea. Burroughs começou a análise dessa situação. Certamente não se deixou de falar da prisão, da escola, do hospital: essas instituições estão em crise. Mas se estão em crise, é precisamente em combates de retaguarda. O que está sendo implantado, às cegas, são novos tipos de sanções, de educação, de tratamento.
O consultório psicanalítico, ambiente de arquitetura fechada, com portas e paredes, com limites precisos, teria de ser também atingido por essa prática de poder, o controle. As suas paredes poderão ser demolidas? O edifício psicanalítico está sendo transformado, sem que muitos profissionais se dêem conta.    
Podemos, também, refletir sobre a psicanálise pelo viés da “moda” (senso comum). No dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira se encontra a moda definida como: “uso, hábito ou estilo geralmente aceito, variável no tempo, e resultante de determinado gosto, idéia, capricho e das interinfluências do meio: conceitos em moda, a moda parnasiana”. Nos anos 1970 e 1980, podemos perguntar se a psicanálise estava em moda? Com muita força havia o movimento hippie, a revolução cultural, a anti-psiquiatria e a psicanálise. Os consultórios eram procurados, a demanda era farta, o apogeu. Para muitos a psicanálise estava em moda. Mas será que podemos associa-la à moda? Seria a psicanálise um “uso, hábito ou estilo”? Para os que a utilizaram como uso ela estava em moda. Numa sociedade capitalista, onde a própria invenção humana, a sua criatividade se torna um bem de consumo, um gadget, que depois de um tempo é jogado fora, como uma roupa que não está mais na moda, a clínica pode ter sido utilizada como um bem durável, como um meio de atingir a felicidade, que ao atingi-la ou não atingi-la, seria descartado após o seu uso.
Não é, também, pelo hábito que ela pode ser discutida, já que, figuradamente, como aparência exterior, aparece no mesmo dicionário a expressão “o hábito não faz o monge”, que Lacan revoluciona ao afirmar que “o hábito faz o monge”. A questão do estilo é muito vasta. Estilo é definido, no dicionário, como modo de escrever, de exprimir os pensamentos (entre outras definições). Podemos pensar em estilo psicanalítico? Esta é uma questão. “Freud explica?”, como expressão popular estaria relacionada ao estilo psicanalítico e/ou desejo?
Gilles Deleuze, em Diálogos, diz que os devires “são atos que só podem estar contidos em uma vida e expressos em um estilo”. Tanto os estilos, como os modos de vida não são construções. “No estilo não são as palavras que contam, nem as frases, nem os ritmos e as figuras... Gostaria de dizer o que é um estilo. É a propriedade daqueles dos quais habitualmente se diz “eles não têm estilo...”. Não é uma estrutura significante, nem uma organização refletida, nem uma inspiração espontânea, nem uma orquestração, nem uma musiquinha. É um agenciamento, um agenciamento de enunciação. Conseguir gaguejar em sua própria língua é isso um estilo... ser gago da própria linguagem. Ser como um estrangeiro em sua própria língua”.
Podemos pensar em Freud como um estrangeiro em sua língua alemã. Um estrangeiro, o estranho (unheimlich) no sentido do que lhe era mais familiar (heimlich). Consideramo-lo um grande escritor. A sua obra revolucionária gerou estranheza no meio intelectual de sua época. A expressão “Freud explica” aponta para uma estranheza, um desconhecimento na língua. Algo precisa ser explicado, algo escapa, há uma falta, daí a sua relação com o desejo.  
Psicanálise não é moda. Ela se torna moda quando é usada e abusada. Esta não é sua finalidade. Mas, constantemente ouvimos afirmações como: “A psicanálise saiu de moda”. Como tentar explicar este momento? Como sair desta indagação? Em várias revistas e jornais encontramos entrevistas em que os entrevistadores questionam aos entrevistados (psicanalistas, historiadores da psicanálise, etc) se a psicanálise terminou, se a morte da psicanálise se aproxima.
 Hoje, as academias de ginásticas estão lotadas. O corpo malhado é a grande meta, o bem supremo. A aparência jovem, esbelta, musculosa comanda o espetáculo. A saúde, tanto física como mental, é adquirida através de exercícios físicos regulares. O corpo é a grande estrela. Bodypump, Spinner, e outras técnicas são utilizadas em academias como fornecedoras de uma idéia de um corpo perfeito, ideal. “Become Somebody”. Esta é uma propaganda ligada ao BodyPump. Tornar-se alguém, tornar-se pessoa? A famosa obra de Carl Rogers, Tornar-se Pessoa, hoje se banalizou nas academias. Hoje, tornar-se alguém ou ninguém é ter um corpo “sarado”, quer dizer musculoso.
                  Observamos uma mudança na sexualidade. A psicanálise tem como um dos seus fundamentos a sexualidade humana. O surgimento da AIDS trouxe transformações no comportamento humano, e principalmente na sua vida sexual. Atualmente morte e sexo estão fortemente associados. As pessoas diminuíram a sua atividade sexual, fazendo sexo por telefone, pela Internet. O grande momento da clínica psicanalítica vem junto a um movimento de liberdade sexual. As pessoas faziam sexo, experimentavam suas possibilidades. Podemos associar esta crise psicanalítica com a crise da libido atual. Esta energia está presa, deslocando a prática sexual para o sexo virtual. O discurso psicanalítico trata do sexo, o esvaziamento da clínica demonstra também o desinteresse atual pelo sexo, sendo o sexo deslocado para o virtual e o banal. Apesar de estarmos em outra direção do que a de Deleuze é importante cita-lo: “A psicanálise é exatamente uma masturbação, um narcisismo generalizado, organizado, codificado. A sexualidade não se deixa sublimar, nem fantasiar, o que a interessa está noutra parte, na vizinhança e na conjugação reais com outros fluxos, que a esgotam ou precipitam – tudo depende do momento, e do agenciamento”. Precisamos refletir sobre estes fluxos que esgotam ou precipitam a sexualidade e sua relação com a teoria e a técnica psicanalítica atual. Quais os fluxos que estariam esgotando a prática psicanalítica?        
                 Como pensar sobre a diminuição da demanda na clínica psicanalítica? Como se aproximar deste esvaziamento? Utilizarei a filosofia como “ferramenta” auxiliar a psicanálise, aproximando-me da seguinte reflexão de Deleuze nos Diálogos: “Quando se consegue traçar a linha, pode-se dizer é “filosofia”. Não que a filosofia seja uma disciplina última, uma raiz última que contivesse a verdade das outras, ao contrário. Muito menos uma sabedoria popular. É porque a filosofia nasce ou é produzida de fora pelo pintor, pelo músico, pelo escritor, a cada vez que a linha melódica leva o som, ou a pura linha traçada, a cor, ou a linha escrita, a voz articulada. Não há necessidade alguma de filosofia: ela é inevitavelmente produzida lá onde cada atividade faz brotar sua linha de desterritorialização. Sair da filosofia, fazer qualquer coisa para produzi-la de fora. Os filósofos sempre foram outra coisa, nasceram de outra coisa.”
                   Assim, este próprio trabalho produziu de fora a filosofia, já que traz uma voz, escrita articulada. A psicanálise, como atividade clínica, está fazendo brotar uma linha de desterritorialização. Ocorre um esvaziamento de um território para outro. A filosofia nasce de outra coisa. Este acontecimento, encontro do agenciamento psicanálise e do agenciamento filosofia, nas suas diferenças, estabelecem relações. Através destas relações, deste encontro, será desenvolvida esta reflexão.   
                   Hannah Arendt, filósofa e pensadora política, nascida na Alemanha em 1906, morrendo em 1975, deixou inacabada a obra A Vida do Espírito, dedicada ao pensamento, à vontade, e ao juízo. No volume 1, sobre o pensar, cita  que tanto a filosofia, a metafísica, a teologia  “caíram em descrédito”. Discute a afirmação de que Deus está morto: “Deus está morto” (Hegel e Nietzsche), não é que certamente esteja morto (“algo sobre o qual o nosso conhecimento é tão pequeno quanto o que temos sobre a existência de Deus (tão pequeno, de fato que mesmo a palavra “existência” está mal empregada), mas que a maneira pela qual Deus foi pensado durante milhares de anos não é mais convincente; se algo está morto, só pode ser o pensamento  tradicional sobre Deus. E algo semelhante vale também para o fim da filosofia metafísica: não que as velhas questões tão antigas quanto o próprio aparecimento do homem sobre a Terra tenham se tornado “sem sentido”, mas a maneira pela qual foram feitas e respondidas perdeu a razoabilidade”. Logo, alerta para as novas questões que surgem para o pensamento.
                 Estas “mortes modernas” foram acontecimentos com determinadas conseqüências históricas importantes. Descartes, o filósofo fundamental da Era Moderna, no estágio inicial desta era, trata cada assunto afirmando “como se ninguém o tivesse abordado antes de mim”. O mundo novo se descortinava. Através do ponto arquimediano um novo olhar é introduzido. O sujeito entra em cena. O mundo é o da subjetividade. Passamos a nos olhar e a olhar a tudo como seres universais. Ocorre uma mudança na maneira de representar o mundo. A compreensão do mundo através de um ponto remoto da Terra; uma recodificação do mundo em termos algébricos.
             A psicanálise surgiu no final do século passado. Freud revoluciona o pensamento ao introduzir o conceito de inconsciente. Não falamos em Séc. XVII, mas em Séc. XIX. A psicanálise que teve uma grande demanda nos anos 1970 e 1980 no Brasil, séc. XX, também como a metafísica e outros campos do saber, teria de viver a sua crise, já que é característica do capitalismo decodificar para depois recodificar. Teria que viver a sua “morte moderna”, ou melhor, pós-moderna. Este é o processo capitalista, construção e desconstrução. A noção de progresso surgiu como produto das descobertas científicas no Séc. XVII, criando uma conexão com o ilimitado, levando a necessidade de descobertas renovadas, de um “processo” de progresso. Seria uma nova ilusão de felicidade. Novas formas de conhecimento precisam surgir para que a visão capitalista de felicidade se mantenha. Agora, como H. Arendt afirma ao se referir a “morte” da metafísica, é possível que algumas respostas às questões psicanalíticas perderam o sentido, não invalidando estas questões. 
              Hoje, ocorre um descrédito de tudo que não é visível. Segundo H Arendt, a principal característica das atividades espirituais é a sua invisibilidade. Há uma grande dificuldade em abordar e percorrer o “domínio do invisível”, sendo que ela adverte sobre o perigo de se perder o passado e suas tradições. Podemos falar de uma crise dos ideais? Seria possível, como H. Arendt coloca, haver uma morte do invisível? Entre 1929, Moisés e o monoteísmo, e 1938, O mal-estar na cultura, Freud “terminou” a sua reflexão sobre o supereu, reunindo as reflexões já feitas em Totem e Tabu, fundamentando o assassínio do chefe da horda primitiva como a origem do supereu e do sentimento de culpa, estabelecendo uma relação entre agressividade e sentimento de culpa, e surgimento da linguagem e do pensamento.
             Podemos relacionar a crise da clínica, neste final de século, com a reflexão realizada por Hannah Arendt sobre a ausência de pensamento? Estaríamos convivendo com a banalidade do mal?
                    A. Green denomina de estados - limite uma variedade da clínica atual, que também podem ser considerados como estados limites de anasabilidade. J. Mc. Dougall denominou – os de anti – analisantes. O modelo destes casos – limite conduz a uma contradição entre angústia de separação e angústia de intrusão. Esta angústia, diz Green, parece não atingir a problemática do desejo, mas sim à formação do pensamento (Bion).
                   H. Arendt pergunta: “O que nos faz pensar?” Responde com Kant que seria pela “necessidade da razão, o impulso interno dessa faculdade para se realizar na especulação”. Kant distingue Vernunft (razão) e Verstand (intelecto) após descobrir o “escândalo da razão”, que seria que “o nosso espírito não é capaz de um conhecimento certo e verificável em relação a assuntos e questões sobre os quais, no entanto, ele  mesmo não se pode impedir de pensar”. São as “questões últimas”, que apenas o pensamento se ocupa: Deus, liberdade e imortalidade. A “necessidade urgente” da razão é mais que a busca de conhecimento, que caberia ao intelecto. Razão coincidiria com o pensar, e este com o significado; e o intelecto com o conhecimento, a cognição. Mas, Hannah Arendt comenta, que pela influência da metafísica, Kant permaneceu inconsciente com relação ao fato de que a necessidade humana de refletir acompanha quase tudo o que acontece ao homem, ora as coisas que conhece, e ora as que nunca poderá conhecer. Mas, por tê-la justificado unicamente em termos das questões últimas Kant não se deu conta que havia liberado a razão, portanto a habilidade de pensar. Afirmava, defensivamente, que havia achado necessário negar o conhecimento para abrir espaço para fé. Mas não abriu espaço para a fé, e sim para o pensamento, não “negou o conhecimento“, mas separou o conhecimento do pensamento.
                Sócrates, consciente de que lidava com invisíveis, utiliza uma metáfora para esclarecer a atividade de pensar, a metáfora do vento: “os ventos são eles mesmos invisíveis, mas o que eles fazem mostra-se a nós e, de certa maneira, sentimos quando eles se aproximam”. Em Antígona de Sófocles, encontramos a mesma metáfora: “pensamento rápido como o vento”.  Heidegger se refere ao “tufão do pensamento“. Descartes, em suas Meditações afirma: “Se duvido, penso”. Parte da máxima incerteza, do mundo sensível, do mundo dos sentidos, demolindo antigas opiniões, consideradas falsas, regidas por um malin génie, chegando a uma primeira certeza a respeito da própria subjetividade: ”penso”. Depois da dúvida chega-se a certeza do Cogito: “Penso, logo sou”.
              Lacan reflete sobre o sujeito da certeza, afirmando que a via de Freud é cartesiana, parte do fundamento do sujeito da certeza, mas o que “Descartes não sabia, a não ser que fosse o sujeito de uma certeza e rejeição de todo saber anterior – mas nós sabemos, graças a Freud, que o sujeito do inconsciente se manifesta, que isso pensa antes de entrar na certeza”. Esta é a grande revolução freudiana, o “pensamento” inconsciente. Como Lacan fala: “Tudo que anima, o de que fala toda enunciação, é desejo”. Para Lacan a hiância do inconsciente é “pré-ontológica”, o que é da ordem do inconsciente “é que ele não é nem ser nem não-ser, mas é algo de não-realizável“.
                Eros, no sentido grego é amor, e Sócrates se diz conhecedor do tema do amor onde Hannah Arendt afirma: “O amor, como Eros, é antes de tudo, uma falta; deseja o que não tem. Os homens amam a sabedoria e começam a filosofar porque não são sábios... Ao desejar o que não tem, o amor estabelece uma relação com o que não está presente... É porque a busca empreendida pelo pensamento é um tipo de amor desejante que os objetos do pensamento só podem ser coisas merecedoras de amor – beleza, sabedoria, justiça etc. O mal e a feiúra quase por definição estão excluídos da consideração do pensamento. Eles podem apresentar-se como deficiências, consistindo a feiúra na ausência da beleza e o mal, kakia, na ausência de bem”. Para Sócrates o pensamento dissolve conceitos positivos até o significado original, o mesmo acontecendo com os negativos, até o nada. Logo, não acredita em mal voluntário, “o mal não tem estatuto ontológico: ele consiste em uma ausência, um algo que não é”. A relação entre o mal e a ausência de pensamento em Sócrates é “que as pessoas que não amam a beleza, a justiça e a sabedoria são incapazes de pensar, enquanto que reciprocamente, aqueles que amam a investigação, e assim “fazem filosofia” são incapazes de fazer o mal”.
                  Hannah Arendt, tomando como base esta reflexão socrática, aproxima-se da questão tão discutida da possível conexão entre a ausência de pensamento e o mal. Diz que Sócrates não pode ter acreditado que só poucos têm capacidade de pensar, nem que só alguns objetos de pensamento ofertam dignidade à atividade de pensar. “Se há algo no pensamento que possa impedir os homens de fazer o mal, esse algo deve ser uma propriedade inerente à própria atividade, independente dos seus objetos”. Sobre este assunto, no diálogo Górgias, onde o tema é a retórica (arte de dirigir e convencer as pessoas), Sócrates traz duas afirmações. A primeira é “melhor sofrer o mal do que o cometer“; e a segunda: ”Eu preferiria que minha lira ou um coro por mim dirigido desafinasse e produzisse ruído desarmônico, e [preferiria] que multidões de homens discordassem de mim do que eu, sendo um, viesse a entrar em desacordo comigo mesmo e a contradizer-me”. Apesar de Platão ter concluído o diálogo com um mito de além-mundo, onde reconhece o fato de que o homem voluntariamente comete atos maus, demonstrando a dificuldade destes filósofos de lidar com o problema do mal, Sócrates não está falando como cidadão comum, mas abordando a questão do pensamento. Sócrates se diz apaixonado pela sabedoria, respondendo a Cálicles que não o compreende, que diz primeiro que é melhor morrer do que ser escravo, pois sofrer o mal não é digno do homem (na Grécia se o indivíduo fosse a guerra e perdesse, era melhor morrer do que se tornar escravo do vitorioso); e segundo, que Sócrates estava “enlouquecido pela eloquência”.
                 Hannah Arendt afirma que Sócrates se diz um, logo não quer entrar em desacordo consigo mesmo, mas nada do que é Um, idêntico a si mesmo (A é A), pode estar em harmonia ou desarmonia consigo mesmo, “no mínimo dois tons sempre são necessários para produzir um som harmonioso. Certamente quando apareço e sou visto pelos outros, sou um; de outro modo seria irreconhecível... Chamamos de consciência (literalmente, “conhecer comigo mesmo”, como vimos) o fato curioso de que, em certo  sentido, eu também sou para mim mesmo, embora quase não apareça para mim – o que indica que “sendo  um” socrático não é tão pouco problemático  como parece; eu não sou apenas para os outros, mas também para mim mesmo; e, nesse último caso, claramente eu não sou apenas um. Uma diferença se instala na minha unicidade”.
                      Hannah Arendt afirma que Sócrates descobriu o “dois-em-um” como essência do pensamento, mas quando o pensador é chamado para o mundo das aparências, ele se torna Um, pois o processo de pensamento é interrompido, como se a dualidade em que tinha se dividido o pensamento retornasse à unidade. O pensamento, existencialmente falando, é um “estar-só“, não sendo solidão. “O estar-só é a situação que me faço companhia”. A solidão seria a incapacidade de se dividir em “dois-em-um”, como Jaspers afirmava: “eu falto a mim mesmo“. Os homens, para Hannah Arendt existem no plural. É a dualidade do eu consigo mesmo que torna o pensamento uma atividade onde eu mesmo pergunto e respondo.
                  Para Sócrates a dualidade do “dois–em-um” representava que para aquele que quer pensar é proveitoso que os parceiros do diálogo sejam “amigos”. “O parceiro que desperta... quando estamos alertas e sós, é o único do qual não podemos nos livrar - exceto parando de pensar. É melhor sofrer uma injustiça do que cometê-la; quem gostaria de ser amigo e ter que conviver com um assassino?” Hannah Arendt associa a afirmação socrática com o Imperativo Categórico de Kant: “subjacente ao imperativo “aja apenas segundo uma máxima tal que você  possa ao mesmo tempo querer que ela se torne uma lei universal” está a ordem: não se contradiga”. A lei básica do diálogo do pensamento é não se contradiga.
                   No diálogo Hípias Maior, Sócrates descreve esta situação ao se referir que em sua casa lhe espera um parente próximo, afirmando Hannah Arendt, que anos depois a este sujeito que lhe aguarda em casa foi dado o nome de “consciência moral”, que aparece como um repensar de opiniões não submetidas à análise: “O que faz um homem temê-la é a antecipação da presença de uma testemunha que o aguarda apenas se e quando ele volta para casa”. E, prossegue: “Não se trata aqui de perversidade ou bondade, como também não se trata de inteligência ou estupidez. Uma pessoa que não conhece essa interação silenciosa (na qual examinamos o que dizemos e fazemos) não se importa em contradizer-se, e isso significa que ela jamais quererá ou poderá prestar contas do que faz ou diz; nem se importará em cometer um crime, já que pode estar certa de esquecê-lo no momento seguinte”. Nem poderá começar “este diálogo isolado e sem som que chamamos de pensar...”.
               A psicanálise é "arte" com palavras, linguagem. O pensamento socrático traz importantes contribuições para a compreensão do discurso psicanalítico. No Banquete, de Platão, obra de leitura atenta realizada por Lacan, encontramos conceitos fundamentais como desejo e transferência. Hannah Arendt realiza uma leitura original do pensamento socrático sobre  pensar e ausência do pensar. Hoje, ocorre desinteresse para a ação do pensar. A diminuição da demanda à clínica psicanalítica se aproxima desta situação crescente mundial de ausência de pensamento, do encolhimento do simbólico, aparecendo a condição de solidão. Cada vez mais o homem se torna solitário: a solidão como incapacidade de dividir “dois-em-um”.                                                            
                                                                          
Bibliografia
Arendt, H.. A Vida do Espírito.  RJ: Relume Dumará, 1995.
Arendt H..  A Condição Humana. RJ: Forense Universitária, 1999.
Descartes, R.. Meditações. In Os pensadores. SP: Editora Nova Cultural, 1999.
Deleuze, G.. Conversações. SP: Editora 34, 1998.
Deleuze, G. e Parnet, C.. Diálogos. SP: Editora Escuta,1998.
Ferreira, A. B. H.. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. RJ: Editora Nova Fronteira.
Kaufmann P.. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. RJ: Jorge Zahar, 1996.
Lacan, J.. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. RJ: Jorge Zahar, 1988.
Rogers, C. R.. Tornar–se Pessoa, Lisboa: Livraria Martins Fontes, 1973.